Poema – Mapa

A sutil descrença de Wisława Szymborska:

Mapa

Plano como a mesa
na qual está colocado.
Debaixo dele nada se move
nem busca vazão.
Sobre ele —meu hálito humano
não cria vórtices de ar
e deixa toda a sua superfície
em silêncio.

Suas planícies, vales, são sempre verdes,
os planaltos, montanhas, amarelos e marrons
e os mares, oceanos, de um azul delicado
nas margens fendidas.

Tudo aqui é pequeno, próximo, acessível.
Posso tocar os vulcões com a ponta da unha,
acariciar os polos sem luvas grossas.
Com um olhar posso
abarcar cada deserto
junto com o rio logo ali ao lado.

Selvas são assinaladas com arvorezinhas
entre as quais seria difícil se perder.

No Ocidente e Oriente
acima e abaixo do equador —
assentou-se um manso silêncio.
Pontinhos pretos significam
que ali vivem pessoas.
Valas comuns e súbitas ruínas
não cabem nesse quadro.

As fronteiras dos países mal são visíveis
como se hesitassem entre ser e não ser.

Gosto dos mapas porque mentem.
Porque não dão acesso à dura verdade.
Porque, generosos e bem-humorados,
estendem-me na mesa um mundo
que não é deste mundo.

(Tradução: Regina Przybycień)

Wisława Szymborska

…polonesa, Prêmio Nobel de Literatura (1996). A poeta, ensaísta e tradutora tem a modéstia proveniente da grandeza e competência. Certa vez, quando lhe perguntaram a razão de publicar tão pouco, respondeu:

Porque tenho uma lata de lixo em casa.

Considerava-se simplesmente uma mulher que escrevia versos; uma vez, ao ver uma enorme fila de pessoas aguardando o lançamento de seu livro, disse: “toda essa gente deve estar indo assistir a um jogo de futebol”. Ficou desesperada, quando recebeu o Nobel, ao enfrentar filmagens, convites, entrevistas de várias partes do mundo, impossibilitando-a de exercer o seu ofício. Levou quase 6 anos para se recuperar do susto do Nobel… o grande José Saramago também se queixou deste “mal”! 🙂

Como às vezes acontece, os grandes não são bem reconhecidos na terra natal. No caso de Wisława (pronuncia-se “vissuava”) católicos poloneses da direita não se esqueceram da homenagem que a jovem escritora fizera aos líderes comunistas Stalin e Lenin. Contudo, Wisława não se curvou às críticas, tornando-se importante ativista em prol da liberdade política e de expressão. Irrespondível a sua declaração ao receber o Prêmio Goethe na Alemanha:

Minha adesão aos ideais socialistas fez parte da minha geração pós-guerra, que acreditou na Utopia.

Fazendo um parênteses: aqui no Brasil, quando o Partido dos Trabalhadores apresentou um programa “democrático e limpo”, uma grande parte de nós acreditou, também, na Utopia.

Enviou para o seu editor alguns poemas em janeiro de 2012 com o título “Chega”. Veio a falecer logo depois, em 1º de fevereiro do mesmo ano. Possuía, sim, uma veia de fina ironia e humor. Gostava, ainda, de Ella Fitzgerald e de rifar entre os amigos os presentes “kitsch” recebidos às dúzias! Casou-se com um poeta, separou-se, embora tenham continuado amigos. Amou um outro escritor, cuja morte inspirou o poema “Kot w pustym mieszkaniu“:

Gato num apartamento vazio

Morrer – isso não se faz a um gato.
Pois o que há de fazer um gato
num apartamento vazio.
Trepar pelas paredes.
Esfregar-se nos móveis.
Nada aqui parece mudado,
e no entanto algo mudou.
Nada parece mexido,
e no entanto está diferente.
E à noite a lâmpada já não se acende.

Ouvem-se passos na escada,
mas não são aqueles.
A mão que põe o peixe no pratinho,
também já não é a mesma.

Algo aqui não começa
na hora costumeira.
Algo não acontece
como deve.
Alguém esteve aqui e esteve,
e de repente desapareceu
e teima em não aparecer.

Cada armário foi vasculhado.
As prateleiras percorridas.
Explorações sobre o tapete nada mostraram.
Até uma regra foi quebrada
e os papéis remexidos.
Que mais se pode fazer.
Dormir e esperar.

Espera só ele voltar,
espera ele aparecer.
Vai aprender,
que isso não se faz a um gato.
Para junto dele
como quem não quer nada,
devagarinho,
sobre patas muito ofendidas.
E nada de pular miar no princípio.

(do livro Poemas. Seleção, tradução e prefácio de Regina Przybycień. Companhia das Letras, 2011)

Jean-Yves Leloup

…é maravilhoso da cabeça aos pés! Dá gosto ler e ver…

No livro O Corpo e Seus Símbolos (a edição poderia ser bem melhor; a revisão também; o conteúdo valioso merece maiores cuidados), Leloup diz:

há palavras que permanecem presas em nossa garganta e nos impedem de respirar […] pode ser uma palavra de reprovação, de medo, mas pode ser também uma palavra de amor. […] O papel da psicanálise é encontrar a palavra e o jeito de dizer essa palavra. […] E o papel do terapeuta é o de convidar a pessoa a deixar sua palavra nascer. Não a palavra dos pais, não a palavra da sociedade, não a palavra herdada de todo um passado, não repetições, mas encontrar […] o seu próprio nome. E conhecer, então, o próprio desejo.

Para isso

[…] precisamos sair do desejo de nosso pai, do desejo de nossa mãe. […] do desejo proposto pela sociedade. […] é preciso sair das palavras que aprendemos, das palavras que nos impuseram. Às vezes, é apenas um sussurro que nasce em nós. Não é um rio caudaloso […] mas é como um pequeno regato de águas límpidas.

Trovas

Brincando de trovador:

Ilusão coisa estranha
sempre nos acompanha
quando parece finda
surge mais forte ainda

*

O bem se transforma em ódio
como fruto de grande dor
Mas o ódio, meu amigo
é forma intensa de amor

*

A vida nos deu com ternura
tesouros encobertos
deu-nos a grande ventura
sonhar de olhos abertos

Copyright©2012 Maria Brockerhoff

Amour

Amour…é um filme forte pra gente forte! Michael Haneke, diretor e roteirista austríaco é bem conhecido pela competência e pelos temas perturbadores e inquietantes.

Haneke estudou filosofia, psicologia e dramaturgia na universidade de Viena. Foi diretor de TV em 1974, estreou no cinema em 1989, já no estilo arrojado que tornaria a sua marca. Entre grandes sucessos, destacam-se “A Professora de Piano” (2001) e o surpreendente “Fita Branca” (2009). Dirige, também, óperas em Berlim, Munique e Viena. Costuma filosofar: “filmes devem oferecer espaço para a imaginação e reflexões; filmes muito explicativos com lições de moral são para mentes vazias e consumistas”.

O ator Jean-Louis Trintignant tem 82 anos e sua parceira Emmanuelle Riva tem inacreditáveis 85. Uma surpresa do filme é a apresentação pessoal do pianista Alexandre Tharaud, no papel de si mesmo – uma gentileza do diretor.

Em “Amour”, Haneke teria se baseado em fatos da própria família. Aliás, o drama do filme está agora, praticamente, em cada família, ali mesmo no vizinho…

É um retrato sem pieguices de um casal idoso que consegue tomar as rédeas das suas emoções e dificuldades com lucidez e coragem. Ali nenhum deles “deixa na mão de Deus, Alá, Jeová” ou de quem quer que seja a solução de suas vidas.

O filme mostra incisivamente a arrogância, a pretensão, em geral, de filhos distantes em querer impor, ditar o que lhes parece acertado. É instigadora e lúcida a resposta do pai para a filha:

— a sua preocupação nós é inteiramente inútil —

Isto porque a dita preocupação nada mais era do que falta de sensibilidade e de empatia com os pais. Na realidade, a desnecessária preocupação é um discurso vazio para encobrir profunda indiferença e o consequente sentimento de culpa.

O filme é imperdível. Contudo, não se lhe aplica o adjetivo “lindo”, nem é para relaxar. Muitas vezes, é bom mesmo e válido enfiar a cabeça na areia como a avestruz :-); neste caso, Haneke cortando com precisão cirúrgica a hipocrisia, mostra, a quem quiser ver, outros rumos para a vida.

Aventuras de Pi – filme de Ang Lee

Não, não é para o público infantil. E isto se comprovou quando três mocinhas conversaram, se levantaram, ficaram inquietas durante toda a sessão. Infelizmente as pré-adolescentes nem tentaram aproveitar a beleza da história. Uma pena!

piMelhor seria se o nome original tivesse sido preservado: “A Vida de Pi“, pois Ang Lee vai muito além de aventuras. É uma novela de 2001, de autoria de Yann Martel e o talentoso Ang Lee, entre muitos diretores, foi escolhido para dirigir o filme. As fotografias são da Índia e a equipe ficou em Taiwan por cinco meses e meio, com tomadas no zoológico, aeroporto, no Kenting National Park (próximo ao lugar onde Ang Lee nasceu) e em Montreal no Canadá.

As cenas do oceano foram feitas num tanque construído num aeroporto abandonado, sendo o maior do mundo capaz de gerar ondas (4800 m³). A animação pesquisou e trabalhou durante um ano para desenvolver o tigre Richard Parker.

Surpreendente a filmagem na Piscine Molitor, nos arredores de Paris, construída em 1929, inaugurada pelo atleta olímpico Johnny Weissmuller, o saudoso Tarzan. Foi lá a apresentação do tão abrasileirado biquini em 1946, bem avançadinhos! O belo complexo em art deco foi fechado em 1989, hoje está todo grafitado por vândalos; ameaçado de demolição, o parque aquático, graças ao movimento “SOS Molitor” de cidadãos franceses, está sendo restaurado. Incluirá duas piscinas, centro médico e de saúde, restaurantes e um hotel 4 estrelas. A abertura está prevista para 2014. Alvíssaras!

O ator Suraj Sharma, no papel de Pi aos 17 anos, é estreante e se submeteu a intensivos treinos de sobrevivência no oceano, bem como à prática de yoga e meditação. Valeu todo o esforço e dedicação.

A “Vida de Pi” mostra vivamente a força da motivação interior, a crença de um jovem muito sensível, inteligente e determinado; Ang Lee transformou o filme em um conto de fadas trágico repleto de poesia, magia e simbolismo. A interpretação das histórias de Pi ficou, deliberadamente, para a imaginação e sensibilidade do espectador.

A amante de Benito Mussolini

O filme “Vincere” de Marco Bellocchio (2009) retrata uma história de amor e ódio, como são as grandes paixões.

Ida Dalser, uma bela jovem, acreditou nos ideais de Benito Mussolini. Apaixonam-se. Ida vende tudo para financiar o jornal “Il Popolo dell’Italia” que contribuiu para que o socialista Mussolini se transformasse no amado e odiado “Duce”.

Por lutar publicamente pelo reconhecimento do filho e exigir direitos, Ida é internada em hospícios italianos dirigidos por padres e freiras católicos.

O ponto alto do filme é a lucidez de um psiquiatra ao tentar mostrar a Ida que, naquele mundo fascista, a verdade era intolerável. Ela teria, ponderava o médico, de comportar-se conforme o figurino, de fazer-se submissa, de, até, decorar poemas ao gosto da madre superiora… seria o único meio de se livrar do hospício para cuidar e proteger o filho, também internado em instituições para doentes mentais.

Contudo, Ida não conseguiu compreender e seguir as estratégicas recomendações que poderiam salvá-la. Como todo amante desesperado, não aceitou a rejeição da sua loucura de amor, envolvendo o filho desde a mais tenra idade neste drama doloroso, levando-os a um fim trágico.

Ao terminar o filme, fica a triste sensação de desperdício de vidas. Repete-se, ainda e sempre, de várias formas, a tragédia grega de Medéia, aquela poderosa mulher que, ao sentir-se abandonada pelo amado Jason, mata-se juntamente com os próprios filhos.

Apesar das controvérsias há documentos na cidade de Milão, onde Mussolini fora obrigado a pagar pensão alimentícia. Esta, ainda, é uma página obscura na história italiana, somente descoberta em 2005.

Heloísa Schürmann – Sempre um Papo

Para a velejadora acostumada a domar ondas e ventos fortes, a tempestade de verão, pouco antes do “papo”, deve ter sido amigável e refrescante…

A autora lançou, no programa “Sempre um Papo“, o livro “Pequeno Segredo – a lição de vida de Kat para a família Schurmann”. Antes publicara “Dez Anos no Mar” (1995), “Um Mundo de Aventuras” (2000) e “Em Busca do Sonho” (2006).

Heloísa se mostra tão disponível, bem-humorada, e o seu abraço é um aconchego, um acolhimento imediato; assim, sentimo-nos como se já a conhecessemos há muito. Daí já se pode imaginar a aceitação incondicional da filha Kat.

Esta rica história deveria mesmo ser contada. Nenhuma ficção poderia tecer os fios entrelaçados destas vidas. Todas as pessoas envolvidas e sensíveis cresceram naquela situação, se transformaram e, em ondas sucessivas, transmitiam calor humano, dedicação e responsabilidade.

Sabemos das contradições e falhas da natureza humana e neste livro pudemos vivenciar, com a família Schürmann, a extensão dos preconceitos, dos julgamentos, das “verdades” pré-estabelecidas. Contudo, a força maior foi — e continuará sendo — o resultado positivo da alegre, intensa e fecunda vida de Kat, apesar de muito breve.

O mais importante foi a lucidez da família na educação e convívio com a pequena e inteligente menina. Com eles, Kat pôde, sem superproteção, se desenvolver plenamente, pôde aproveitar ao máximo de todo o mundo de viagens, experiências e aprendizagem.

O bom leitor — aquele que lê nas entrelinhas e/ou apreende o subtexto — pode perceber, através do estilo leve — não superficial — da autora a profundidade do drama, as incontáveis dificuldades e os percalços não escritos, mas superados.

O lúcido capitão Vilfredo, Heloísa, esta mulher forte, e os dedicados rapazes são admiráveis exemplos.

Felizmente em novembro de 2013 estarão se lançando ao mar em mais uma aventura enriquecedora… bons ventos!

Os livros de Heloísa nos inspiraram, muitas vezes, os roteiros de viagens exóticas. Visitamos as ilhas dos Mares do Sul e já chegamos até Brunei, seguindo os nossos sonhos, e as aventuras da, ainda bem, família “maluca” Schürmann!