Vilarejos Italianos — Stilo

Encravado no monte Consolino, a 150km de Reggio Calabria, sul da Itália, o elegante mosteiro Cattolica di Stilo:

Cattolica di Stilo, Italia – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

…representa, desde os gregos, a idéia universal da união de crenças quebrada pelo grande cisma da igreja católica em 1054. Aqui, em Stilo, nasceu — 1568 — Tommaso Campanella, dominicano, filósofo, poeta, teólogo; preso e torturado pela inquisição romana por defender avançadas idéias políticas de paz e justiça.

Cattolica di Stilo, Italia – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

O gracioso mosteiro, em estilo bizantino do século IX, erguido com as pedras de Kaulon, uma colônia grega de 1200 a.C., foi restaurado e conserva partes de preciosos afrescos.

Cattolica di Stilo, Italia – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff
By Marcuscalabresus – Creative Commons

As valiosas ruínas de Stilo nos trazem uma sensação inusitada de atemporalidade…

Cattolica di Stilo, Italia – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

Vilarejos Italianos — Calabria

Gerace, Stilo, Santa Severina — estes burgos quase intocados, perdidos no sul da Itália, são muito especiais. Na Calábria, a costa belíssima é banhada pelos mares Tirreno e Ionio.

Por aqui passaram gregos — Magna Grécia — romanos, suábios, aragoneses, normandos; daí a diversidade em cada canto. A estrada serpenteia à beira de plantação de olivas, de cedros e da adorável bergamota: uma mistura de limão e laranja azeda que se multiplica em chás, doces, licores. Da casca se extrai o óleo essencial para perfumes, principalmente Eau de Cologne, lançado na Alemanha no século XVIII.

Numa volta surge, lá em cima, Santa Severina, apelidada “la Nave de Pietra”:

Santa Severina, Itália – © Fondazione Calabria Film Commission

O vilarejo exibe o estilo bizantino cujo império permaneceu até 1076.

Santa Severina, Itália – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

O batistério do século VII:

Santa Severina, Itália – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

Entre as curvas de uma estradinha, uma apetitosa surpresa: Azienda Agrituristica Le Puzelle. O jovem empreendedor, Sergio, parece estar totalmente envolvido com o próspero negócio da família. Já morou no Brasil, tem pousada em Florianópolis.

Le Puzelle, Santa Severina – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

Quer desenvolver o agro-turismo, aproveitando a falta de transporte regular na região e a distância dos grandes centros como um atrativo. O turismo em massa traz, sabidamente, desvantagens a longo prazo. Vale descobrir todas as delícias italianas e o melhor cappuccino… do mundo!


2019…

Montorio, Itália – Copyright©2014 Rainer Brockerhoff

…é tempo de romper o círculo
encerrar o ciclo
e… aproveitar o circo!

Copyright©2019 Maria Brockerhoff

Alberobello — a Capital dos Trulli

No sul da Itália — “calcanhar da bota” — a intrigante cidadinha de Alberobello com as torres de pedra. Trulli, plural de trullo, vem do grego, significa cúpula.

Alberobello, Itália – Copyright©2016 Gianfranco Vitolo

Antigamente, essas engenhosas construções de pedras calcárias, empilhadas sem argamassa, abrigavam os camponeses durante a colheita de azeitonas. Com destreza, os trulli eram desmanchados e reconstruídos rapidamente. Assim, os coletores de impostos do rei de Napoli eram enganados: deparavam com montes de pedras sobre as quais não incidia cobrança. Às costas dos fiscais os trulli eram reerguidos.

Alberobello, Itália – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

A região de Alberobello, a 55km de Bari, é solo fértil para a plantação de oliveiras muito elegantes… …e idade de Matusalém.

Masseria Valenti, Itália – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

As oliveiras — a planta macho — são em número bem menor; então, planta-se uma oliveira macho e em volta uma dezena de oliveiras fêmeas para facilitar a polinização.

A habitação em trulli remonta a mil anos. O formato em cone é apropriado para a coleta de água de chuva em cisternas. O interior se mantém fresco e agradável. O centro antigo é recortado por escadarias, ruelas e lojinhas.

Alberobello, Itália – Copyright©2016 Eduard Marmet
Alberobello, Itália – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

Excelentes hotéis e restaurantes modernos em estilo trulli:

Alberobello, Itália – Copyright©2016 Claudia Liechavicius

Diante destes imponderáveis trulli fica patente o poder criativo dessa gente campesina em transformar inóspitas pedras em abrigo. Alberobello é mais uma grata surpresa por estas antiquíssimas bandas italianas.

Matera — a Cinderela da Itália

Um lugar muito diferente surgiu lá no alto! Chegamos a uma praça com o piso claro e brilhoso, torres, balcões, escadarias… tudo de pedra. Nem sempre escolhemos roteiros em detalhes; ver fotos antecipadamente, nem pensar. A recompensa é a sensação indescritível desta surpresa: Matera.

Matera, Itália – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff
Piazza San Giovanni, Matera – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

Nunca ouvíramos sobre a cidade dos Sassi — pedras em italiano — situada em Basilicata, no “tornozelo” da bota a 70km de Bari, habitada há mais de 12 mil anos. Os Sassi são cavernas habitadas desde o período paleolítico e se dividem em Sasso Caveoso e Sasso Barisano.

Cavernas Paleolíticas, Matera – Copyright©2015 Revol Web

Antigamente, as condições de vida nos Sassi eram miseráveis: doenças, sujeira, absoluta falta de higiene. Em 1944 o escritor Carlo Levi denunciou ao mundo, no livro Christ Stopped at Eboli, os horrores de um inferno de Dante. Há um filme com o mesmo título, de 1979; o significado é de o cristianismo e a civilização jamais terem ido além da cidade de Eboli, onde viviam os excluídos pela pobreza.

Nas décadas de 1950 e 60 os Sassi foram considerados um insulto à República daí, depois de planos, projetos e reviravoltas, iniciaram a evacuação, restauração e o saneamento — década de 1990. Inevitável, nestes casos, o dramático impacto da mudança, a perda de laços afetivos e as dificuldades de adaptação. Contudo o saldo é altamente positivo: as cavernas revitalizadas são um centro cultural efervescente com museus, artes e desenvolvimento.

Sasso Barisano, Matera – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

Em Matera foi filmado, entre outros clássicos, A Paixão de Cristo de Mel Gibson. A cidadinha já recebe 600 mil visitantes por ano. As cavernas abrigam, com conforto, bons restaurantes, hotéis…

A nossa caverna, o Hotel Sassi – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

…residências, dezenas de B&B, lojas:

Matera – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

A magnificência da Cattedrale della Madonna della Bruna e di Sant’Eustachio data de 1230.  Há centenas de igrejas rupestres. O valor artístico e histórico dos afrescos é inestimável. Aqui a Igreja de Santa Maria de Idris:

Chiesa di Santa Maria di Idris, Matera – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

…em uma das incontáveis escadarias uma pitada do estilo italiano:

Centro histórico de Matera – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

Matera, de andrajos e de extrema carência, transformou-se em Cinderela cheia de originalidade escolhida capital européia da cultura em 2019.

Suiça — Grand Train Tour

Aqui os Alpes ficam aos pés da cama… não, não é exagero. Ao acordar, esta montanha maciça enche-nos os olhos.

Grindelwald, Suiça – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

É a primeira imagem de Grindelwald. Nesta época, início de primavera, fora de temporada de esqui, muitos hotéis se fecham e a cidadinha se oferece, principalmente, para turistas asiáticos.

Grindelwald, Suiça – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

O roteiro é muito bem organizado pelo Switzerland Travel Centre a partir de Zürich, banhada pelo rio Limmat, às margens do lago Zürichsee.

Zürich – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

O Hotel Wellenberg em Zürich é central, atendimento perfeito. Na universidade — fundada em 1833 — uma das mais avançadas da Europa, o Museu de Zoologia é espetacular. Este exemplar de preguiça gigante, um animal pacífico, viveu nas Américas há 20 mil anos.

Megatherium Americanum, Campus, Zürich – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

Aqui, a criançada tem a oportunidade única de alargar a mente, de descobrir os próprios talentos. O restaurante universitário é de alto nível. O campus é um jardim só:

Campus, Zürich – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

A rota inicial: Zürich / Luzern / Giswil / Interlaken Ost / Grindelwald em trens panorâmicos. Não se pode cometer a heresia de descrever fotos ou paisagens; estas, no real, são absorvidas pelos poros ou reduzidas a selfies.

Giswil, Suiça – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff
Giswil, Suiça – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff
Brienz, Suiça – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

Em Grindelwald o Hotel Eiger Selfness é um village, com jardins internos, estrutura completa de fitness, sauna e spa. Aqui é o embarque no trem amarelo para Jungfraujoch, um passo elevado entre os montes Mönch e Jungfrau. A cremalheira nos trilhos foi especialmente projetada para trechos íngremes.

Kleine Scheidegg, Suiça – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

Alcança-se o topo em 78 minutos. Através de um túnel chega-se a um edifício gigantesco embutido na rocha com restaurantes, exposições, lojas, histórico da dificílima construção — 1896 a 1912 — e um palácio de gelo.

Jungfraujoch, Suiça – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

Jungfraujoch é, mesmo, inimaginável para nós dos trópicos…

Jungfraujoch — Wikimedia Commons

Arles — os caminhos de van Gogh

Numa bifurcação do Rhône, Arles — no sul da França — é a porta de Camargue: uma região muito rica em biodiversidade, escolhida pelos flamingos e morada dos intrigantes touros negros. Ao anoitecer, aportamos neste canal do rio, protegido por muralhas.

Arles, França – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

Neste canal havia uma ponte espetacular destruída na Segunda Guerra; restaram dois pilares e, relembrando a grandeza da obra, pares de leões em cada margem:

Arles, França – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

Arles, nos séculos IV e V, foi um grande centro cultural e comercial; ocupada por diferentes povos, até que os romanos fincaram pé e permaneceram por mais de 800 anos. Daí as características construções bem conservadas até hoje. Claro, um magnífico coliseu faz parte do currículo do império romano:

Arles, França – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

Aqui o passado volta com o clamor da turba, o rugido dos leões. Agora realizam-se festivais. Felizmente, nas touradas atuais, não se matam os touros; ágeis atletas tentam retirar as fitas dos chifres em uma arena civilizada.

Arles, França – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

Ouvir o caloroso ritmo cubano num boteco da esquina em meio às ruínas romanas significa convívio saudável; aproximamo-nos e gente de todas as cores dançava alegremente.

Como sempre, perambular sem rumo é o melhor destino. Arles, especialmente, é uma caixa de surpresas.

Arles, França – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff
Arles, França – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

Seguir os passos de van Gogh nos leva às suas telas: Terrasse du café le soir, La Chambre à coucherLes AlyscampsAutoportrait à l’oreille bandée, dentre outras. Vale ver o filme Loving Vincent. Aqui van Gogh cortou a orelha. A criatividade deste pintor era, para o mundo medíocre, alucinações e loucura. Para “preservar a ordem pública” (!), o povo de Arles exigiu do médico a internação deste gênio em hospital psiquiátrico.

Constantino I, o Augusto romano, construiu as excelentes termas. Os banhos, com a incrível idéia dos hipocaustos, foram outra característica do savoir vivre dos romanos:

Arles, França – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

Arles, com uma história forte, é uma interrogação…

Avignon — Provence

Avignon é mesmo um cenário de filme. Dentro das muralhas todas as tragédias e grandezas das histórias humanas. É uma das cidades mais antigas de França.

Palais des Papes, Avignon – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

Mesmo nesta segunda vez, o palácio dos papas de Avignon ainda nos surpreende.

Copyright© Jean-Marc Rosier, CC BY-SA 3.0

A corte papal se estabeleceu aqui devido às ingresias entre o papado e a coroa francesa. Em 1305, o rei Philippe IV forçou a eleição de Clemente V, que recusou mudar-se para Roma, devastada por lutas internas. A partir de então, seis outros papas reinaram aqui. As divergências se agravaram até o Grande Cisma na igreja católica: isto é, por quarenta anos, houve um papa em Roma e outro em Avignon. Esta situação anômala terminou por volta de 1417. Este período dos pontífices favoreceu o desenvolvimento arquitetônico e das artes em geral. O magnífico Palais des Papes é o mais importante em estilo gótico desde a idade média.

Copyright©2017 Paula Funell

O navio se aproxima bem devagar da Pont Saint-Bénézet sobre o rio Rhône. Originalmente com 900m e 22 arcos, foi destruída em 1226 durante uma ocupação; após a reconstrução foi levada algumas vezes pelas enchentes. Hoje restam apenas os românticos quatro arcos. Sur le Pont d’Avignon é a canção, há séculos, desta simbólica ponte.

Pont Saint-Bénézet, Avignon – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

Ao perambular pelas ruelas…

Avignon – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff
Avignon – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

O centro antigo se transforma para nós em uma “ilha” com queijos, flores, boas risadas e imaginação à solta… assim, Ricardo Reis salta do livro (“O Ano da Morte de Ricardo Reis”, de José Saramago) e vem nos acompanhar sem rumo e sem destino. Do personagem a lucidez:

Solidão é não sermos capazes de fazer companhia a alguém ou a alguma coisa que está dentro de nós.