Páscoa — a Ilha

De Santiago do Chile fomos a Valparaíso — por uma carretera ao pé da majestosa Cordilheira dos Andes — um dos portos mais importantes do Pacífico Sul. Perambulamos pelas ruas largas e limpas da cidade bem antiga; foi destruída por um terremoto em 1906, apenas o edíficio da Alfândega sobrou. Esta praça é o resultado da pitoresca mistura de estilos.

Plaza Bernardo O’Higgins, Valparaíso – Copyright©2015 Rainer Brockerhoff

Preciosas descobertas de artistas desconhecidos:

Casablanca, Chile – Copyright©2011 Rainer Brockerhoff

Embarque no MS Columbus. Depois de algumas horas uma imensidão azul… um círculo infinito… apenas o navio nesta bola ondulante. A viagem se transforma em um exercício para experimentar, tão só, o presente.

Pacífico Sul – Copyright©2011 Rainer Brockerhoff

Rapa Nui — em língua nativa — o reino dos Moais gigantes e misteriosos, à vista:

Isla de Pascua – Copyright©2011 Rainer Brockerhoff

Um holandês, em 1722, espalhou para o mundo ocidental a notícia desta ilha misteriosa. São preocupantes as causas, ainda que controversas, do colapso ecológico na ilha. Uma das teorias é a exploração exacerbada dos próprios recursos. Um poderoso alerta para nós, do lado de cá, do prejuízo irreparável da queima das florestas e poluição das águas.

Moai-vigia vê tudo na ilha, como nos contou um gentil pascoense.

Isla de Pascua – Copyright©2011 Rainer Brockerhoff

Em determinada época na lua cheia o Moai-vigia se ilumina integralmente — é o início da semeadura. Toda a ilha se involve. É consolador constatar a força destes costumes ancestrais.

Esta é a terra encantanda dos espantos e dos sustos…

Isla de Pascua – Copyright©2011 Rainer Brockerhoff
Isla de Pascua – Copyright©2011 Rainer Brockerhoff
Isla de Pascua – Copyright©2011 Rainer Brockerhoff

Do porto fomos a pé ao vilarejo — lembra Trancoso — e contamos com a amabilidade de uma carona, além de informações, pela professora que jamais saiu daqui: na sua infância, não havia água corrente nem luz nem dinheiro! Tudo era troca. Um paraíso?
Pedimos e essa professora nos ensinou a falar Iorana / obrigado. Aliás, é a palavra essencial em qualquer terra estrangeira.

O cemitério…

Isla de Pascua – Copyright©2011 Rainer Brockerhoff

Os muros todos são de pedras empilhadas, ao estilo celta. O artesanato é bem rico. Cultivam abacaxis, goiabas, abacates e hortaliças. Os professores têm uma queixa justificada: os jovens estão resistindo ao aprendizado da língua Rapa Nui. É uma inestimável perda cultural. Há 4 colégios, um para cada nível escolar; lá é servido almoço. A segurança e tranquilidade são inerentes à ilha.

Reviver boas lembranças é um bálsamo. Esta páscoa há de ser a passagem para a alforria…

2021 Delivery

Painel ©Copyright Isidoro Esposito
fotografado em Rossano, Itália 2018 – Rainer Brockerhoff

Neste mundo à mingua
de silêncio e
abarrotado de whatsapp,
os rabiscos de pedidos.
Entrega imediata:
— calma
para estar no presente
— o toque
de despertar nas fibras do peito
— a surpresa
de rever o mar como na primeira vez
— abraços
inteiros de corpos ensaboados
com cravo e canela…

PS …e a sua lista?

Copyright©2020 Maria Brockerhoff

Complexo do Bateia — Mato Grosso

Principalmente agora, nem é preciso voar… lugares surpreendentes estão na porta de casa!

Mato Grosso – Copyright©2014 Rainer Brockerhoff

Cada um se sente atraído por um tipo de lugar: muitos curtem o burburinho das noites e as luzes da cidade! Outros adoram as novidades da moda, da eletrônica, os cassinos, o mufurufo da Disney e adjacências. Alguns se aventuram pelas trilhas, florestas, montanhas e desertos. Cada qual escolhe a aventura que lhe dá na telha e, assim, todos se divertem. É o mais importante.

Este passeio é especial para os amantes de cachoeiras. É mágico. A Roncador Expedições nos leva ao Complexo do Bateia. Está a 60km de Barra do Garças, Goiás; parte asfalto, a outra melhor parte é por 4×4 e um tanto de caminhada. A natureza se esmera em curvas, rochas de arenito, cavernas e boas subidas; as flores daqui fazem inveja às pobres produzidas nas floras na cidade.

Mato Grosso – Copyright©2014 Rainer Brockerhoff

Melhor ainda não haver infras — como resumiu um guia de outras paragens — nada de lanchonetes, é mato puro: a água é a dos riachos cristalinos, potável e fresca. O lanche vai na mochila e passa-se muito bem. Aliás, nem há espaço para fome diante de tanta beleza.

Mato Grosso – Copyright©2014 Rainer Brockerhoff

As cachoeiras são como seus apelidos: Caldeirão da Bruxa, Pedra Furada, Esmeralda… e vão surgindo mais e mais! Cada uma mais fascinante e convidativa. A próxima cachoeira forma uma graciosa curva, despenca numa bacia revolta e… desaparece! Isto mesmo. Alguns metros abaixo, reaparece, toda faceira, sob uma pedra. Um capricho só.

Mato Grosso – Copyright©2014 Rainer Brockerhoff

O dia voa. A cabeça completamente esvaziada. É aqui o nirvana!

Na volta, a compra do queijo fresquinho e delicioso de D. Dalvina. Aí o abrigo dos animais:

Mato Grosso – Copyright©2014 Rainer Brockerhoff

Ao anoitecer, a mais bela das surpresas: o campo se ilumina com centenas de luzinhas no pisca-pisca dos vagalumes. A orquestra de luzes é emocionante, inigualável.
Com a alma lavada pelo banho nas águas cristalinas e fortes tudo está completo!

Páscoa — Passagem

…hoje percorremos a diversidade das passagens por este mundão sem fim!

• Mar Vermelho: um golfo do Oceano Índico entre a África e a Ásia. À esquerda, o Golfo e Canal de Suez; a peninsula do Sinai ao centro, Egito; à direita, o Golfo de Aqaba.

Sinai Peninsula, ©1991 NASA Johnson — Creative Commons

O significado da Páscoa / Passagem é bem marcante para os hebreus perseguidos pelos egípcios diante da barreira intransponível do Mar Vermelho. O mar se abriu em uma passagem segura e se fechou sobre o exército egípcio. Há muitos e variados estudos sobre essa passagem. O nome em hebraico, Yam Suph significa “pântano de juncos”; assim, a hipótese é a de que as bigas egípcias se atolaram no pântano.

• Antártida, Passagem Drake:

Cabo Hornos, Chile – Copyright©2015 Rainer Brockerhoff

A sala de entrada da Antártida; Pacífico e Atlântico se fundem sob ventos fortes e manto de gelo.

• Bahia, Península de Maraú:

Lagoa do Cassange – Copyright©2017 Rainer Brockerhoff

Na Lagoa do Cassange, a trilha do fim do túnel…

• Sérvia, Portão de Ferro:

Portão de Ferro, Danúbio – Copyright©2015 Rainer Brockerhoff

As pontes, passagens acolhedoras, são imprescindíveis nesta vida!

• Irlanda do Norte, a Carrick-a-Rede Rope Bridge:

Irlanda do Norte – Copyright©2013 Rainer Brockerhoff

Esta ponte de cordas une dois penhascos de 30m de altura. É usada pelos pescadores de salmão. …silêncio profundo só cortado pelos ventos…

• Bhutan, emblemáticos os portões de entrada ao reino da felicidade:

Bhutan – Copyright©2014 Rainer Brockerhoff

Para os indianos, o portão de entrada é a passagem para a terra prometida como os Estados Unidos o são para os mexicanos. A imigração é severamente restrita.

• Egito, Canal de Suez; liga o Mar Vermelho ao Mediterrâneo:

Canal de Suez – Copyright©2016 Rainer Brockerhoff

Este é um Mar feito à mão. Aqui, a ficção imita a vida.

Nesta viagem, a travessia, desfiladeiros, desvios, gargantas, estreitos, meandros são muitos… e significativas passagens… levam-nos a encontros, separação, alívio, fuga, plenitude, libertação…

Outono

Paris, França – Copyright©2009 Rainer Brockerhoff
A estação do equilibrista:
entre o verão e o inverno
entre o céu e o inferno.

É o ponto saboroso
entre o pecado e a lei.
Nem escravo nem rei!

Copyright©2019, 2020 Maria Brockerhoff

A Cultura Cigana — Buzescu

Um aspecto inteiramente novo na Romênia / Romania é a vida dos Roma, Romani, Romanes. Esta a designação correta, atual para os ciganos. Muitas vezes chamados gypsies, pois acreditava-se serem provenientes do Egito. O sufixo -ROM significa homem / povo. A caminho de București já há sinais do povo Roma nas vilas, praticamente abandonadas, com as construções típicas.

Romênia – Copyright©2015 Rainer Brockerhoff

Provenientes do norte da Índia, a diáspora dos romani começou há 1500 anos. Desde então têm sido marginalizados e profundamente injustiçados. Sofreram também um holocausto — Porajmos — sob o regime nazista.

Esta minoria étnica — entre 12 e 15 milhões  — apresenta, claro, diversidade de costumes, regras e língua. Contudo predominam as andanças e a tradição oral da língua Roma. A maioria se encontra na Romênia, Bulgária e República Checa. Por volta de 1860 os roma se estabeleceram aqui para trabalhar nas minas e nos campos. Reforçando a perseguição, o ditador comunista Ceaușescu forçou-os a viver em guetos, tentando suprimir uma rica cultura.

Aqui, também, uma reveladora imagem: do lado esquerdo, a moradia enquanto se constrói o palacete dos sonhos à direita.

Romênia – Copyright©2015 Rainer Brockerhoff

Contudo, a maior surpresa estava a 100km de Bucareste / București: o étnico e desconhecido vilarejo de Buzescu.

Buzescu, Romênia – Copyright©2014 Al Jazeera

Com apenas uma rua, os poucos habitantes levam anos e anos em construções rebuscadas. Fazem-se grandes e inespecíficos negócios. Aqui, também, vigora o código de honra do silêncio, tipo omertà. A preocupação com o luxo e a aparência das moradias é tão grande que a família vive em um só cômodo durante o inverno, pois não sobra 💲 para aquecer toda a casa.

Buzescu, Romênia – Copyright©2013 Dreamlands

O mercado imobiliário é paralelo: essas residências opulentas não têm valor nas transações oficiais. São negociadas apenas entre os roma. É cultural a exibição de riqueza pelas moradias, jóias e dentes de ouro. Curioso o preconceito dentro dos grupos: os pobres são menosprezados. A desigualdade é gritante. Grande o contraste entre as mansões de Buzescu e as choupanas dos camponeses e entre antigas carroças puxadas por cavalos e os Porsches e Mercedes nas garagens.

Buzescu, Romênia – Copyright©2014 Al Jazeera

Em geral, os rapazes não estudam regularmente nem frequentam universidades. São iniciados nos negócios. Preocupante é o casamento de meninas de 12 anos, sem nenhuma escolaridade ser, ainda, contratado entre as famílias.

Os festivais demonstram a riqueza cultural da música e da dança e a fartura das comidas e bebidas típicas. As melodias roma exerceram influência na música clássica e no jazz. Descendentes ilustres deste povo singular se sobressaíram — inclusive o Nobel — nas artes, teatro, ciência e literatura. No Brasil, dois presidentes: Juscelino Kubitschek e Washington Luís.

Se quiser duvidar dos próprios olhos, clique abaixo:

Alforria

Em 2014 as Erínias captaram a linguagem eloquente da foto do jovem príncipe… hoje, com o seu grito de liberdade, confirmou-se a intuição certeira do poema…

Embed from Getty Images

Caiu um príncipe
no buraco fundo
da copa do mundo.
O elegante rapaz
atraiu muita gente
batedores, holofote.
Teve brilho fugaz
o nobre filhote.
Cercado de menina
de mídia cretina
certamente o pobre Harry
trocaria a própria sina
— do pé à medula —
pela alegria simples
do moleque-gandula…

Copyright©2014 Maria Brockerhoff

Montes de Santana

A praça da Matriz de Santana dos Montes, hoje calçada com pés-de-moleque, era toda em grandes e originais lajotas de pedra, também usadas em passeios e alicerces.

Santana dos Montes — Copyright©2019 Rainer Brockerhoff

O descuido e a falta de informação podem ter levado à troca desse calçamento ímpar e secular. Uma pena! Nesta faixa e na calçada, alguns preciosos remanescentes:

Santana dos Montes — Copyright©2019 Rainer Brockerhoff

Alguns casarões das fazendas antigas se transformaram em confortáveis hotéis. O Solar dos Montes, no centro histórico, foi totalmente restaurado e ampliado, conservando-se o estilo e a elegância. Além da hospedagem de primeiríssima qualidade, o Solar é um abrigo de livros, história, música, cinema e workshops, com Medina, exímio contador de causos e Ana ao piano.

Aqui detalhes reveladores do bom gosto e finesse do Hotel Solar dos Montes:

Hotel Solar dos Montes – Copyright©2019 Rainer Brockerhoff
Açucareiro, Hotel Solar dos Montes – Copyright©2019 Rainer Brockerhoff

No ambiente tranquilo a boa prosa é espontânea e alguns hóspedes se tornam já amigos de infância.

Hotel Solar dos Montes – Copyright©2019 Rainer Brockerhoff

As delícias da cozinha mineira — o purê de inhame! — aquela comida redondinha com bons temperos, sem ressaltar o sal; no bufê de sobremesas criativas a compota de polpa de maracujá… tudo feito aqui mesmo, além de quitutes da culinária argentina e européia.

Aqui em Santana é relaxante submergir no passado:

Santana dos Montes — Copyright©2019 Rainer Brockerhoff
Santana dos Montes — Copyright©2019 Rainer Brockerhoff

O grupo escolar, sólida construção, infelizmente é mal conservado. O jardim poderia ser cuidado pelos próprios alunos orientados pelos professores; parece, aqui também, arraigada a idéia de ser apenas da prefeitura ou de outro órgão público — e não dos cidadãos — o dever de zelar pelo patrimônio.

Santana dos Montes — Copyright©2019 Rainer Brockerhoff

Por aqui, ainda, trekking, cachoeiras, uma fábrica de cerveja, loja de artesanato e a oficina do capim Vetiver, cuja artesã Beverly faz um excelente trabalho com os adolescentes.