Alberobello — a Capital dos Trulli

No sul da Itália — “calcanhar da bota” — a intrigante cidadinha de Alberobello com as torres de pedra. Trulli, plural de trullo, vem do grego, significa cúpula.

Alberobello, Itália – Copyright©2016 Gianfranco Vitolo

Antigamente, essas engenhosas construções de pedras calcárias, empilhadas sem argamassa, abrigavam os camponeses durante a colheita de azeitonas. Com destreza, os trulli eram desmanchados e reconstruídos rapidamente. Assim, os coletores de impostos do rei de Napoli eram enganados: deparavam com montes de pedras sobre as quais não incidia cobrança. Às costas dos fiscais os trulli eram reerguidos.

Alberobello, Itália – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

A região de Alberobello, a 55km de Bari, é solo fértil para a plantação de oliveiras muito elegantes… …e idade de Matusalém.

Masseria Valenti, Itália – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

As oliveiras — a planta macho — são em número bem menor; então, planta-se uma oliveira macho e em volta uma dezena de oliveiras fêmeas para facilitar a polinização.

A habitação em trulli remonta a mil anos. O formato em cone é apropriado para a coleta de água de chuva em cisternas. O interior se mantém fresco e agradável. O centro antigo é recortado por escadarias, ruelas e lojinhas.

Alberobello, Itália – Copyright©2016 Eduard Marmet
Alberobello, Itália – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

Excelentes hotéis e restaurantes modernos em estilo trulli:

Alberobello, Itália – Copyright©2016 Claudia Liechavicius

Diante destes imponderáveis trulli fica patente o poder criativo dessa gente campesina em transformar inóspitas pedras em abrigo. Alberobello é mais uma grata surpresa por estas antiquíssimas bandas italianas.

Matera — a Cinderela da Itália

Um lugar muito diferente surgiu lá no alto! Chegamos a uma praça com o piso claro e brilhoso, torres, balcões, escadarias… tudo de pedra. Nem sempre escolhemos roteiros em detalhes; ver fotos antecipadamente, nem pensar. A recompensa é a sensação indescritível desta surpresa: Matera.

Matera, Itália – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff
Piazza San Giovanni, Matera – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

Nunca ouvíramos sobre a cidade dos Sassi — pedras em italiano — situada em Basilicata, no “tornozelo” da bota a 70km de Bari, habitada há mais de 12 mil anos. Os Sassi são cavernas habitadas desde o período paleolítico e se dividem em Sasso Caveoso e Sasso Barisano.

Cavernas Paleolíticas, Matera – Copyright©2015 Revol Web

Antigamente, as condições de vida nos Sassi eram miseráveis: doenças, sujeira, absoluta falta de higiene. Em 1944 o escritor Carlo Levi denunciou ao mundo, no livro Christ Stopped at Eboli, os horrores de um inferno de Dante. Há um filme com o mesmo título, de 1979; o significado é de o cristianismo e a civilização jamais terem ido além da cidade de Eboli, onde viviam os excluídos pela pobreza.

Nas décadas de 1950 e 60 os Sassi foram considerados um insulto à República daí, depois de planos, projetos e reviravoltas, iniciaram a evacuação, restauração e o saneamento — década de 1990. Inevitável, nestes casos, o dramático impacto da mudança, a perda de laços afetivos e as dificuldades de adaptação. Contudo o saldo é altamente positivo: as cavernas revitalizadas são um centro cultural efervescente com museus, artes e desenvolvimento.

Sasso Barisano, Matera – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

Em Matera foi filmado, entre outros clássicos, A Paixão de Cristo de Mel Gibson. A cidadinha já recebe 600 mil visitantes por ano. As cavernas abrigam, com conforto, bons restaurantes, hotéis…

A nossa caverna, o Hotel Sassi – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

…residências, dezenas de B&B, lojas:

Matera – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

A magnificência da Cattedrale della Madonna della Bruna e di Sant’Eustachio data de 1230.  Há centenas de igrejas rupestres. O valor artístico e histórico dos afrescos é inestimável. Aqui a Igreja de Santa Maria de Idris:

Chiesa di Santa Maria di Idris, Matera – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

…em uma das incontáveis escadarias uma pitada do estilo italiano:

Centro histórico de Matera – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

Matera, de andrajos e de extrema carência, transformou-se em Cinderela cheia de originalidade escolhida capital européia da cultura em 2019.

Suiça — Grand Train Tour

Aqui os Alpes ficam aos pés da cama… não, não é exagero. Ao acordar, esta montanha maciça enche-nos os olhos.

Grindelwald, Suiça – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

É a primeira imagem de Grindelwald. Nesta época, início de primavera, fora de temporada de esqui, muitos hotéis se fecham e a cidadinha se oferece, principalmente, para turistas asiáticos.

Grindelwald, Suiça – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

O roteiro é muito bem organizado pelo Switzerland Travel Centre a partir de Zürich, banhada pelo rio Limmat, às margens do lago Zürichsee.

Zürich – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

O Hotel Wellenberg em Zürich é central, atendimento perfeito. Na universidade — fundada em 1833 — uma das mais avançadas da Europa, o Museu de Zoologia é espetacular. Este exemplar de preguiça gigante, um animal pacífico, viveu nas Américas há 20 mil anos.

Megatherium Americanum, Campus, Zürich – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

Aqui, a criançada tem a oportunidade única de alargar a mente, de descobrir os próprios talentos. O restaurante universitário é de alto nível. O campus é um jardim só:

Campus, Zürich – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

A rota inicial: Zürich / Luzern / Giswil / Interlaken Ost / Grindelwald em trens panorâmicos. Não se pode cometer a heresia de descrever fotos ou paisagens; estas, no real, são absorvidas pelos poros ou reduzidas a selfies.

Giswil, Suiça – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff
Giswil, Suiça – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff
Brienz, Suiça – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

Em Grindelwald o Hotel Eiger Selfness é um village, com jardins internos, estrutura completa de fitness, sauna e spa. Aqui é o embarque no trem amarelo para Jungfraujoch, um passo elevado entre os montes Mönch e Jungfrau. A cremalheira nos trilhos foi especialmente projetada para trechos íngremes.

Kleine Scheidegg, Suiça – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

Alcança-se o topo em 78 minutos. Através de um túnel chega-se a um edifício gigantesco embutido na rocha com restaurantes, exposições, lojas, histórico da dificílima construção — 1896 a 1912 — e um palácio de gelo.

Jungfraujoch, Suiça – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

Jungfraujoch é, mesmo, inimaginável para nós dos trópicos…

Jungfraujoch — Wikimedia Commons

Arles — os caminhos de van Gogh

Numa bifurcação do Rhône, Arles — no sul da França — é a porta de Camargue: uma região muito rica em biodiversidade, escolhida pelos flamingos e morada dos intrigantes touros negros. Ao anoitecer, aportamos neste canal do rio, protegido por muralhas.

Arles, França – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

Neste canal havia uma ponte espetacular destruída na Segunda Guerra; restaram dois pilares e, relembrando a grandeza da obra, pares de leões em cada margem:

Arles, França – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

Arles, nos séculos IV e V, foi um grande centro cultural e comercial; ocupada por diferentes povos, até que os romanos fincaram pé e permaneceram por mais de 800 anos. Daí as características construções bem conservadas até hoje. Claro, um magnífico coliseu faz parte do currículo do império romano:

Arles, França – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

Aqui o passado volta com o clamor da turba, o rugido dos leões. Agora realizam-se festivais. Felizmente, nas touradas atuais, não se matam os touros; ágeis atletas tentam retirar as fitas dos chifres em uma arena civilizada.

Arles, França – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

Ouvir o caloroso ritmo cubano num boteco da esquina em meio às ruínas romanas significa convívio saudável; aproximamo-nos e gente de todas as cores dançava alegremente.

Como sempre, perambular sem rumo é o melhor destino. Arles, especialmente, é uma caixa de surpresas.

Arles, França – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff
Arles, França – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

Seguir os passos de van Gogh nos leva às suas telas: Terrasse du café le soir, La Chambre à coucherLes AlyscampsAutoportrait à l’oreille bandée, dentre outras. Vale ver o filme Loving Vincent. Aqui van Gogh cortou a orelha. A criatividade deste pintor era, para o mundo medíocre, alucinações e loucura. Para “preservar a ordem pública” (!), o povo de Arles exigiu do médico a internação deste gênio em hospital psiquiátrico.

Constantino I, o Augusto romano, construiu as excelentes termas. Os banhos, com a incrível idéia dos hipocaustos, foram outra característica do savoir vivre dos romanos:

Arles, França – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

Arles, com uma história forte, é uma interrogação…

Avignon — Provence

Avignon é mesmo um cenário de filme. Dentro das muralhas todas as tragédias e grandezas das histórias humanas. É uma das cidades mais antigas de França.

Palais des Papes, Avignon – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

Mesmo nesta segunda vez, o palácio dos papas de Avignon ainda nos surpreende.

Copyright© Jean-Marc Rosier, CC BY-SA 3.0

A corte papal se estabeleceu aqui devido às ingresias entre o papado e a coroa francesa. Em 1305, o rei Philippe IV forçou a eleição de Clemente V, que recusou mudar-se para Roma, devastada por lutas internas. A partir de então, seis outros papas reinaram aqui. As divergências se agravaram até o Grande Cisma na igreja católica: isto é, por quarenta anos, houve um papa em Roma e outro em Avignon. Esta situação anômala terminou por volta de 1417. Este período dos pontífices favoreceu o desenvolvimento arquitetônico e das artes em geral. O magnífico Palais des Papes é o mais importante em estilo gótico desde a idade média.

Copyright©2017 Paula Funell

O navio se aproxima bem devagar da Pont Saint-Bénézet sobre o rio Rhône. Originalmente com 900m e 22 arcos, foi destruída em 1226 durante uma ocupação; após a reconstrução foi levada algumas vezes pelas enchentes. Hoje restam apenas os românticos quatro arcos. Sur le Pont d’Avignon é a canção, há séculos, desta simbólica ponte.

Pont Saint-Bénézet, Avignon – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

Ao perambular pelas ruelas…

Avignon – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff
Avignon – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

O centro antigo se transforma para nós em uma “ilha” com queijos, flores, boas risadas e imaginação à solta… assim, Ricardo Reis salta do livro (“O Ano da Morte de Ricardo Reis”, de José Saramago) e vem nos acompanhar sem rumo e sem destino. Do personagem a lucidez:

Solidão é não sermos capazes de fazer companhia a alguém ou a alguma coisa que está dentro de nós.

 

Ardèche — uma Serra do Espinhaço

O navio Swiss Gloria seguiu de Tournon-sur-Rhône para Le Pouzin, de onde fomos para Ardèche. Escondida em uma esquina do rio Rhône e dos Alpes esta região de montanhas de pedras: dessa vizinhança vem toda a beleza. Considerada área remota, com montes ondulados e verdes, lembra a belíssima Serra do Espinhaço.

Ardèche, França – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

O império romano dominou toda a Europa, sendo impressionante o avanço das construções nestas vilas seculares que preservam relíquias como este aqueduto:

Ardèche, França – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

O romântico rio Ardèche brinca formando cânions, grutas e paredões sem fim. É o preferido para os passeios e competições de caiaques:

Ardèche, França – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

O Pont d’Arc é um capricho especial por onde rolam as águas cristalinas e frias:

Pont d’Arc, Ardèche – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

Já neste começo de primavera é a “praia de verão”:

Pont d’Arc, Ardèche – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

Surpreendente La Grotte Chauvet-Pont d’Arc. Em 1994 foi redescoberta depois mais de 30 mil anos obstruída por uma avalanche. Esta gruta é riquíssima em pinturas rupestres, estalagmites e estalactites. A visitação iria destruir este patrimônio inestimável, daí a inusitada construção de uma réplica perfeita, incluindo a reprodução das pinturas rupestres.

Caverne du Pont d’Arc – Copyright©2016 Antoine 49

Caverne du Pont ’Arc – Copyright©2016 Claude Valette

O homem, quando sai de suas concepções estreitas, pode criar o impossível, o belo!

 

Beaune — Além dos Vinhedos

A pequena cidade, a 30km de Chalon-sur-Saône, guarda uma surpresa: L’Hôtel-Dieu. Este elegante hospital beneficiente foi construído por Nicolas Rolin, com a participação fundamental da mulher, Guigone de Salins, em 1443. O hospital foi dirigido também por jovens freiras, cujo mister era cuidar dos pobres.

L’Hôtel-Dieu, Beaune, França – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

Era costume de os católicos ricos receberem as tais Indulgências! Faziam doações de bens, dinheiro, construíam hospitais e igrejas em troca do perdão dos pecados. Através desta “santa propina” os benefícios amenizaram o sofrimento de muita gente. Desde então, a família de Nicolas Rolin mantém os hospitais mais avançados da França, além de rede hoteleira.

O hospital, já muito avançado no séc.XV, funcionou até 1970, quando se transformou em museu. Os equipamentos e instrumentos cirúrgicos eram de ponta. Foi um dos primeiros hospitais a utilizar os raios-X descobertos em 1890 por Wilhelm Röntgen. O brilhante físico alemão, agraciado com o Nobel de Física em 1901, doou o prêmio à universidade de Würzburg, recusando-se a registrar qualquer patente.

O progresso técnico pode ser visto na Pharmacie:

L’Hôtel-Dieu, Beaune, França – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

Na cozinha:

L’Hôtel-Dieu, Beaune, França – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

A enfermaria com leitos compartilhados por apenas dois doentes era um alto luxo:

L’Hôtel-Dieu, Beaune, França – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

Um bom exemplo de filantropia, ainda hoje em Beaune, são os leilões dos melhores vinhos com compradores de todo o mundo.

O Hôtel-Dieu tem um considerável acervo de arte. A extensa e incrível tapeçaria é um conjunto de painéis bordados por artistas anônimos. Um detalhe do cavalo cuja pata é recuperada depois de uma amputação, num lendário milagre de Santo Elígio:

L’Hôtel-Dieu, Beaune, França – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

A pintura do holandês Rogier van der WeydenLe Jugement dernier / O Juízo Final, riquíssima em possibilidades de interpretação:

L’Hôtel-Dieu, Beaune, França – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

Aos portões do céu e do inferno se encaminham os abençoados e os condenados. Para nós, absolutamente sem viés religioso, as imagens eloquentes representam a saga humana desde sempre: cada um traz, dentro de si, o céu e o inferno.

Tinto, Branco, Rosé — Bourgogne

É uma antiquíssima região da França, cheia de histórias, castelos, trilhas, arte e vinhedos cultivados, ao longo dos séculos, por dedicados monges. O navio Swiss Gloria pernoitou em Chalon-sur-Saône, às margens do rio Saône.

Chalon-sur-Saône, França – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

Sob o céu muito claro de primavera desta manhã, subimos para Beaune, uma cidadezinha muito elegante, a capital dos vinhos da Borgonha, principalmente os brancos secos Chardonnay, considerados os melhores do mundo. Por aqui, uma refeição sem vinho é impensável.

Vinhos de Beaune – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

A lição do amável sommelier do Cellier de la Cabiote pode ser resumida assim:
• fora da França, os rótulos, em geral, indicam o tipo de uva: Cabernet Sauvignon, Pinot Noir, Carmenère…;
• já os rótulos franceses indicam a região de envasamento: Bourgogne, Beaujolais, Rhône, Bordeaux, Loire, etc.;
• quanto mais específicas as informações constantes do rótulo, melhor e mais caro o vinho. Por exemplo, o rótulo deste Corton-Charlemagne Grand Cru Cuvée François de Salins especifica a região de Bourgogne, a cidade de Beaune, o vinhedo Hospices de Beaune, o terroir Charlemagne e o envasador Albert Bichot. No rótulo de um vinho vinte vezes mais barato só constaria, vagamente, “Mis en bouteille dans Bourgogne“.
Agora, a deliciosa pausa para degustação:

Vinhos de Beaune – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

Por aqui também, diz o sommelier, é raro tomar vinho fora das refeições. Para isto, o cardápio do Swiss Gloria, além da boa apresentação, é muito saboroso e convida o vinho de Beaune.

Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

Em Beaune, o lembrete de Kurt Tucholsky: “há pessoas que temos de entendê-las para amá-las; outras teremos de amá-las para entendê-las”!

A ficção imita a vida… Abbaye de Cluny

De Lyon, importante porto francês, o Swiss Gloria zarpou para Mâcon, região vinífera do Beaujolais. Dizem por aqui: “Em Lyon vertem três rios: Le Rhône, La Saône e…  Beaujolais”. A 25km, a Abadia de Cluny é um monumento espetacular de cultura, ciência e tragédia. Desta maquete do complexo beneditino, infelizmente, resta uma pequena parte.

Abbaye de Cluny, séc.XII – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

A Abbaye de Cluny iluminou o mundo ocidental por séculos. Os abades eram muito influentes, interlocutores diretos do Papa; entre os monges, quatro foram eleitos Pontífices e outros, canonizados. A sede da maior congregação beneditina é — sim, ainda hoje — uma saga arrojada de desenvolvimento e grandeza. Tem-se a impressão de viver as páginas de um livro, as cenas de um filme:
— Cluny I, 910-927. A modesta e inicial edificação incluía vinhedos, riachos e moinhos.
— Cluny II, 961-981. As exigências da liturgia e do progresso trouxeram a ampliação da edificação e, principalmente, a primeira igreja com altar em níveis.
Cluny III, 1080-1130. Atingiu o ápice de magnificência. A catedral de Saint Pierre et Saint Paul, com 187m de comprimento, mais de 30m de altura e torres com 56m foi, por séculos, a maior do ocidente.
— Revolução Francesa, 1798-1808. A perseguição político-religiosa levou à demolição com imensuráveis prejuízos econômicos e culturais. Foi iniciada pela revolução e arrematada pela ignorância de Napoleão Bonaparte. Esta é uma coluna de uma das cinco naves da catedral:

Abbaye de Cluny – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

Pode-se avaliar a grandeza de Cluny pelas partes ainda de pé:

Abbaye de Cluny – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

Sempre majestosa e imponente, Cluny continua uma fonte inesgotável de história e espanto. Caminhantes passam por aqui em direção a Santiago de Compostela. Esta torre na muralha norte foi construída em torno de 1300:

Abbaye de Cluny – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

É impressionante a visão arquitetônica destes beneditinos:

Abbaye de Cluny – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

Abbaye de Cluny – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

Estes dormitórios construídos antes da Revolução Francesa foram muito pouco utilizados:

Abbaye de Cluny – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

Os beneditinos competentes e cultos desenvolveram a ciência, a educação, as artes; produziram vinhos com excelência; alcançaram alto nível de bem-estar e riqueza; isso, certamente, provocou dissidências políticas. Os conflitos internos foram especialmente com os cistercienses.
O arqueólogo Alexandre Lenoir alertou bravamente sobre a loucura e prejuízos da demolição. Foi uma voz clamando no deserto…

Abbaye de Cluny – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

As esculturas, as edificações, as obras literárias, musicais e artísticas são atemporais; estão muito acima de qualquer ideologia. Representam a cultura de toda a humanidade. Por isto, deveriam ser intocáveis por mentes radicais, obscuras e partidárias. Contudo a mesma catástrofe se deu no Afeganistão, com a destruição dos Budas milenares de Bamiyan.

Aqui nos jardins de Cluny, indiferentes às mazelas humanas, as tulipas são uma festa e uma promessa de primavera. Em qualquer beiradinha brotam como capim…

Abbaye de Cluny – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff