Outra Vez

Outra vez primavera
brotam sementes — talvez
de amores irreverentes
Quem dera!…

Copyright©2019 Maria Brockerhoff

Copyright©2019 Rainer Brockerhoff

Vulcão-Laguna Quilotoa — Ecuador

A força, a grandeza do Quilotoa nos fazem emudecer e admitir a insignificância da condição humana! Está a 180km, sudoeste de Quito.

Parque Quilotoa, Ecuador – Copyright©2015 Rainer Brockerhoff

Deixamos bem cedinho o Hotel Hacienda La Ciénega, no pueblo Lasso, próximo ao Parque Nacional Cotopaxi; haveria uma procissão de 40km da Semana Santa e as rodovias seriam fechadas. Mesmo antes do sol nascer, o hotel, confirmando os bons serviços, nos serviu um reforçado desayuno.

Carretera Panamericana, Ecuador – Copyright©2015 Rainer Brockerhoff

A rodovia, inaugurada no dia anterior — parte da Carretera Panamericana projetada para ligar o Alaska a Ushuaia — corta a região cheia de vales retalhados, vegetação de todas as cores e as mais pitorescas formações rochosas.

Parque Quilotoa, Ecuador – Copyright©2015 Rainer Brockerhoff

Uma se chama Guarida del Condor, pois a montanha se parece com um gigante condor de asas abertas; um vasto canion é apelidado de Machu Picchu del Ecuador

Parque Quilotoa, Ecuador – Copyright©2015 Rainer Brockerhoff

O rio Toachi, desaguando no Pacífico, sulcou profundamente o vale, transformando-o num Grand Canyon do Ecuador

As casas típicas de adobe com cercas vivas, as crianças pequenas a caminho da escola, envoltas em xales coloridos e bochechas vermelhas pelo frio, as mulheres pastoreando ovelhas completam esta paleta da natureza. Toda a paisagem se equipara à do Bhutan, com a vantagem de, para nós brasileiros, estar… logo alí, ó…

Parque Quilotoa, Ecuador – Copyright©2015 Rainer Brockerhoff

O parque do vulcão Quilotoa, próximo ao pueblo de Zumbahua, tem boa estrutura. De um mirante pode-se apreciar, com conforto, toda a magia deste lugar. As muralhas, o portal de entrada, são uma obra de engenharia de alto nível.

laguna do Quilotoa, cujas águas salinas abrigam apenas algas, tem 240m de profundidade. Suas paredes elevam-se a 400m da superfície. Nasceu da erupção em 1280 — uma das maiores do mundo no último milênio. A lava alcançou até 35.000 km² e tornou a região rica para agricultura, pastagens e fonte de estudos arqueológicos. O nível da água tem diminuído nos últimos anos.

Parque Quilotoa, Ecuador – Copyright©2015 Rainer Brockerhoff

O caminho até a laguna, com degraus e muretas de apoio, é limpíssimo e bem sinalizado. Pode-se descer em meia hora até às suas margens, onde não chegamos. E a volta?! Bem, na subida, o aclive muuuito acentuado e a altitude de quase 4000m tornam este percurso uma prova para maratonista. Os afoitos podem contratar mulas para içá-los de volta.

A vista da cratera, um espelho esmeralda emoldurado por montanhas onduladas, é de uma beleza ímpar! Já estivemos no Crater Lake, Oregon/USA, e nos lagos do Licancabur, no Chile e, a cada vez, um encantamento primevo.

Setembro

Chegou setembro
Ah! a primavera dos teus olhos…
Doído me lembro

Copyright©2019 Maria Brockerhoff

Zürich – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

Teatro — Perdoa-me por Morrer

Vá assistir! Esta resenha é tão só para aguçar a curiosidade. O teatro nos transporta a outros mundos. A gente se envolve, se emociona, o coração dispara… é assim mesmo quando acompanhamos a trajetória amarga dos três personagens de “Perdoa-me por Morrer” com o sax de João Paulo Prazeres.

Copyright©2019 Glenio Campregher

Está na FUNARTE, um espaço muito interessante nos galpões da antiga EFCB — Estrada de Ferro Central do Brasil, na rua Januária, centro de Belo Horizonte, onde tem adoráveis bananeiras na calçada.

A peça do diretor Luiz Carlos Garrocho não é um espetáculo para multidão: além do denso contexto visível, a mensagem subliminar do drama de todos os seres humanos através da perfeita expressão corporal de Renata Rocha, Rafael Paiva e Sitaram Custódio. Não há diálogos orais, mas a linguagem viva e forte do corpo, do olhar, do movimento denuncia a violência, a perseguição, o preconceito. O grito visceral da atriz sintetiza toda a dor dos oprimidos e dos injustiçados.

Levanta-se, também, a instigante questão sobre “a bala perdida que sempre encontra a pele escura”. Vá assistir e, além da surpresa do final incomum, poderá — quem sabe? — descobrir qual é a pedra que cada um de nós carrega.

Istambul — Turquia

Türkiye é a terra onde pode-se ir mil vezes… é fascinante. Os bazares, em İstanbul, são um mundo de sons, cores e cheiros. Os queijos enormes, colméias inteiras, doces e especiarias inigualáveis. A gente é bonita e os homens especialmente cavalheiros. Também nas ruas os vendedores são equilibristas.

İstanbul, Türkiye – Copyright©2006 Rainer Brockerhoff

A visita à Hagia Sophia, à Mesquita AzulBlue Mosque — e ao misterioso Topkapı — residência do sultão — se equipara a uma inesperada peregrinação, quando se vai pela primeira vez.

Blue Mosque, İstanbul – Copyright©2006 Rainer Brockerhoff

Porém, há um lugar impressionante nem tanto frequentado por turistas: a Cisterna da BasílicaYerebatan Sarnıcı — restaurada há mais de 30 anos, é um retângulo de 10.000 m² e 8 m de altura sustentado por 336 colunas, de vários tipos de mármore, bem abaixo do nível da rua.

Yerebatan Sarnıcı, İstanbul – Copyright©2006 Rainer Brockerhoff

Estes reservatórios, muito antigos, eram a provisão de água da cidade e estratégia de conservação, porque o inimigo atacava primeiramente os aquedutos. A água nessas cisternas chegava ao teto.

Atualmente fizeram passarelas por onde percorremos todo o espaço. O nível de água é baixo; se criam carpas para a limpeza do reservatório e sinalizar vazamentos.

A Coluna das Lágrimas veio de Creta, é cheia de olhos que minam as lágrimas dos escravos, daí o nome.

Yerebatan Sarnıcı, İstanbul – Copyright©2006 Rainer Brockerhoff

Curiosa a coluna com a cabeça de Medusa colocada de cabeça para baixo, segundo a lenda, por Justiniano para demonstrar que os deuses pagãos estavam mortos. Outros afirmam ser a intenção de neutralizar o olhar mortal da Medusa, uma das três Górgonas da mitologia grega.

A cisterna é um incrível museu vivo e abriga um pequeno palco para concertos. A construção da cisterna é engenhosa no estilo catedral, com 140m de comprimento por 70m de largura, uma escada de acesso com 52 degraus. Esta relíquia ficou esquecida por mais de cem anos até ser redescoberta em 1544 por um explorador francês.

A lembrança deste lugar nos leva lá de volta trazendo a mesma sensação de sossego e encantamento.

Everest ou Disneyworld?

Centenas de pessoas estão nesta fila de espera, por horas, para dar uma olhadinha no topo do Everest, Himalaya — Nepal. Quarta-feira, 22 de maio, três pessoas morreram.

Copyright©2019 Nimsdai / Nirmal Purja / Project Possible

A escalada tornou-se um negócio cada vez mais lucrativo desde 1953, quando o sherpa Tenzing Norgay e o neozelandês Edmund Hillary, pela primeira vez, conquistaram o intocável pico. A permissão de escalada custa US$11 mil. Para esta estação já foram concedidas, pelo Nepal, 381 licenças somente para alpinistas, sem contar 140 licenças para a escalada pelo flanco tibetano. Acrescentando-se os guias, mais de mil pessoas enfrentam este congestionamento no Hillary Step.

No Nepal, o alpinismo, o glamour e as glórias da conquista do Everest são um mundo elitizado muito distante da realidade do gentil povo nepalês. O Himalaya é uma belíssima moldura fora do alcance de quase todos.

Himalaya – Copyright©2014 Rainer Brockerhoff

Em Kathmandu, o guia comentou, entre divertido e irônico: “aqui, a sola do pé já acabou”, ao esclarecer o desinteresse dos nativos de Kathmandu por escaladas; andam a pé grandes distâncias para trabalhar e tudo o mais.

Além do pesado gargalo na proximidade do cume, um outro desatino neste caminho é o acúmulo de lixo: em abril, foram retiradas 11 toneladas — uma pequena fração do remanescente. Curiosamente, alguns turistas tentam simular a chegada ao cume para receber o certificado, na situação embaraçosa de um casal de indianos em 2018, alterando fotos.

No Bhutan não é permitido escalar as montanhas, a morada dos deuses e, por isso, sagradas.

Punakha Dzong, Bhutan – Copyright©2014 Rainer Brockerhoff

Neste reino da felicidade, poluir as águas ou cortar florestas atrai doenças e a ira das divindades. Invejável sabedoria!

Hotel-Escola — Alemanha

No Hotel Zugbrücke em Grenzau, o Centro de Treinamento de tênis de mesa tem uma programação especial para crianças, incluindo aulas particulares. Interessa à equipe a descoberta de talentos… quanto mais cedo melhor.

Hotel Zugbrücke, Alemanha – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

Anton Stefko, o treinador-chefe, é um mágico ao treinar, por exemplo, um menino de 4 anos. Esses treinos, muitas vezes, são gratuitos.

O vilarejo é um jardim só! Até um portão de garagem é uma arte.

Grenzau, Alemanha – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

E este mercadinho de castanhas no passeio? Ninguém toma conta; o freguês faz o pagamento e o próprio troco; ah! a gentileza do quebrador de nozes… essa gente fina!

Grenzau, Alemanha – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

Uma boa caminhada leva ao rico museu de cerâmica. Ali, também, uma sala de aula para as crianças se iniciarem nesta arte milenar.

Museu de Cerâmica, Grenzau – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

A argila da região especialmente branca e fina atrai artesãos há séculos.

Museu de Cerâmica, Grenzau – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

Grenzau é a terra do maior mentiroso do mundo: este viajante destemido — Theodor Schmidt, 1830 a 1890 — contara aos conterrâneos o espanto de não haver, em terras distantes, carruagens puxadas por animais de quatro patas. Havia, sim, um cavalo enorme de aço cheio de gente e de mercadorias, correndo sobre os trilhos e soltando nuvens de vapor. Ninguém, claro! acreditou; daí o apelido “Lügendores” (Theo mentiroso).
…nem sempre se consegue ver além do próprio mundo estreito…

Grenzau, Alemanha – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

O nosso Theodor teve um glorioso revide em 1884, quando o cavalo de ferro — a locomotiva — apareceu aqui e fez a multidão desabalar num misto de admiração e pavor.

Hotel-Escola de Tênis de Mesa

De Frankfurt, Alemanha, são 50 minutos de trem até Montabaur, com pouco mais de 12 mil habitantes. Na saída da estação esta boa idéia:

Montabaur, Alemanha – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

Daqui — 15km de taxi — chegamos a Grenzau em meio a um semicírculo de floresta bronze-dourada no outono.

Grenzau, Alemanha – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

…e ao nosso destino, o Hotel Zugbrücke:

Hotel Zugbrücke, Alemanha – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

ZugbrückeZug trem, Brücke ponte — é a antiga ponte sobre a ferrovia inaugurada em 1884 no vilarejo fundado em 1212.

Grenzau, Alemanha – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

No hotel, além de piscina, sauna, fitness, tratamentos de beleza, pizzaria, boliche…

Hotel Zugbrücke, Alemanha – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

…o centro de treinamento de tênis de mesa dirigido pelo competente treinador, campeão checo, Anton Stefko e auxiliares. Os treinos são em variados níveis, de 9 às 21 horas. Anton está em Grenzau desde 1982; por aqui já passaram mais de 100 mil apaixonados pelo pingue-pongue. Muitos campeões europeus, inclusive Timo Boll, já treinaram com o bem-humorado Anton.

Hotel Zugbrücke, Alemanha – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

O hotel é perfeito para uma imersão. Oferece café da manhã, almoço e jantar:

Hotel Zugbrücke, Alemanha – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff
Hotel Zugbrücke, Alemanha – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

No entorno, trilhas para longos passeios a pé ou de bicicleta. Castelos, moinhos, e 800 anos de histórias. Ficamos 10 dias treinando pingue-pongue e andando ao léu… a sensação é de estar em uma ilha. O redemoinho da cidade grande, as obrigações, o cotidiano, ficam bem longe. Estar por um tempo fora do habitat, com pessoas, lugares e costumes diferentes, é saudável e renovador!

A Passageira do Titanic

A viagem de Molly Brown no Titanic foi puramente fortuita. Estava em Paris com a filha e voltou, com urgência, a New York onde o neto estava doente. No filme, é aquela passageira bem-humorada que emprestou o smoking para o mocinho Leonardo di Caprio.

Margaret Brown – Wikimedia Commons

Molly Brown também era uma pessoa muito especial, em sintonia com as emoções do outro. Foi uma mulher muito avançada, quebrou muitos padrões e viveu intensamente.

Margaret Brown foi para Denver, Colorado, USA, ainda jovem e, como todas as donzelas da época, planejava arranjar um bom partido. Como em um filme, apaixonou-se por J.J. Brown, que… era pobre. Porém, mais tarde, J.J. inventou um método de calafetar as perfurações da mina na qual trabalhava, sendo regiamente recompensado com ações e um cargo mais elevado. Assim, Molly completou, merecidamente, seus sonhos de amor e riqueza.

Embora tivesse apenas o curso fundamental, Molly Brown leu muito, aprendeu línguas, viajou por países “remotos” como Egito, Rússia, Índia, Japão; tinha uma biblioteca variada e foi até, duas vezes, candidata ao senado federal.

A sua casa em Denver é hoje um museu, onde podemos reviver o ambiente requintado, alegre e ousado para a época. Molly Brown exigiu os últimos avanços tecnológicos: eletricidade, telefone, banho e o luxo de vaso sanitário com água corrente dentro de casa! Havia, também, máquina de lavar. No terceiro piso da casa eram celebradas festas e bailes. As louças e prataria enchem armários e são de muito bom gosto.

Denver, Colorado – Copyright©2012 Rainer Brockerhoff

Claro que Molly Brown, pelas suas idéias progressistas e comportamento avançado, incomodava as 36 (!) famílias tradicionais da cidade. Contudo, esta mulher admirável seguiu seus impulsos e idéias, realizando um inédito trabalho voluntário com crianças carentes e serviços protetores dos animais; disto surgiram os juizados especializados para crianças e adolescentes, os primeiros dos Estados Unidos. Ainda, batalhou por causas feministas, inclusive pelo voto.

No naufrágio, Molly Brown teve uma iniciativa excepcional quando, recolhida com os outros sobreviventes, cansada, com fome e frio, ajudou os passageiros de segunda e terceira classe, ilhados num país estranho sem família nem pertences; seus conhecimentos de francês, alemão e russo a fizeram porta-voz dessa massa de imigrantes. Ainda a caminho do porto, angariou donativos entre os passageiros de primeira classe. Uma típica atitude de Molly Brown: imediatamente publicou uma lista de quem NÃO quis participar; surtiu um grande efeito!

Publicou, ainda, artigos em jornais exigindo melhorias na segurança e a ela se deve muitos dos procedimentos atuais, como a existência de coletes salva-vidas e botes suficientes para todos os passageiros.

Aqui, em Denver, a história do inafundável Titanic está intimamente ligada a essa ilustre moradora.

Rhodes — Grécia

A ilha de Rhodes, uma pedreira única e especial no Mar Egeu, a 300km da capital Atenas, guarda a cidade medieval mais preservada da Europa. Este centro antigo da cidade de Rhodes — habitada desde a Idade da Pedra — ainda conserva as muralhas originais.

Rhodes – Copyright©2006 Mac ind Óg – Creative Commons

A vista da epônima capital de Rhodes, a quarta ilha grega em tamanho, é majestosa. Cercada por muralhas, a cidade é salpicada de castelos, a entrada através dos muros antigos. Há cemitérios grego, turco, inglês, italiano e judeu, demonstrando a diversidade cultural e a extensão das garras dos homens fazedores de guerras.

Ilha de Rhodes – Copyright©2006 Rainer Brockerhoff

O Império Otomano já ocupou Rhodes, proibiu o ensino da língua grega, por isso a estrutura simplificada da gramática e do próprio dialeto. O apóstolo Paulo teria vivido na ilha. RhodosΡόδος, significa em fenício, cobras — era, claro, o habitat de cobras. A introdução desastrosa de cabras há mais ou menos 2500 anos extinguiu a vegetação e dizimou os pobres répteis…

Ilha de Rhodes – Copyright©2006 Rainer Brockerhoff

O Colosso de Rhodes é uma forte lembrança cercada de lendas e fantasias. Estaria com os pés apoiados na entrada do porto Mandraki.

Mandraki, Rhodes – Copyright©TravellingOtter – Creative Commons

A obra espetacular em moldes de cera, cerâmica e bronze levou 12 anos. O colosso de 33 metros de altura durou apenas 66 anos, sendo destruído por um terremoto em 226 a.C.. Há divergências quanto ao local exato da construção; para nós, o ambiente enigmático, a força da cultura, o relevo, preenchem as lacunas da história.