Setembro

Chegou setembro
Ah! a primavera dos teus olhos…
Doído me lembro

Copyright©2019 Maria Brockerhoff

Zürich – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

Teatro — Perdoa-me por Morrer

Vá assistir! Esta resenha é tão só para aguçar a curiosidade. O teatro nos transporta a outros mundos. A gente se envolve, se emociona, o coração dispara… é assim mesmo quando acompanhamos a trajetória amarga dos três personagens de “Perdoa-me por Morrer” com o sax de João Paulo Prazeres.

Copyright©2019 Glenio Campregher

Está na FUNARTE, um espaço muito interessante nos galpões da antiga EFCB — Estrada de Ferro Central do Brasil, na rua Januária, centro de Belo Horizonte, onde tem adoráveis bananeiras na calçada.

A peça do diretor Luiz Carlos Garrocho não é um espetáculo para multidão: além do denso contexto visível, a mensagem subliminar do drama de todos os seres humanos através da perfeita expressão corporal de Renata Rocha, Rafael Paiva e Sitaram Custódio. Não há diálogos orais, mas a linguagem viva e forte do corpo, do olhar, do movimento denuncia a violência, a perseguição, o preconceito. O grito visceral da atriz sintetiza toda a dor dos oprimidos e dos injustiçados.

Levanta-se, também, a instigante questão sobre “a bala perdida que sempre encontra a pele escura”. Vá assistir e, além da surpresa do final incomum, poderá — quem sabe? — descobrir qual é a pedra que cada um de nós carrega.

Everest ou Disneyworld?

Centenas de pessoas estão nesta fila de espera, por horas, para dar uma olhadinha no topo do Everest, Himalaya — Nepal. Quarta-feira, 22 de maio, três pessoas morreram.

Copyright©2019 Nimsdai / Nirmal Purja / Project Possible

A escalada tornou-se um negócio cada vez mais lucrativo desde 1953, quando o sherpa Tenzing Norgay e o neozelandês Edmund Hillary, pela primeira vez, conquistaram o intocável pico. A permissão de escalada custa US$11 mil. Para esta estação já foram concedidas, pelo Nepal, 381 licenças somente para alpinistas, sem contar 140 licenças para a escalada pelo flanco tibetano. Acrescentando-se os guias, mais de mil pessoas enfrentam este congestionamento no Hillary Step.

No Nepal, o alpinismo, o glamour e as glórias da conquista do Everest são um mundo elitizado muito distante da realidade do gentil povo nepalês. O Himalaya é uma belíssima moldura fora do alcance de quase todos.

Himalaya – Copyright©2014 Rainer Brockerhoff

Em Kathmandu, o guia comentou, entre divertido e irônico: “aqui, a sola do pé já acabou”, ao esclarecer o desinteresse dos nativos de Kathmandu por escaladas; andam a pé grandes distâncias para trabalhar e tudo o mais.

Além do pesado gargalo na proximidade do cume, um outro desatino neste caminho é o acúmulo de lixo: em abril, foram retiradas 11 toneladas — uma pequena fração do remanescente. Curiosamente, alguns turistas tentam simular a chegada ao cume para receber o certificado, na situação embaraçosa de um casal de indianos em 2018, alterando fotos.

No Bhutan não é permitido escalar as montanhas, a morada dos deuses e, por isso, sagradas.

Punakha Dzong, Bhutan – Copyright©2014 Rainer Brockerhoff

Neste reino da felicidade, poluir as águas ou cortar florestas atrai doenças e a ira das divindades. Invejável sabedoria!

A Passageira do Titanic

A viagem de Molly Brown no Titanic foi puramente fortuita. Estava em Paris com a filha e voltou, com urgência, a New York onde o neto estava doente. No filme, é aquela passageira bem-humorada que emprestou o smoking para o mocinho Leonardo di Caprio.

Margaret Brown – Wikimedia Commons

Molly Brown também era uma pessoa muito especial, em sintonia com as emoções do outro. Foi uma mulher muito avançada, quebrou muitos padrões e viveu intensamente.

Margaret Brown foi para Denver, Colorado, USA, ainda jovem e, como todas as donzelas da época, planejava arranjar um bom partido. Como em um filme, apaixonou-se por J.J. Brown, que… era pobre. Porém, mais tarde, J.J. inventou um método de calafetar as perfurações da mina na qual trabalhava, sendo regiamente recompensado com ações e um cargo mais elevado. Assim, Molly completou, merecidamente, seus sonhos de amor e riqueza.

Embora tivesse apenas o curso fundamental, Molly Brown leu muito, aprendeu línguas, viajou por países “remotos” como Egito, Rússia, Índia, Japão; tinha uma biblioteca variada e foi até, duas vezes, candidata ao senado federal.

A sua casa em Denver é hoje um museu, onde podemos reviver o ambiente requintado, alegre e ousado para a época. Molly Brown exigiu os últimos avanços tecnológicos: eletricidade, telefone, banho e o luxo de vaso sanitário com água corrente dentro de casa! Havia, também, máquina de lavar. No terceiro piso da casa eram celebradas festas e bailes. As louças e prataria enchem armários e são de muito bom gosto.

Denver, Colorado – Copyright©2012 Rainer Brockerhoff

Claro que Molly Brown, pelas suas idéias progressistas e comportamento avançado, incomodava as 36 (!) famílias tradicionais da cidade. Contudo, esta mulher admirável seguiu seus impulsos e idéias, realizando um inédito trabalho voluntário com crianças carentes e serviços protetores dos animais; disto surgiram os juizados especializados para crianças e adolescentes, os primeiros dos Estados Unidos. Ainda, batalhou por causas feministas, inclusive pelo voto.

No naufrágio, Molly Brown teve uma iniciativa excepcional quando, recolhida com os outros sobreviventes, cansada, com fome e frio, ajudou os passageiros de segunda e terceira classe, ilhados num país estranho sem família nem pertences; seus conhecimentos de francês, alemão e russo a fizeram porta-voz dessa massa de imigrantes. Ainda a caminho do porto, angariou donativos entre os passageiros de primeira classe. Uma típica atitude de Molly Brown: imediatamente publicou uma lista de quem NÃO quis participar; surtiu um grande efeito!

Publicou, ainda, artigos em jornais exigindo melhorias na segurança e a ela se deve muitos dos procedimentos atuais, como a existência de coletes salva-vidas e botes suficientes para todos os passageiros.

Aqui, em Denver, a história do inafundável Titanic está intimamente ligada a essa ilustre moradora.

Outono

Paris, França – Copyright©2009 Rainer Brockerhoff
A estação do equilibrista:
entre o verão e o inverno
entre o céu e o inferno.

É o ponto saboroso
entre o pecado e a lei.
Nem escravo nem rei!

Copyright©2019 Maria Brockerhoff

Poema — Jorge de Lima

Também há naus que não chegam
Mesmo sem ter naufragado
Não porque nunca tivessem
Quem as guiasse no mar
Ou não tivessem velame
Ou leme ou âncora ou vento
Ou porque se embebedassem
Ou rotas se despregassem
Mas simplesmente porque
Já estavam podres no tronco
Da árvore de que as tiraram

Ashland, Oregon – Copyright©2006 Rainer Brockerhoff

2019…

Montorio, Itália – Copyright©2014 Rainer Brockerhoff

…é tempo de romper o círculo
encerrar o ciclo
e… aproveitar o circo!

Copyright©2019 Maria Brockerhoff

Na Páscoa… uma viagem

Este poema de tradição celta percorre as terras irlandesas como um talismã. Estes versos, também em gaélico, se transformam em melodias nos festivais como um sortilégio para uma boa viagem. Escrita e arte de Irish Blessing do linguista americano Háj Ross.

Copyright©2010 John R. Ross

A interpretação livre do sentido de ventura desta Bênção Irlandesa pode ser assim:

A estrada há de abrir-se ao seu encontro

O vento sempre às suas costas

O sol brilhará morno em sua face

A chuva do outono amaciará os campos

Até nos encontrarmos outra vez, amigo

A boa sorte o trará pela palma da mão.