A Lição do Pequi

O pequi tem cabeça dura
— faca martelo pedrada —
         nada o fura
naquele momento amadurece
se abre fácil
em estrela de cinco pontas e
oferece o fruto dourado
         perfuma o cerrado

Spa Edy Mafra, Lagoa Santa – Copyright©2021 Rainer Brockerhoff

Tem gente também assim
         com o tempo
— salgadas as feridas
         temperados os desencontros —
desabrocha bem sortida
armada para a lida…

Spa Edy Mafra, Lagoa Santa – Copyright©2021 Rainer Brockerhoff

Música, divina Música — Millôr

Copyright©2012 Wen Wei Sum (Creative Commons)

Tanto duvidaram dele, da teoria daquele jovem gênio musical, que ele resolveu provar pra si mesmo, empiricamente, a teoria de que não existem animais selvagens. Que os animais são tão ou mais sensíveis do que os seres humanos. E que são sensíveis sobretudo ao envolvimento da música, quando esta é competentemente interpretada.

Por isso, uma noite, esgueirou-se sozinho pra dentro do Jardim Zoológico da cidade e, silenciosamente, se aproximou da jaula dos orangotangos. Começou a tocar baixinho, bem suave, a sua magnífica flauta doce, ao mesmo tempo em que abria a porta da jaula. Os macacões quase que não pestanejaram. Se moveram devagarinho, fascinados, apenas pra se aproximar mais do músico e do som.

O músico continuou as volutas de sua fantasia musical enquanto abria a jaula dos leões. Os leões, também hipnotizados, foram saindo, pé ante pé, com o respeito que só têm os grandes aficionados da música. E assim a flauta continuou soando no meio da noite, mágica e sedutora, enquanto o gênio ia abrindo jaula após jaula e os animais o acompanhavam, definitivamente seduzidos, como ele previra.

Uma lua enorme, de prata e ouro, iluminava os jacarés, elefantes, cobras, onças, tudo quanto é animal de Deus ali reunido, envolvidos na sinfonia improvisada no meio das árvores. Até que o músico, sempre tocando, abriu a última jaula do último animal – um tigre.

Que, mal viu a porta aberta, saltou sobre ele, engolindo músico e música – e flauta doce de quebra. Os bichos todos deram um oh! de consternação. A onça, chocada, exprimiu o espanto e a revolta de todos:

– Mas, tigre, era um músico estupendo, uma música sublime! Por que você fez isso? E o tigre, colocando as patas em concha nas orelhas, perguntou: 
– Ahn? O quê, o quê? Fala mais alto, pô!

MORAL: OS ANIMAIS TAMBÉM TÊM DEFICIÊNCIAS HUMANAS.

Millôr Fernandes, autodidata, é um dos maiores jornalistas e chargistas da imprensa brasileira, século XX.
Carioca do Méier, Milton Viola Fernandes foi registrado como Millôr devido a uma dúvida na caligrafia. Na revista O Cruzeiro publicava sob o pseudônimo Vão Gôgo! Inteligentíssimo, como o demonstra o seu senso de humor.
A vastíssima escrita de Millôr é atemporal, como toda obra-prima.

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Painel ©Copyright Isidoro Esposito
fotografado em Rossano, Itália 2018 – Rainer Brockerhoff

Neste mundo à mingua
de silêncio e
abarrotado de whatsapp,
os rabiscos de pedidos.
Entrega imediata:
— calma
para estar no presente
— o toque
de despertar nas fibras do peito
— a surpresa
de rever o mar como na primeira vez
— abraços
inteiros de corpos ensaboados
com cravo e canela…

PS …e a sua lista?

Copyright©2020 Maria Brockerhoff

Outono

Paris, França – Copyright©2009 Rainer Brockerhoff
A estação do equilibrista:
entre o verão e o inverno
entre o céu e o inferno.

É o ponto saboroso
entre o pecado e a lei.
Nem escravo nem rei!

Copyright©2019, 2020 Maria Brockerhoff

Alforria

Em 2014 as Erínias captaram a linguagem eloquente da foto do jovem príncipe… hoje, com o seu grito de liberdade, confirmou-se a intuição certeira do poema…

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Caiu um príncipe
no buraco fundo
da copa do mundo.
O elegante rapaz
atraiu muita gente
batedores, holofote.
Teve brilho fugaz
o nobre filhote.
Cercado de menina
de mídia cretina
certamente o pobre Harry
trocaria a própria sina
— do pé à medula —
pela alegria simples
do moleque-gandula…

Copyright©2014 Maria Brockerhoff

Outra Vez

Outra vez primavera
brotam sementes — talvez
de amores irreverentes
Quem dera!…

Copyright©2019 Maria Brockerhoff

Copyright©2019 Rainer Brockerhoff

Setembro

Chegou setembro
Ah! a primavera dos teus olhos…
Doído me lembro

Copyright©2019 Maria Brockerhoff

Zürich – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

Everest ou Disneyworld?

Centenas de pessoas estão nesta fila de espera, por horas, para dar uma olhadinha no topo do Everest, Himalaya — Nepal. Quarta-feira, 22 de maio, três pessoas morreram.

Copyright©2019 Nimsdai / Nirmal Purja / Project Possible

A escalada tornou-se um negócio cada vez mais lucrativo desde 1953, quando o sherpa Tenzing Norgay e o neozelandês Edmund Hillary, pela primeira vez, conquistaram o intocável pico. A permissão de escalada custa US$11 mil. Para esta estação já foram concedidas, pelo Nepal, 381 licenças somente para alpinistas, sem contar 140 licenças para a escalada pelo flanco tibetano. Acrescentando-se os guias, mais de mil pessoas enfrentam este congestionamento no Hillary Step.

No Nepal, o alpinismo, o glamour e as glórias da conquista do Everest são um mundo elitizado muito distante da realidade do gentil povo nepalês. O Himalaya é uma belíssima moldura fora do alcance de quase todos.

Himalaya – Copyright©2014 Rainer Brockerhoff

Em Kathmandu, o guia comentou, entre divertido e irônico: “aqui, a sola do pé já acabou”, ao esclarecer o desinteresse dos nativos de Kathmandu por escaladas; andam a pé grandes distâncias para trabalhar e tudo o mais.

Além do pesado gargalo na proximidade do cume, um outro desatino neste caminho é o acúmulo de lixo: em abril, foram retiradas 11 toneladas — uma pequena fração do remanescente. Curiosamente, alguns turistas tentam simular a chegada ao cume para receber o certificado, na situação embaraçosa de um casal de indianos em 2018, alterando fotos.

No Bhutan não é permitido escalar as montanhas, a morada dos deuses e, por isso, sagradas.

Punakha Dzong, Bhutan – Copyright©2014 Rainer Brockerhoff

Neste reino da felicidade, poluir as águas ou cortar florestas atrai doenças e a ira das divindades. Invejável sabedoria!