Beaune — Além dos Vinhedos

A pequena cidade, a 30km de Chalon-sur-Saône, guarda uma surpresa: L’Hôtel-Dieu. Este elegante hospital beneficiente foi construído por Nicolas Rolin, com a participação fundamental da mulher, Guigone de Salins, em 1443. O hospital foi dirigido também por jovens freiras, cujo mister era cuidar dos pobres.

L’Hôtel-Dieu, Beaune, França – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

Era costume de os católicos ricos receberem as tais Indulgências! Faziam doações de bens, dinheiro, construíam hospitais e igrejas em troca do perdão dos pecados. Através desta “santa propina” os benefícios amenizaram o sofrimento de muita gente. Desde então, a família de Nicolas Rolin mantém os hospitais mais avançados da França, além de rede hoteleira.

O hospital, já muito avançado no séc.XV, funcionou até 1970, quando se transformou em museu. Os equipamentos e instrumentos cirúrgicos eram de ponta. Foi um dos primeiros hospitais a utilizar os raios-X descobertos em 1890 por Wilhelm Röntgen. O brilhante físico alemão, agraciado com o Nobel de Física em 1901, doou o prêmio à universidade de Würzburg, recusando-se a registrar qualquer patente.

O progresso técnico pode ser visto na Pharmacie:

L’Hôtel-Dieu, Beaune, França – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

Na cozinha:

L’Hôtel-Dieu, Beaune, França – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

A enfermaria com leitos compartilhados por apenas dois doentes era um alto luxo:

L’Hôtel-Dieu, Beaune, França – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

Um bom exemplo de filantropia, ainda hoje em Beaune, são os leilões dos melhores vinhos com compradores de todo o mundo.

O Hôtel-Dieu tem um considerável acervo de arte. A extensa e incrível tapeçaria é um conjunto de painéis bordados por artistas anônimos. Um detalhe do cavalo cuja pata é recuperada depois de uma amputação, num lendário milagre de Santo Elígio:

L’Hôtel-Dieu, Beaune, França – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

A pintura do holandês Rogier van der WeydenLe Jugement dernier / O Juízo Final, riquíssima em possibilidades de interpretação:

L’Hôtel-Dieu, Beaune, França – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

Aos portões do céu e do inferno se encaminham os abençoados e os condenados. Para nós, absolutamente sem viés religioso, as imagens eloquentes representam a saga humana desde sempre: cada um traz, dentro de si, o céu e o inferno.

Tinto, Branco, Rosé — Bourgogne

É uma antiquíssima região da França, cheia de histórias, castelos, trilhas, arte e vinhedos cultivados, ao longo dos séculos, por dedicados monges. O navio Swiss Gloria pernoitou em Chalon-sur-Saône, às margens do rio Saône.

Chalon-sur-Saône, França – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

Sob o céu muito claro de primavera desta manhã, subimos para Beaune, uma cidadezinha muito elegante, a capital dos vinhos da Borgonha, principalmente os brancos secos Chardonnay, considerados os melhores do mundo. Por aqui, uma refeição sem vinho é impensável.

Vinhos de Beaune – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

A lição do amável sommelier do Cellier de la Cabiote pode ser resumida assim:
• fora da França, os rótulos, em geral, indicam o tipo de uva: Cabernet Sauvignon, Pinot Noir, Carmenère…;
• já os rótulos franceses indicam a região de envasamento: Bourgogne, Beaujolais, Rhône, Bordeaux, Loire, etc.;
• quanto mais específicas as informações constantes do rótulo, melhor e mais caro o vinho. Por exemplo, o rótulo deste Corton-Charlemagne Grand Cru Cuvée François de Salins especifica a região de Bourgogne, a cidade de Beaune, o vinhedo Hospices de Beaune, o terroir Charlemagne e o envasador Albert Bichot. No rótulo de um vinho vinte vezes mais barato só constaria, vagamente, “Mis en bouteille dans Bourgogne“.
Agora, a deliciosa pausa para degustação:

Vinhos de Beaune – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

Por aqui também, diz o sommelier, é raro tomar vinho fora das refeições. Para isto, o cardápio do Swiss Gloria, além da boa apresentação, é muito saboroso e convida o vinho de Beaune.

Copyright©2018 Rainer Brockerhoff
Copyright©2018 Rainer Brockerhoff
Copyright©2018 Rainer Brockerhoff
Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

Em Beaune, o lembrete de Kurt Tucholsky: “há pessoas que temos de entendê-las para amá-las; outras teremos de amá-las para entendê-las”!

A ficção imita a vida… Abbaye de Cluny

De Lyon, importante porto francês, o Swiss Gloria zarpou para Mâcon, região vinífera do Beaujolais. Dizem por aqui: “Em Lyon vertem três rios: Le Rhône, La Saône e…  Beaujolais”. A 25km, a Abadia de Cluny é um monumento espetacular de cultura, ciência e tragédia. Desta maquete do complexo beneditino, infelizmente, resta uma pequena parte.

Abbaye de Cluny, séc.XII – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

A Abbaye de Cluny iluminou o mundo ocidental por séculos. Os abades eram muito influentes, interlocutores diretos do Papa; entre os monges, quatro foram eleitos Pontífices e outros, canonizados. A sede da maior congregação beneditina é — sim, ainda hoje — uma saga arrojada de desenvolvimento e grandeza. Tem-se a impressão de viver as páginas de um livro, as cenas de um filme:
— Cluny I, 910-927. A modesta e inicial edificação incluía vinhedos, riachos e moinhos.
— Cluny II, 961-981. As exigências da liturgia e do progresso trouxeram a ampliação da edificação e, principalmente, a primeira igreja com altar em níveis.
Cluny III, 1080-1130. Atingiu o ápice de magnificência. A catedral de Saint Pierre et Saint Paul, com 187m de comprimento, mais de 30m de altura e torres com 56m foi, por séculos, a maior do ocidente.
— Revolução Francesa, 1798-1808. A perseguição político-religiosa levou à demolição com imensuráveis prejuízos econômicos e culturais. Foi iniciada pela revolução e arrematada pela ignorância de Napoleão Bonaparte. Esta é uma coluna de uma das cinco naves da catedral:

Abbaye de Cluny – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

Pode-se avaliar a grandeza de Cluny pelas partes ainda de pé:

Abbaye de Cluny – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

Sempre majestosa e imponente, Cluny continua uma fonte inesgotável de história e espanto. Caminhantes passam por aqui em direção a Santiago de Compostela. Esta torre na muralha norte foi construída em torno de 1300:

Abbaye de Cluny – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

É impressionante a visão arquitetônica destes beneditinos:

Abbaye de Cluny – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff
Abbaye de Cluny – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

Estes dormitórios construídos antes da Revolução Francesa foram muito pouco utilizados:

Abbaye de Cluny – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

Os beneditinos competentes e cultos desenvolveram a ciência, a educação, as artes; produziram vinhos com excelência; alcançaram alto nível de bem-estar e riqueza; isso, certamente, provocou dissidências políticas. Os conflitos internos foram especialmente com os cistercienses.
O arqueólogo Alexandre Lenoir alertou bravamente sobre a loucura e prejuízos da demolição. Foi uma voz clamando no deserto…

Abbaye de Cluny – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

As esculturas, as edificações, as obras literárias, musicais e artísticas são atemporais; estão muito acima de qualquer ideologia. Representam a cultura de toda a humanidade. Por isto, deveriam ser intocáveis por mentes radicais, obscuras e partidárias. Contudo a mesma catástrofe se deu no Afeganistão, com a destruição dos Budas milenares de Bamiyan.

Aqui nos jardins de Cluny, indiferentes às mazelas humanas, as tulipas são uma festa e uma promessa de primavera. Em qualquer beiradinha brotam como capim…

Abbaye de Cluny – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

Navegar é preciso… rio Rhône

Navegamos, desta vez, as águas dos conquistadores romanos da Gália, atual território francês. O rio Rhône — a gente aprendeu na escola rio Ródano — nasce nos Alpes suíços, alimenta o Lac Léman, deságua no Mediterrâneo. Ao longo de 812km é um refúgio de vida selvagem. A cada momento, bandos de aves pescam e os flamingos são os moradores mais ilustres. O majestoso rio Saône se junta ao Rhône em Lyon. Formam uma parceria belíssima:

Confluência Saône/Rhône — Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

Lyon — a mais antiga da França, habitada desde 600 a.C. — é o principal ponto nas rotas para Paris, Alpes, Espanha, Itália e norte da França. No aeroporto, a elegante estação/Gare Lyon Saint-Exupéry:

Gare Lyon Saint-Exupéry — Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

Em frente ao nosso hotel a Place des Jacobins quase deserta de manhãzinha:

Place des Jacobins, Lyon — Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

Aliás, Lyon acorda a partir de 11:00 quando os cafés, restaurantes, as lojas oferecem “guloseimas” de todos os tipos e níveis. Como qualquer centro comercial rico e ativo, tudo gira em torno de comprar e vender. É impressionante a força desta engrenagem girando ad infinitum. O pessoal compra e compra… objetos desnecessários, inúteis pelos quais gastam-se tempo e energia. Jogamo-los fora e voltamos para a roda.

Os traboules — passagens e escadarias originalmente usadas por contrabandistas medievais— foram pontos de resistência na Segunda Guerra Mundial; hoje são charadas arquitetônicas. As dezenas de pontes são obras de arte; esta lembra van Gogh, não?

Lyon, França — Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

Les Halles, o tradicional mercado francês — em Belém do Pará, Brasil, há uma valiosa réplica do de Paris — modernoso, todo de vidro, é um mundo de comida étnica, carnes, frutos do mar, molhos exóticos, queijos, vinhos e cheiro muito bom. Sem dúvida, Lyon é a capital gastronômica da França. Uma doçaria armênia:

Les Halles, Lyon — Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

Interessante notar a economia de espaços; por aqui, tudo agarradinho, as mesas e cadeiras bem próximas, qualquer corredor ou cantinho é bem aproveitado.

A cidade toda enfeitada com as árvores floridas. Ao longo dos rios Saône e Rhône outras formam intrigantes esculturas:

Lyon, França — Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

A magnífica Basílica Notre-Dame de Fourvière, os mosaicos bizantinos, os riquíssimos vitrais, compensam a maratona da infindável escadaria:

Notre Dame de Fourvière — Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

Embarcamos no confortável navio da Phoenix, MS Swiss Gloria. A partir daqui são cidadinhas muito especiais espalhadas pelos vinhedos a perder de vista. Chalon-sur-Saône, por exemplo, produz os melhores e mais caros vinhos do mundo. As terras ali alcançam a cifra de bilhões de Euros.

MS Swiss Gloria, Lyon — Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

Curtimos muito os caminhos por onde este barco nos leva. É uma viagem não muito comum. A paisagem vem ao nosso encontro no deck. Pode não ser o turismo para uma grande maioria. Certamente agradará aos viajantes observadores dos contrastes, do valor do passado, das transformações através dos tempos. As ruínas, as arenas seculares, as tumbas, as peripécias de van Gogh transmitem enlevo, lição, espanto, ironia e… bom humor…

2018

Art Gallery, San Francisco – Copyright©2006 Rainer Brockerhoff

Copyright© Maria Brockerhoff

Vasa — o resgate de um navio

Em Stockholm, Suécia, todos os caminhos levam ao Vasa Museet. A história deste navio ultrapassa qualquer ficção.

Vasa, Suécia – Copyright©Peter Isotalo, Creative Commons

O Vasa — nome da dinastia — afundou numa clara manhã de 10 de agosto de 1628, em poucos minutos, a 1300m do porto do arquipélago de Stockholm, diante do rei, de toda nobreza e de convidados ilustres. Dos 445 tripulantes e soldados pereceram entre 30 e 50 pessoas.

Na maiden voyage — viagem inaugural — a nave mais potente da marinha sueca, a menina dos olhos de Gustavo Adolfo II, inclinou-se sob uma rajada de vento; a água infiltrou nas canhoeiras abertas e a obra-prima desapareceu nas profundezas do Báltico. Aí permaneceu por mais de três séculos.

Vasa, Suécia – Copyright©Rainer Brockerhoff

O Vasa foi projetado corretamente; contudo o rei fez exigências extravagantes para o seu palácio flutuante. Por exemplo, transportar 64 canhões, o dobro do peso previsto. A idéia do resgate, por volta de 1950, veio de Anders Franzén, arqueólogo e técnico naval. Com a obstinação dos visionários, Franzén localizou o navio e a ressurreição do Vasa levou 30 anos! Somente a retirada do mar exigiu quatro de trabalho árduo. Os mergulhadores furaram túneis sob o casco, lançaram cabos de aço e içaram o navio com o madeirame praticamente intacto.

Vasa, Suécia – Copyright©JavierKohen, Creative Commons

O motivo do bom estado da madeira é também uma grande sorte: o molusco Teredo Navalis é um devorador de madeiras de navio. Não teria sobrado uma lasca do Vasa se o Mar Báltico não estivesse poluído e se fosse mais salgado. O gosto das águas salobras não são do paladar do Teredo.

O Vasa Museet foi construído especialmente. São 7 andares de onde se vê tudo de todos os ângulos. Há réplicas de compartimentos onde a gente pode entrar, bisbilhotar, como se estivesse navegando…

Vasa, Suécia – Copyright©Peter Isotalo, Creative Commons

A equipe altamente especializada conseguiu montar o gigantesco quebra-cabeças das milhares e milhares de peças soltas, 700 esculturas de leões, deuses, heróis gregos e romanos, animais marinhos, símbolos da cultura sueca e ambições políticas; eles refizeram, também, esqueletos humanos e pertences.

Vasa, Suécia – Domínio Público

Para a preservação das velas, da madeira, das cores reavivadas cuidadosa e fielmente, a temperatura tem de ser muito baixa e a luz comedida. Tudo aqui exige manutenção contínua. Um ritual cotidiano reconhecido pelos 1 milhão de visitantes / ano.

O resgate e a reconstrução representam uma esplêndida odisséia. Aqui a atmosfera do passado, futuro, devaneio, aventura nos faz ficar suspensos…

Mauritius — Oceano Índico

As Ilhas Mascarenhas — descobertas pelo português Pedro Mascarenhas em 1505 — compreendem Mauritius, Réunion e Rodrigues perdidas em um Éden tropical, sudeste de África. As extensas areias brancas e vegetação exuberante.

Mauritius – Autor ignorado

De Seychelles, o navio MS Amadea rumou para a República de Mauritius, a aproximadamente 1700km; depois de quase 3 dias em alto mar, aí está…

Mauritius – Copyright©2013 Miwok

A ilha vulcânica é próspera, uma rica cultura preservada, há séculos, por indianos, creoles, chineses, franceses, holandeses, portugueses e africanos. É a maior renda per capita da África. Port Louis é a capital colonial:

Caudan Waterfront, Mauritius – Copyright©2017 Rainer Brockerhoff

A população multiracial favorece o exercício cotidiano da cidadania e da tolerância. São perceptíveis a tranquilidade e o viver democrático pela variedade de sotaques ouvidos nas ruas da capital: créole, hindi, tamil, marathi, além do francês, inglês… …envolvidos pelas músicas e danças contagiantes. Há ainda o fator principal para esta convivência: em Mauritius não há religião oficial e, portanto, nenhuma restrição a qualquer culto.

Port Louis, Mauritius – Copyright©2017 Rainer Brockerhoff

Port Louis é o ponto de partida para os melhores mergulhos do mundo e para qualquer outro desejo de trekking, balões, cavalos e esportes aquáticos. O litoral brasileiro tem praias belíssimas, sem dúvida. Contudo a diferença indiscutível é a limpeza e a segurança nestas ilhas.

Mont Choisy, Mauritius – Copyright©2017 Rainer Brockerhoff

A França dominou Mauritius entre 1710-1810. A princípio, como aconteceu em outras regiões, os indianos foram enganados por falsos contratos e viveram, por muito tempo, em regime de severa escravidão. Desde 1968 não se tem notícias de disputas políticas ou militares, levantes e ditadores. Vigora o sistema democrático parlamentar com eleições regulares a cada 5 anos para os chefes de estado e de governo.

Imagens contrastantes de Port Louis moderna…

Caudan Waterfront, Mauritius – Copyright©2017 Rainer Brockerhoff

…e o mercado antigo, a ainda efervescente Chinatown…

Chinatown, Mauritius – Copyright©2017 Rainer Brockerhoff

O nome Mauritius foi homenagem ao princípe Maurits van Nassau, aquele mesmo holandês apelidado de “o brasileiro”, cuja excelente administração (1637-1644) iria transformar Recife em uma cidade moderna. Cabe aqui uma indagação: como teria sido o Brasil holandês? Apesar de toda a crueza envolvida em uma colonização, as ocupações holandesas tiveram um nível de desenvolvimento razoavelmente mais alto.

A ilha ocupa o terceiro lugar em produção mundial de açúcar. Cultiva-se também tabaco, flores e chá. Por falar nisto, experimente nestas tardes quentes o chá das ilhas: um punhado de capim-cidreira, torcer bem ou picar ou bater no liquidificador; colocar água quente, abafar e… geladeira por 2 dias antes de coar. Uma delícia!

Aqui se fabricam navios em miniatura; depois de 200 horas de trabalho manual, o resultado é a mais requintada das artes. O Jardim Botânico é um dos mais bonitos do mundo. Vimos, também, o selo “Mauritius Two-Penny”, avaliado em torno de US$2 milhões.

©Petr Kalivoda, Wikimedia Commons

A nota dissonante na Ilha Rodrigues é a pesca incessante e prolongada de octopus. Nesta atividade, as mulheres vêm quebrando os corais. Os polvos dependem dos corais e, assim, ambos estão em risco de extinção. Este trabalho típico de mulheres beira a crueldade; é pouquíssimo dinheiro e drásticas as consequências ambientais.

Mark Twain, o pai da literatura americana, em definição primorosa:

Criou-se Mauritius primeiro, depois o paraíso foi a cópia.

Mamirauá — comunidade Caburini

Aqui, a marca indelével é a diversidade deste mundo de águas. Visitamos Caburini descendo pelo rio Japurá. As margens oferecem o toque pitoresco das moradias…

Rio Japurá, Amazonas – Copyright©2017 Rainer Brockerhoff

…as esculturas…

Rio Japurá, Amazonas – Copyright©2017 Rainer Brockerhoff

…o vai-vém…

Rio Japurá, Amazonas – Copyright©2017 Rainer Brockerhoff

Impressiona a boa adaptação dos bichos e dos homens. Nas cheias, as onças, por exemplo, se empoleiram nos galhos mais altos das árvores. A comunidade Caburini transporta as casas conforme o deslocamento do rio nas cheias. É uma praia de areias ricas em nutrientes transportadas pela correnteza. Perfeito o banho nas águas mornas do rio!

Comunidade Caburini – Copyright©2017 Rainer Brockerhoff

É frequente, também, elevar o nível das “pernas” das palafitas, pois a água chega a ultrapassar os 5 metros. Implantaram a boa idéia de uma cozinha comunitária; cada qual leva um ingrediente.

Comunidade Caburini – Copyright©2017 Rainer Brockerhoff

Os ovos de tartaruga são cuidados e protegidos sob orientação do patriarca, seu Sandro. Para multiplicar a sobrevivência, enterram-nos mais perto de suas palafitas e ajudam os filhotes a alcançar o rio. Afastam os pássaros fregueses do manjar de ovos!

Comunidade Caburini – Copyright©2017 Rainer Brockerhoff

Aqui vive a maioria dos funcionários da Pousada Uacari. A criatividade dessa gente amável atinge o máximo nessa academia; aí o seu Sandro “puxando ferro”:

Comunidade Caburini – Copyright©2017 Rainer Brockerhoff

Os frutos de Mamirauá se devem à iniciativa de mentes brilhantes e dos saberes dos ribeirinhos longe dos centros do poder e de gente cheia de teoria. O grande mérito de Marcos Ayres foi acolher o jeito de cuidar dos bichos e plantas transmitido pelos bisavós, acrescentando-lhes a técnica adequada e pesquisa científica. A participação dos ribeirinhos tornou-se fundamental para fixá-los à terra de origem, incentivo à propriedade privada e à limpeza das áreas sem uso do fogo.

Ao voltar, é forte a sensação de ter vivido nem um milésimo de toda a fartura deste universo.

Reserva Mamirauá, Amazonas – Copyright©2017 Rainer Brockerhoff

Mamirauá, au revoir

Para contato: Andarilho da Luz / Reserva Mamirauá.

Mamirauá — o reino das aves

O regime de enchentes e vazantes estabelece modus vivendi específico e diferente para bichos, peixes, aves, plantas e ribeirinhos da Reserva de Mamirauá. Nas cheias, de dezembro a maio, 1 milhão de hectares ficam submersos. Na seca, de junho a novembro, a admirável cigana ou hoatzin

Hoatzin em Mamirauá – Copyright©2009 Pedro Meloni Nassar

…as garças elegantes…

Mamirauá, Amazonas – Copyright©2017 Rainer Brockerhoff
Mamirauá, Amazonas – Copyright©2017 Rainer Brockerhoff

… e os biguás, úteis fiscais das águas limpas, não se alimentam em águas poluídas.

Mamirauá, Amazonas – Copyright©2017 Rainer Brockerhoff

Exímios mergulhadores preferem peixes pequenos, não representando assim concorrência para os ribeirinhos que os protegem. Aí o merecido descanso depois do expediente.

Mamirauá, Amazonas – Copyright©2017 Rainer Brockerhoff

Embaixo destas árvores, nas cheias, alguns peixes fazem cavernas nas margens e ali depositam ovos; pode-se ver este “estacionamento” de buracos. Também nas cheias, em uma adaptação formidável, outros peixes se alimentam dos frutos altos das árvores e desovam entre suas raízes. As enchentes podem alcançar até 15m ou mais. O único meio de transporte é o barco.

São preciosas as fotos de aves do biólogo Pedro Nassar, gentil guia bilingue da Pousada Uacari. É uma fartura; há passeios exclusivos para observação de aves. Este Uirapuru-de-chapéu-azul é mais um presente de Pedro.

Uirapuru – Copyright©2015 Pedro Meloni Nassar

Mesmo com todos os cuidados da Reserva de Mamirauá há, na Amazônia, segundo estudos recentes, 48 espécies de aves ameaçadas de extinção, principalmente pela implantação de hidroelétricas e do desmatamento. Estes passarinhos enfrentam, sim, a ameaça cruel: a indiferença do homem…

Mamirauá — Pousada Uacari

Logo depois da confluência dos rios Japurá e Solimões entra-se no Canal Mamirauá… aqui a primeira imagem — ou será uma miragem? — das telhas cor de tijolo feitas de garrafas-PET ao estilo das ilhas do Pacífico sul: a Pousada.

Pousada Uacari, Mamirauá – Copyright©2017 Rainer Brockerhoff

O visionário e brilhante biólogo Márcio Ayres anteviu, num projeto pioneiro de 1997/99, uma reserva ambiental protegida cuidada pelos ribeirinhos, os legítimos senhores da floresta.

Reserva Mamirauá – Copyright©2017 Rainer Brockerhoff

Este incrível primatologista tornou possível a utopia de promover o manejo sustentável dos recursos naturais com a efetiva participação das seis comunidades integrantes da reserva.

Comunidade Caburini, Mamirauá – Copyright©2017 Rainer Brockerhoff

A região é muito quente; a umidade triplica a sensação térmica. Assim, os passeios são, inteligentemente, programados para bem cedo e à tardinha. Ao meio-dia, o zênite solar leva todos — até os jacarés vizinhos — a uma reparadora soneca depois do delicioso almoço. A temperatura e a umidade nos fizeram antecipar a volta!

Pousada Uacari, Mamirauá – Copyright©2017 Rainer Brockerhoff

A varanda traz o gostoso e cantante silêncio das águas… as fotos são apenas desbotadas imagens…

Pousada Uacari, Mamirauá – Copyright©2017 Rainer Brockerhoff

O exótico macaco Uacari — o querido de Marcio Ayres — corria sério risco de desaparecer, assim como peixes-boi, pirarucus, tracajás e, em consequência, outras espécies endêmicas. Hoje essas espécies se multiplicaram e a degradação regrediu drasticamente. Ainda há muito trabalho, mas o resultado de Mamirauá, através do desenvolvimento e capacitação das comunidades deveria ser buscado por todo este Brasil.

No próximo post: pássaros e mais surpresas!