A Cidade das Mulheres — Ecuador

Existe, sim, um matriarcado em El Tambo. À espera de maridos e filhos, estas corajosas mulheres são Penélopes modernas.

Os pueblos equatorianos desenvolveram costumes, tradições tornando-os peculiares:

  • Latacunga é o das fritadas; porcos/chanchos são dependurados às portas. Nacos de carne são retirados e fritos ali mesmo em enormes frigideiras. O cheiro bom de especiarias vai muito longe;
  • Salcedo é o paraíso dos helados: sorvete de todos os gostos e cores;
  • Pelileo é o reino das fábricas e comércio de jeans de todos os tipos possíveis;
  • perto de Ambato, uma singular escola e cultivo de bonsais. Plantas antigas com um porte majestoso.
  • de Salasaca vem a lã fiada enrolada em novelos por alegres mulheres na praça, algumas velhinhas bem ativas.

O transporte regular entre os pueblos é de um luxo bem-humorado.

Curioso, mesmo, é El Tambo, um lugar já apelidado de “a cidade das mulheres”. Num êxodo maior que o de Governador Valadares em Minas Gerais nos áureos tempos, maridos e filhos emigram, principalmente, para os Estados Unidos.

A busca do El Dorado leva os seus homens e as mulheres, com as crianças pequenas, assumem todas as tarefas. Vimos mulheres ordenhando, pastoreando, carregando água, assentando tijolos, dirigindo velhos tratoretes…

Os dólares lá de fora são empregados na construção de casas muito grandes — 8 ou 10 quartos — com sobrados, varandas e janelas coloridas. Como um troféu, esta construção demonstra o sucesso na terra estrangeira! Enquanto os homens não regressam, a manutenção das casas vazias fica a cargo dos pais ou avós; estes cuidam do imóvel e continuam morando no casebre ao lado. Para eles, morar no “castelo” é impensável.

Muitos jovens nunca mais dão notícias… ficam as casas inúteis, inacabadas, como o testemunho da busca da fortuna, do sonho de uma vida diferente, enfim do surrado, nem por isto sem valor, American Dream.

Perto de El Tambo, as ricas ruínas de Ingapirca — simbólico presságio do destino de El Tambo?

Em ligeiras pinceladas, a história nos conta sobre a nação Cañari, uma adiantada civilização indígena, nesta região desde o século V. No início do século XVI foram conquistados pelos Incas, quando se iniciou a construção de Ingapirca. Logo depois, os cruéis conquistadores espanhóis destruíram este rico império indígena. Como sempre, sobre os cadáveres dos nativos construíram igrejas.

O guia especializado em Ingapirca é carismático; seus olhos brilham ao descrever o significado de cada pedra, de cada símbolo, de cada forma na rica cultura Cañari e Inca. Dá gosto ver alguém demonstrar, de dentro para fora, tanto entusiasmo pela profissão. Confirmando esta minha impressão, quando falei da sua excelente expressão corporal própria de um bom ator, respondeu-me:

— então sou ator de Ingapirca, onde quero morrer!

 

Nariz del Diablo — O Trem Impossível

O audacioso projeto de construção de estradas de ferro no Ecuador é de 1861; além de ligar as partes mais distantes e modernizar o país, tinha por objetivo político quebrar a influência absoluta da igreja católica; este último, certamente, foi em vão.

Uma importante rota de turismo é a do Tren Crucero, que começou a operar em 2013. Começamos em Alausí, um antigo e agradável pueblo, a duas horas de Baños.

Nariz del Diablo, o trecho mais conhecido, o de maior altitude e o mais estreito, foi reinaugurado em 2011. Esta construção era considerada impossível pelos especialistas da época e a execução comprovou ser a estrada de ferro mais difícil do mundo. Aqui é o túmulo de, aproximadamente, 2500 trabalhadores de países distantes, grande parte de jamaicanos.

O relevo da região — com aquele mesmo verde repousante da Irlanda e do Bhutan — exige exímios maquinistas; a encosta quase vertical obriga complexas manobras de avançar e dar ré naquela “garganta” para o retorno. Experientes condutores seguram o trem numa descida em ziguezagues de 800m até Sibambe, uma pequena estação com restaurante, alegres danças típicas e um pequeno museu bem esclarecedor sobre esta avançada e desafiadora obra de engenharia.

Em Alausí, antes do embarque, um cheiro apetitoso confirmou a boa indicação do guia Milton para o desayuno. No boteco, a gentil atendente nos serviu de um enorme caldeirão fervente uma suculenta sopa, além de ovos, pães, choclo/milho verde, queijo fresco, geléia e o néctar de guanabana, uma fruta típica, prima da graviola.

Bilhetes para este cruzeiro de trem? Só com muita antecedência e o pessoal da terra reclama do preço alto. Felizmente a agência Happy Gringo organizou tudo muito bem e a nossa parte foi a de aproveitar este passeio e a sensação de estar num momento atemporal, sem passado nem futuro.

O vagão é muito confortável, muito limpo, com esta curiosa placa.

De qualquer assento — aliás, nem precisaria disto! — a vista é completa. Tivemos a sorte de compartilhar bons momentos com uma alegre e grande família equatoriana, que lotou o vagão! Essas pessoas muito gentis tornaram o passeio especialmente acolhedor.

Esta viagem traz uma inversão muito boa: são as montanhas, os riachos, as curvas que se aproximam do trem… a paisagem se oferece à janela…

Aguas Calientes — Baños, Ecuador

A rodovia para Baños é bem movimentada; corta vales verdes, surpreendentes canions e pueblos espalhados morro acima; nos quintais, bezerros, ovelhos, cabritos amarrados pelas patas!

Curiosamente, as novas rodovias não têm acostamento. Até a gente “se acostumar” com as paradas no meio da pista é um susto só!

Baños, com aproximadamente 20 mil habitantes, está espremida entre altas montanhas aos pés do poderoso Tungurahua garganta de fogo — 5016m; a última erupção foi em 1999. A grande atração são as águas termais — daí o nome Baños — de origem vulcânica. Por toda a região há piscinas quentes, fontes, mananciais muito frequentados por nativos e turistas.

Baños é o ponto de partida para todos os tipos de aventuras radicais em rios, pedreiras e canions. O tal desafio de se equilibrar numa corda ou cabo entre dois despenhadeiros é de arrepiar! Nosotros preferimos curtir os deliciosos banhos bem pertinho das nuvens no Hotel Luna Runtun.

A localização do hotel, muito bem indicado pela agência Happy Gringo, é privilegiada. Daqui do cumbre das montanhas a vista de Baños iluminada e da cratera do Tungurahua é surreal. Operado por uma companhia suíça, o hotel é muito confortável; os chalés espaçosos com pisos aquecidos são funcionais e a decoração atingiu o nível perfeito entre o luxo e o bom gosto. É um ambiente incomparável para um mergulho em busca da criança perdida dentro de cada um.

O restaurante, na parte mais alta, é maravilhoso; muitas iguarias da boa cozinha vêm da variada e preciosa horta aqui mesmo do hotel.

Em meio às arvores e muitas flores, as termas com águas escaldantes, spa, piscina com borda infinita e cascata. Para os corajosos, uma gigantesca e bem fria ducha… o contraste traz uma sensação muito boa!

A Basilica de Nuestra Señora de Agua Santa, construída com pedras vulcânicas, atrai peregrinos durante todo o ano. No teto, belíssimos desenhos geométricas e nas laterais os relatos de milagres da Virgem. Ao lado, o convento dos padres Dominicanos, uma edificação antiga com belos pátios ajardinados. Na igreja silenciosa um bando de colegiais falando alto, como num mercado. Uma pena!

Uma pitoresca e colorida “jardineira”, circulando por toda parte, tem a preferência dos turistas: é chamada de chiva vagabunda.

Vulcão-Laguna Quilotoa — Ecuador

A força, a grandeza do Quilotoa nos fazem emudecer e admitir a insignificância da condição humana!

Deixamos o Hotel Hacienda La Ciénega bem cedinho; haveria uma procissão de 40km da Semana Santa e as rodovias seriam fechadas. Mesmo antes do sol nascer, o hotel, confirmando os bons serviços, nos serviu um reforçado desayuno.

A rodovia, inaugurada no dia anterior — parte da Carretera Panamericana projetada para ligar o Alaska a Ushuaia — corta a região cheia de vales retalhados com vegetação de todas as cores e as mais pitorescas formações rochosas.

Uma se chama Guarida del Condor, pois a montanha se parece com um gigante condor de asas abertas; um vasto canion é apelidado de Machu Picchu del Ecuador. O rio Toachi, desaguando no Pacífico, sulcou profundamente o vale, transformando-o num Grand Canyon do Ecuador

As casas típicas de adobe com cercas vivas, as crianças pequenas com bochechas vermelhas pelo frio, envoltas em xales coloridos a caminho da escola, as mulheres pastoreando ovelhas completam esta paleta da natureza. Toda a paisagem se equipara à do Bhutan, com a vantagem de, para nós brasileiros, estar… “logo alí, ó…”

O parque do vulcão Quilotoa, próximo ao pueblo de Zumbahua, tem boa estrutura. De um mirante pode-se apreciar, com conforto, toda a magia deste lugar. As muralhas, formando o portal de entrada, são uma obra de engenharia de alto nível.

laguna do Quilotoa, cujas águas salinas abrigam apenas algas, tem 240m de profundidade. Suas paredes elevam-se a 400m da superfície. Nasceu da erupção em 1280 — uma das maiores do mundo no último milênio. A lava alcançou até 35.000 km² e tornou a região rica para agricultura, pastagens e fonte de estudos arqueológicos. O nível da água tem diminuído nos últimos anos.

 


O caminho até a laguna, com degraus e muretas de apoio, é limpíssimo e bem sinalizado. Pode-se descer em meia hora até às suas margens, onde não chegamos, pois… e a subida?! Bem, na subida, o aclive muuito acentuado e a altitude de quase 4000m tornam este percurso uma prova para maratonista. Os afoitos podem contratar mulas para “içá-los” de volta.

A vista da cratera, um espelho esmeralda emoldurado por montanhas onduladas, é de uma beleza ímpar! Já estivemos no Crater Lake, Oregon/USA, e nos lagos do Licancabur, no Chile e, a cada vez, um encantamento primevo.

Hacienda La Ciénega — Ecuador

Os tradicionais hotéis-fazenda são lembranças vivas de um mundo perdido. Deixar-se levar pelo fio condutor do passado pode ser uma fonte de descobertas…

pueblo de Lasso fica a poucos quilômetros do Parque Nacional Cotopaxi e lá, ao fim de uma alameda de eucaliptos centenários, enormes, está a Hacienda La Ciénega com um estiloso brasão. É hoje um confortável hotel, muito bem escolhido por nossa agência Happy Gringo.

A antiga e rica casa-fazenda, em estilo inca e espanhol-colonial, com 6.000 m², resistiu a arrasadora erupção do Cotopaxi em 1742, certamente pela sólida construção de pedra e argamassa. Nos amplos apartamentos, com enormes janelões para os canteiros com flores de todas as espécies, podemos ver a espessura de até 2m das paredes. Há 300 anos pertence a famílias ilustres e em seus salões os políticos e visionários cidadãos gestaram a independência e tramaram as vitoriosas lutas contra os espanhóis a partir de 1808.

Também nesta Hacienda, a história romântica do herdeiro Gregorio Matheo de la Escalera; tendo-se enamorado de uma marquesa em Lima, raptou-a e, com a proteção de cem criados, trouxe-a para La Ciénega, onde se casaram. Oxalá tenham sido felizes para sempre…

O La Ciénega é um Hotel Victoria FallsZimbabwe — do Séc. XVIII. Os salões com fotos e pinturas antigas, as mobílias, os adornos, os sofás em formatos ondulados, o piano são finas peças de antiquário transportando-nos para um outro tempo! Bem adaptado para uma confortável hospedagem, este lugar já foi “descoberto” por turistas da Escócia, Inglaterra, Suécia, Japão, China, como verifiquei no livro de visitas.

Os três espaçosos restaurantes tem vista para o jardim do pátio interno e a tilápia en papillote, no jantar, é deliciosa. O serviço é eficiente e, à noitinha, uma gentil senhorinha vem reavivar o fogo na lareira. As árvores e palmeiras seculares, a acolhedora capela antiquíssima resgatam um mundo de lembranças.

Em frente ao hotel há uma fazenda de roseiras. Aliás, em toda parte, até nas encostas, cultivam-se rosas e o Ecuador é um dos principais exportadores depois de Holanda e Colômbia. O trabalho, as pesquisas nestes centros de cultivo de rosas são minuciosos e eficientes; por exemplo, cada botão é coberto para evitar o bolor ou mofo. A camomila é plantada nos canteiros, pois é mestra em detectar os primeiros sintomas de doença/praga nas roseiras.

Curioso é o tamanho do caule das rosas exigido por diferentes países: Rússia, 90cm; Europa, 45cm; Estados Unidos, 30cm… e as encomendas são rigorosamente atendidas.

Vulcão Cotopaxi — Ecuador

Os vulcões, como os seres humanos, trazem grandeza e destruição dentro de si mesmos.

De Quito, a Avenida de los Volcanes avança para as montanhas, em direção ao Cotopaxi, um dos mais altos, com 5.897m. A Avenida dos Vulcões justifica o apelido dado pelo alemão Humboldt, naturalista, historiador e geógrafo, que esteve por 5 anos pelas Américas no século XIX. Ao largo da Cordilheira dos Andes — um maciço espetacular de, aproximadamente, 8000km — este caminho conecta o norte ao sul do país e abriga lugarejos remotos, vales, formas pitorescas, canions, rios e lagos. Nesta surpreendente avenida, com dezenas de soberbos vulcões, a vida ainda gira em torno das tradições e costumes andinos.

Chegamos ao Parque Nacional Cotopaxi e, daí, a rodovia se estende ao infinito, numa paisagem em 360 graus. O Cotopaxi, o segundo mais alto do Ecuador, se apresenta com o cumbre coberto de neve.

Nesta região dos Andes, o páramo guarda um ecossistema tão simples quanto admirável e eficaz:

a vegetação baixa, alpina, típica dos locais frios e úmidos, forma uma esponja natural, a maior do mundo, coletora de água gota a gota. Este incrível processo contínuo forma fontes cristalinas de pequenos riachos, sem origem glaciar, fundamentais para todos os seres vivos destas paragens.

É um sistema eficiente, mas frágil, e a pecuária é uma ameaça séria.

CuelloDeLaLunaChegamos ao estacionamento do Parque, de onde só se prossegue a pé ou de bicicleta. O Cotopaxi, por ser um cone perfeito com o formato de “ombros” arredondados, tem o apelido de cuello de la luna; isto se vê quando a lua cheia “pousa” na cratera.

A uma altura de 4660m começamos a subida. O vento castiga e a partir de um ponto a respiração é curta, a cabeça vira um insistente tambor-tum-tum, obrigando-nos a parar a cada dez passos. Cristian, nosso guia bem-humorado, nos empurrava morro acima. A 4864m está o Refúgio, um pequeno abrigo para os corajosos aspirantes ao cume.

As erupções do Cotopaxi, cuja cratera mede 480m, são arrasadoras; podemos ver a força da lava pelo extenso canion sulcado pela erupção de 1904.

A terra negra faz um belo contraste com um manto macio de neve que, egoísta, esconde o Cotopaxi. Aqui uma pedra! Oba! É um camarote para recuperar o fôlego e aproveitar o silêncio cheio de sons desse lugar especial. O Cotopaxi, de longe, é gentil e convidativo, mas… vamos dar meia-volta. Alguns continuam o aclive e já se transformam em pequenas figuras lááá em cima.

A descida “es papaya”, como dizem por aqui. Sim, agora, todo o santo ajuda, ainda mais com um caldo quente e chá de coca, aliás, muito raro no Ecuador. Além de artesanías, há no Parque um pequeno museu sobre vulcões e a demonstração dos danos da pecuária e agricultura quando ocupam o lugar das matas nativas.

…saímos daqui leves, quietos, trazendo a beleza do Cotopaxi com a gente…

Quito — Ecuador

O Ecuador é uma grata surpresa! A maior é o mestre pintor e escultor Oswaldo Guayasamín, do mesmo quilate de Picasso.

Foto: Robert Nunn (Creative Commons)

Cidades limpas, gente amável em trajes coloridos, arte e tradição emolduradas por uma natureza generosa.

O aeroporto de Quito tem uma boa estrutura, a passagem pela alfândega bem rápida, as rodovias largas e bem sinalizadas. Inaugurado há 2 anos, o moderno aeroporto se deslocou de Cumayo, a parte antiga, com as casas encarapitadas em ladeiras íngremes. Aqui a Iglesia de Guápulo, uma das mais antigas de Quito, atrai devotos de todo o país.
As ruas em direção ao centro são estreitas e muito movimentadas. Como no Brasil, o uso de veículos privados é geral e o de transporte público é, ainda, restrito.

O motorista gentil, muito bem informado, nos deixou no Hotel Café Cultura, cuja fachada e bonito jardim impressionam bem. Ledo engano! Sob a “capa” de colonial o estilo (?) é o de ambientes fechados com ventilação precária. A saleta de estar no lobby é atulhada de objetos, sofás e livros muito velhos. As belas rosas equatorianas não disfarçam o cheiro de mofo. Não conseguimos ficar, muito menos dormir, no hotel — praticamente vazio — tal a sucessão de espirros… não tivemos a menor atenção da direção deste tal Hotel Café Cultura (?), a não ser a cobrança de dois pernoites; por aqui, isto se chama “asalto”.

Felizmente, a nossa eficiente agência Happy Gringo nos indicou um outro hotel bem situado, com um pessoal atencioso, tudo limpo. O novo e arejado Hotel Nü House tem uma boa vedação das janelas proporcionando uma boa e silenciosa noite de sono.

Nesta época de páscoa a comida típica, muy rica! é a Fanesca, no restaurante Mama Clorinda, ao lado do Hotel Nü House. É um creme de milho com variadas sementes, pescado, bacalhau, banana, ovos cozidos; a sobremesa um delicioso figo acaramelado com queijo fresco. A comida por aqui é muito boa, com peixe, camarão, milho de muitos tipos, abacate, legumes e — sempre — papas, a versátil batata inglesa.

O centro histórico de Quito é imponente com casarões antigos bem conservados. A Calle de Siete Cruces é uma avenida com sete igrejas históricas e suas cruzes. Basta este recorrido para avaliar todo o poder dos colonizadores espanhóis retratado pelo esplendor das igrejas que, por si só, vale a viagem ao Ecuador!

Iglesia de la Compañía de Jesús é a expressão máxima do estilo barroco. Fotos, apenas com permissão especialíssima. Foi construída durante 160 anos pelos maiores artífices jesuítas e centenas de exímios artistas anônimos da Escuela Quiteña. À luz do sol, através das clarabóias, a igreja revestida em ouro 23k é de uma beleza inimaginável.

Basílica del Voto Nacional em estilo gótico lembra a catedral de Colônia — Alemanha. Também magnífica a Iglesia de San Francisco, um verdadeiro museu de milhares de obras de arte colonial.

Na Plaza de la Independencia, um significativo monumento aos heróis de 1809 que, liderados por Bolivar, lutaram bravamente contra os opressores espanhóis, vencendo-os. O monumento veio da Bélgica: uma altiva mulher representa a liberdade; um condor com as correntes quebradas simboliza o Ecuador; nos degraus, um leão escorraçado, a Espanha.

Muito conhecido por aqui é o monumento La Mitad del Mundo: o museu Inti Ñan — com esculturas de povos adoradores do sol — e a demonstração de fenômenos da latitude zero. É um lugar tipicamente turístico.

Uma belíssima surpresa foi nossa descoberta, por acaso, do mestre pintor e escultor Oswaldo Guayasamín. A divulgação deste visionário artista indígena e a visita à Fundación Guayasamín deveriam ser ítens imprescindíveis em todos os roteiros em Quito. Diante de Guayasamín, a esperança na humanidade se renova.

Ilha Isabela — Galápagos

Na manhã fresquinha o mar prateado convida para um mergulho agora, antes mesmo do café. As ondas descansam, relaxam, renovam toda essa engrenagem de corpo e mente!

No farto café da manhã os sucos exóticos são saborosos e o tal suco de Babaco é um néctar…

Rumamos para as terras altas de Isabela. Veículos não são permitidos além da entrada do Parque Sierra Negra. A partir daqui é uma boa caminhada, sem esforço, de 2km, até a cratera do vulcão Sierra Negra. A vista de 360 graus das elevações vulcânicas, do mar, das ilhas lá embaixo, traz uma boa sensação.

Esta cratera — 10km de diâmetro — é considerada a segunda maior do mundo entre os vulcões ativos; a primeira é do Ngorongoro, na Tanzânia. A última erupção do Sierra Negra, em 2005, durou uma semana e, felizmente, se restringiu à cratera.

Num ponto mais distante e de acesso bem mais difícil está o vulcão Chico, em plena atividade, com fumarola e tudo. Os mais corajosos prosseguiram… nós voltamos para um excelente almoço no Rancho Primicias, uma fazenda de pioneiros na ilha. A comida muito gostosa com hortaliças e frutos do pomar. Mangueiras carregadas são uma festa de doçura suculenta. Ofereci uma manga amarelinha para um jovem americano e valeu vê-lo sorver, pela primeira vez, o caldo com a cara mais surpresa do mundo! Nas redes, na sombra, uma soneca é inevitável.

Em convênio com o Parque Nacional Galápagos, estes fazendeiros cuidam de tartarugas gigantes ali mesmo no quintal. Os cuidados com a preservação são bem avançados; o gado é controlado em corrales, cultivam banana, cana, papaya em áreas determinadas.

À tarde passeamos em volta de uma laguna — uma antiga mina — alimentada pela água das chuvas abundantes por aqui. Hoje é o habitat de flamingos e outras espécies de aves.

Centro de Crianza de Tortugas desenvolve um programa da máxima importância na criação e preservação das tartarugas, mantido por organizações internacionais. As tartarugas-bebês são criadas em caixas ventiladas a 1m do solo, com alimentação balanceada e cuidados especiais até os 5 anos, pois a carapaça dos bebês é muito frágil. A partir daí são mantidas em compartimentos separados conforme a idade. Em todo o parque há enormes pés de mancenilheiras — as “maçãs venenosas” nativas — um dos alimentos preferido das tartarugas a partir dos 5 anos.

Por volta dos 25 anos as tartarugas voltam para o habitat; nesta época a carapaça já está bem dura e resistente aos ataques de ratos, gatos e — até recentemente — cabras e porcos. Antes destes programas, as tartarugas não sobreviviam. Uma medida drástica, mas eficaz, em 2005, resolveu de uma vez os ataques. 300 mil cabras e porcos foram abatidos por caçadores, inclusive australianos, especialmente treinados. Foi um churrascão sem precedentes nas ilhas e em Guayaquil, Ecuador.

Agora, na volta ao confortável Hotel Red Mangrove/Isabela Lodge, a praia é irresistível. Com uma gentil turista peruana aproveitamos muito as ondas e as estrelas.

Para a despedida, Las Tintoreras, ilhotas de lava retorcida, habitat dos pássaros de pés azuis, de pinguins tropicais — a única e menor espécie — de colônias de iguanas e leões marinhos e dos tubarões de pontas brancas que vivem na fartura dos mangues abrigados pelas pedras negras no mar esmeralda à vista dos cumes dos vulcões.

Aqui, mais uma vez o “snorkeling” em meio a milhares de peixes coloridos, tartarugas e minúsculas plantas suculentas. Mal pude acreditar em um cardume de peixinhos de poucos centímetros, da espessura de uma agulha de linha grossa, transparentes, visíveis apenas sob determinado ângulo da luz do sol. Inimaginável! O silêncio sob as águas é repousante e tranquilizador.

Ao longo do tempo, certamente este turismo constante prejudicará o frágil ecossistema e suas encantadoras criaturas.

O transporte existente entre as ilhas é complicado e cansativo devido às distâncias. Assim, em navios de cruzeiro, o aproveitamento é, sem dúvida, muito maior.

Galápagos — Ecuador

O arquipélago é de origem vulcânica. As sucessivas erupções formaram montanhas submarinas gigantescas, das quais as ilhas são apenas uma pequena amostra.

A Copa Airlines voa de Belo Horizonte MG a Guayaquil, Ecuador, com escala na cidade do Panamá. Evitamos, ao máximo, qualquer conexão em São Paulo. A companhia oferece bons serviços, não houve atrasos; as poltronas são espaçosas mas os “pés” ainda não se elevam o suficiente. A mais confortável poltrona-leito — a “flat bed” — é a da South African Airways. O melhor toalete a bordo é o do Airbus 330-300 da Lufthansa; o projetista inteligente teve a excelente idéia de abrir ali uma janela. A luz do sol e as nuvens pertinho iluminam aquele cubículo, ops! o banheiro, e o melhoram muito!

Pernoite em Guayaquil, a maior cidade do Ecuador, no tradicional e bom Hotel Hampton Inn. No dia seguinte, vôo para Galápagos. O aeroporto da Ilha de Baltra tem modernos equipamentos de energia solar e cuidadoso programa de preservação ambiental. Paga-se uma taxa de turismo de US$100 por pessoa, razoável!

O destino é Puerto Ayora na ilha vizinha de Santa Cruz, a 42km. A princípio bem árida, a ilha vai se cobrindo de verde até atingir uma densa vegetação. Puerto Ayora é um vilarejo limpo, com bons hotéis, restaurantes e muito boa estrutura de turismo. A Galeria de Arte Aymara é surpreendente, com belíssimas obras de artistas peruanos. Pertence a um suíço que veio visitar Galápagos… …há 28 anos.

O Hotel Red Mangrove, muito agradável, está em meio ao mangue cheio de caranguejos coloridos. O restaurante aberto para o Pacífico, onde as iguanas e lobos marinhos são os hóspedes principais.

O segundo dia foi para remar nas águas turquesa e observar os tubarões — tiburones — e os filhotes bem pertinho do caiaque. Ao alcançar a baía de águas cristalinas, o irresistível “snorkeling” cercado de pássaros — aqueles de inacreditáveis pés azuis — enormes pelicanos, lobos marinhos e tartarugas. Uma fragata — aquela ave com um enorme papo inflável — não se dignou a fazer uma demonstração.

À tarde partimos para a Ilha Isabela, a maior, em formato de cavalo-marinho. São mais de duas horas numa barulhenta lancha/voadeira. Na travessia, um “pão-de-açúcar” de rocha amarelada, entre outras formações, surge das águas revoltas do Pacífico. Na chegada, outra taxa, esta de US$20.

O hotel, da mesma cadeia Red Mangrove, espaçoso e confortável, está a poucos metros da praia muito limpa de Puerto Villamil com boas e convidativas ondas; aproveitei! Bem perto, um pitoresco bar abandonado, onde as pedras vulcânicas em círculo resistem às ondas bravas.

As espreguiçadeiras do hotel, na praia, são um camarote…