Futebol e foguetório

“Nunca antes neste país” se viu tanta falta de civilidade, tanta “quebra de decoro” em todos os níveis, em todas as profissões, em todas as faixas etárias, em todos os graus de escolaridade!

Os índices de violência, de analfabetismo, de pobreza, de corrupção são negados, sistematicamente, pelas altas esferas governamentais; desconsideram a validade de TODAS as pesquisas, onde se aponta qualquer aspecto negativo “deste país”. Ao invés de verificar as causas, os fundamentos da pesquisa, claro, o desgoverno “deste país” prefere ignorar ou negar os FATOS. Essa omissão gera reflexos e resultados indesejados em todas as áreas.

Um exemplo disto é a exacerbação da selvageria dos foguetórios e buzinaços neste domingo — 10 de novembro de 2013 — como em centenas de outras ocasiões. Não há limites para a conduta inqualificável, grosseira, de grupos de vândalos, muitos de bairros nobres, classe AA, da capital mineira. Isto, também, é uma forma de violência.

O foguetório — com bombas cada vez mais fortes — começa bem cedo e continua noite adentro. Estes grupos dominam, decidem, fazem a baderna, a gritaria, a desordem, o barulho ensurdecedor AONDE, QUANDO E COMO querem e a grande massa dos cidadãos (existe esta categoria “neste país”?) apesar de profundamente indignada continua engolindo sapos, lagartos e bombardeios.

Recorrer a quem? Quem terá a independência necessária para estampar na folha de capa de jornais e revistas estes abusos e persistir até a solução? Onde estão a lei, o ministério público, os representantes políticos do povo, a decência e o convívio minimamente civilizado?

O único meio, ainda, é o jornal, a imprensa. Sem a força da mídia a conduta abusiva e a barbárie vão continuar campeando IMPUNEMENTE.

Quousque tandem abutere, baderneiros, patientia nostra?

Nas cavernas, as estalactites e estalagmites são formadas paulatinamente, gota a gota… é o mesmo processo  da formação cultural: a permissividade, a falta de limites na educação, a inércia da comunidade, vão transformando estes excessos em costume, em “cultura”. As crianças seguirão o triste exemplo. Por aqui, tudo se justifica, tudo é “assim mesmo”. Já é “cultural” o jeito brasileiro do mais-ou-menos… infelizmente.

O povo brasileiro tem muitas qualidade, sim; por isso é preciso cultivá-las e incentivá-las… esta baderna sistematizada, certamente, não é o caminho. A celebração é legítima, o exagero não!

Bert Hellinger — o mago das constelações familiares

O psicanalista de 87 anos é uma delícia de gente! Sim, é a conclusão depois do privilégio de ouví-lo em três ocasiões diferentes, por períodos prolongados.

Bert Hellinger atingiu o último degrau da sabedoria, da grandeza: o da simplicidade. É sereno, de gesticulação mínima e de um bom humor admirável. Aliás, o bom humor é manifestação explicíta de inteligência.

A princípio, não queria a publicação pelo “perigo da generalização”. A base filosófica de Bert Hellinger é: cada caso é único, especial, particular; daí a terapia única, especial, particular. Finalmente, para maior reflexão, publicaram-se os livros e, para quem estiver disponível, são muito bons.

Perdoe, Bert Hellinger, a expressão “mago”. Posso ver seu significativo sorriso… um levíssimo arquear de sobrancelha. Você tem toda razão. Não, não há nada de sobrenatural, de espíritos, de magia, de energia oculta, de outras explicações esotéricas e/ou místicas para os resultados da atuação de Hellinger. O mago, neste caso, quer dizer, competência, seriedade, uma irrefutável base técnica, observação pertinente, humildade, compreensão das causas e e efeitos.

Vejamos a profundidade de uma proposição de Hellinger; as relações humanas são, fundamentalmente, trocas. Na maioria dos casos os pratos de dar e receber desta balança se desequilibram — ou alguém recebeu muito mais ou doou muito pouco. Normalmente, aprendemos que, se você recebe o bem, deve retribuir com o bem… eh! Qual a novidade disto? Aqui, nenhuma.
Contudo, vem o insight ímpar de Hellinger, indicando o caminho — se você receber algo ruim, deve retribuir na mesma moeda, com uma substancial diferença:

Quando receber o bem, retribua-o um pouco maior.
Ao receber o mal, retribua-o um pouco menor.

Blue Jasmine — filme de Woody Allen

Mais uma vez, o grande cineasta desnuda, como por acaso e de forma divertida, a natureza humana. Combina magistralmente humor e profundidade para retratar cada um de nós na tela. É um filme rico para quem estiver disposto a uma viagem interior, a repensar os motivos, as razões do cotidiano e as — aparentemente pequenas — concessões diárias ao parceiro/parceira, à família, ao consumo… enfim, a agir como Jasmine, absolutamente incapaz de conversar sobre a escolha de um possível curso para uma possível profissão.

Certamente muitos pensarão estar aquela gente muito longe de nós; ledo engano! Seguindo a característica principal — a leveza e a ausência de “dramalhão” — Woody Allen mostra como cada uma das irmãs é capaz de enxergar, com lucidez, as soluções… …para a outra! Jamais para si mesma. Outro ponto abordado é a falta de discrição generalizada; todos “contam” tudo de todos. Não há cuidado algum pelo sentimento e pela privacidade do outro.

A vista da baía de San Francisco e da Golden Gate traz saudades, as músicas de primeira, os atores muito bons. Nem faltou a pequena armadilha presente em todos os filmes. Desta vez, Jasmine, em mais um acesso de megalomania, típico de gente insegura e vazia, diz ter viajado de primeira classe. Em retrospectiva, pode-se constatar que os assentos do avião, nas primeiras cenas, não são de primeira; nem mesmo de classe executiva! 😉

O filme nos acompanha e, como toda boa história, continuamos a trama da carente Jasmine e do pessoal em torno como se fizesse parte do nosso aqui e agora.

Autoestima — Poema Urbano

Uma árvore delicada
quase frágil
presa à calçada
se cobre de pendões
amarelos…
iluminam a avenida
cheia de ruídos
e gente distraída
se enfeita
ignora a desfeita
dos desiludidos.

Os galhos floridos
sob a chuva
ou sol matutino
estão plenos abertos
prontos e certos…

Admirável
esse destino!

À recém-formada paisagista Sonia, esta floração!

Copyright ©2013 Maria Brockerhoff

Aparência

Para alguém…

Corres saltitante
para o abismo!
Buscas gente brilhante
só em coluna social.
Gastas dias preciosos
atrás dos poderosos
vazios, tristes, pobres
de prazer e de ternura.
Desperdiças a esmo
tempo, suor, doçura
fugindo de ti mesmo.
Trocas as tuas origens
a emoção mais pura
por luzes e miragens.
Segues a via da loucura!

                 

Além desta carta
Posso ser, apenas, espectador…

Copyright ©2013 Maria Brockerhoff

Belfast – Irlanda do Norte

No miolo de Belfast não dá para perceber a, ainda inacreditável, separação entre protestantes e católicos. A cidade é considerada a segunda, depois de Tóquio, em gentileza e boa recepção aos turistas. Saboreamos isto em duas ocasiões quando, na rua, consultávamos um mapa e as pessoas se aproximaram afavelmente para ajudar.

Ainda, próximos aos principais pontos de ônibus, há grupo de rapazes uniformizados orientando as direções e levando os turistas aos ônibus certos — um luxo! Os de turismo percorrem todas as atrações com curtos intervalos e funcionam no sistema dropon/dropoff: o sobe-e-desce-onde-quiser. Quando se sai do centro, a imagem da cidade vai se transformando. Muitas grades, edifícios abandonados, casas e prédios públicos cercados, arame farpado nos muros; é uma pena!

Belfast está empobrecida, como em geral a Irlanda do Norte. Certamente a profunda divisão religiosa (!) tem grande parte na decadência econômica e social. Gera grande perplexidade o alto muro separando os bairros Shankill (protestante) e o mais pobre Falls (católico). Aqui aumenta consideravelmente o abandono, as cercas tomando conta de praças e conjuntos residenciais. Uma funda sensação de impotência ao nos aproximar dos portões que se fecham todas as noites às 21:00, bloqueando entrada e saída entre os bairros.

Há, conforme a imprensa e relatos individuais, ação de grupos paramilitares fomentando a discórdia sob a omissão do governo. Felizmente, há grupos idealistas de católicos e protestantes trabalhando em conjunto para reverter esta realidade. Visitamos um prédio — exatamente no limite dos bairros — com escola, oficinas e campo de futebol onde os jovens dos “dois lados” se encontram, aprendem ofícios e jogam bola. São alentadores o programa e os resultados, lentos mas progressivos, deste pessoal.

Em tempo, perambulamos por dois dias por esses bairros e não tivemos problema algum com segurança.

De Dublin para Belfast, onde passamos três dias, conseguimos atingir nossa proposta já há algumas viagens: turismo leve! Fomos para lá apenas com nécessaire e a mochila com iPad. Sem bagagem a gente já não é mais turista e faz uma diferença impressionante! Só experimentando…

Dantas Motta — o poeta maior

De Aiuruoca, MG, o magnífico poema

“Pássaro Solitário”

Alma,
Pássaro solitário,
Como é difícil abranger-te!
nem sei como defender-te!
Incomensurável que és.
Num só crepúsculo,
Passeias todas as paisagens,
Visitas todas as terras,
E te recolhes triste
À morada que te serve
De cárcere…

Paladas de Alexandria — poeta grego

Também filósofo, do século IV d.C., contestou, duramente, as consequências da transição da cultura grega para o cristianismo.

O tema Tyche — a divindade da má ou boa sorte, fortuna, adversidade, acaso, destino — é muito bem desenvolvido com laivos de humor e ironia. Aqui uns epigramas de Paladas, traduzidos por outro poeta, José Paulo Paes:

Muita coisa pode acontecer entre o cálice e o lábio. (X:32)

 

Enriqueces; e daí? Quando morreres, a riqueza por acaso
te seguirá ao te arrastarem para o túmulo?
No juntá-la gastaste o teu tempo de vida; não poderias
pagar por ela preço mais exorbitante. (X:60)

 

Um palco, a vida e uma comédia; ou aprendes a dançar
deixando a sisudez de lado ou
lhe aguentarás as dores. (X:72)

Titanic — Belfast

Curtir o luxuoso e romântico navio era um desejo bem forte. O navio foi construído em Belfast, Irlanda do Norte, onde, até hoje, as mesmas companhias mantém os guindastes trabalhando nas docas. O Titanic sempre foi motivo de especulação; a partir de 1985 tornou-se a grande atração na literatura, filmes, pesquisas e fofocas. Naquele ano, Robert Ballard, oficial da marinha mercante americana, professor de oceanografia conhecido e respeitado pelos trabalhos em arqueologia submarina e em naufrágios, descobriu os destroços, depois de varrer com a equipe e o robô Argo centenas de quilômetros no fundo do mar.

Ballard tentou, inicialmente, manter em segredo o exato lugar do naufrágio e impedir a invasão daquele “sagrado cemitério”. Relevante descoberta dessa expedição foi a confirmação de que o navio se partira em dois e a popa sofrera danos muito maiores. O competente oceanógrafo descreveu a primeira imagem da proa:

…rios gelados de ferrugem cobrem os lados do navio e se espalham no fundo do oceano.

Ballard retornou em 1986, desta vez com o submarino tripulado Alvin, para uma pesquisa detalhada do mais famoso naufrágio de todos os tempos. A curiosidade, para o bem ou para o mal, trouxe à tona os mistérios, as histórias e os mitos.

A partir de 1986 a RMS Titanic Inc. dedicou-se a preservar o legado do navio; em sucessivas expedições foram resgatados 5500 artefatos. Com este magnífico acervo, complementados por filmes, fotos e testemunhos vários, a empresa recriou espetacularmente toda a atmosfera do Titanic em exposição por todo mundo.

Não escapamos ao fascínio e já corremos atrás do Titanic: assistimos o documentário de Ballard nos Estados Unidos; visitamos em Halifax, Canadá, o belo cemitério onde estão centenas de vítimas; a gente pôde se arrepiar ao tocar em um enorme iceberg de verdade na primeira exposição da RMS Titanic em San Francisco. Em Denver, Colorado, envolvemo-nos emocionalmente com Molly Brown, famosa sobrevivente do Titanic. Na Irlanda, estivemos em Cobh, último porto de onde partiu o Titanic, hoje museu da emigração.

Titanic/Belfast - Copyright©2013 Rainer BrockerhoffAgora, em Belfast, completamos a peregrinação ao visitar o maior museu do mundo sobre o Titanic. A grandiosidade, o avanço tecnológico, os detalhes, enfim toda a Mostra é comparável à construção do próprio navio. Resumindo:

uma ida a Belfast apenas (!) para reviver todas as emoções daquela viagem e voltar no dia seguinte é altamente compensadora.

Atlético e companhia aérea no Marrocos

Parece conexão esdrúxula? Nem tanto.

A multidão atleticana voando para o Marrocos, certamente pela Royal Air Maroc, poderá ter sérios problemas com a desorganização da companhia, como se pode constatar pelas inúmeras queixas no Skytrax. Ontem recebemos pedido de ajuda de passageira cuja mala extraviou-se. O sumiço de bagagem é constante, comum, e insolúvel.

Entre outros problemas, malas de passageiros de origens diversas desaparecem sem deixar vestígios e, na Royal Air Maroc, as queixas, os problemas daí decorrentes, as causas do sumiço, o “destino” (?) das bagagens também tornam-se invisíveis, irrespondíveis, intocáveis, misteriosos e sem vestígios…

As operadoras e agências de viagem sérias e a ABAV (Associação Brasileira de Agentes de Viagem) têm a obrigação de alertar os consumidores da gravidade do problema, já público e notório, na Royal Air Maroc. As seguradoras de viagem sérias também deveriam fazer o alerta.

No caso presente, a seguradora está seguindo o trâmite legal dos prazos e tenta a recuperação da bagagem tão somente na própria companhia aérea.

Claro, extravio de bagagens acontece. Mas aos precedentes, à frequência, ao descaso, à omissão contínua, já não se pode mais chamar de extravio ou perda fortuita. Há outro nome para isso…