A Confissão de Guimarães Rosa

A genialidade de Rosa dispensa qualquer superlativo. Na centésima leitura ainda há segredos, mistérios e achados.

Em “Jardins e Riachinhos” (1983), Guimarães Rosa faz uma confissão preciosa. É de uma clarividência doída, é um grito de alerta:

Não gosto de falar da infância. É um tempo de coisas boas, mas com pessoas grandes incomodando a gente, intervindo, estragando os prazeres. Recordando o tempo de criança, vejo por lá um excesso de adultos, todos eles, mesmo os mais queridos, ao modo de soldados e policiais do invasor, em pátria ocupada. Fui rancoroso e revolucionário permanente, então. Já era míope e nem mesmo eu, ninguém sabia disso. Gostava de estudar sozinho e de brincar de geografia. Mas tempo bom de verdade, só começou com a conquista de algum isolamento, com a segurança de poder fechar-me num quarto e trancar a porta.

De Papel Passado

Somos donos dos dias
cheios de carícias.

Somos donos da noite
embalada pela chuva.

Somos donos da magia
ímpar do presente.

Somos donos de um mundo
cercado de hortelã.

Somos donos do amanhecer
de mãos entrelaçadas.

Somos donos da química
irresistível do corpo.

Somos donos da morte
do riso e do amor!

Copyright©2013 Maria Brockerhoff

Trovas

Coração que bate-bate…
Antes deixes de bater!
Só num relógio é que as horas
Vão passando sem sofrer.

(Fernando Pessoa)

O amor perturbou-me tanto,
que este combate deploro:
querendo chorar, eu canto;
querendo cantar, eu choro!

(Osório Duque Estrada)

Seja na paz ou na guerra,
quer na alegria ou na dor,
o maior poder na terra
tem quatro letras:Amor!

(Américo Paz)

mais trovas aqui!

Manifestações e Protestos…

…uau! …estivemos lá!

protestoIr já pra rua
sair do mundo da lua
acompanhar a multidão
de um em um
se faz o povão

Os rostos sorridentes
os olhos brilhantes
nada mais
será como antes

Conhecemos os antecedentes
o governo é uma anta
aperta nossa garganta
massacra como jamanta

O povo é sábio na avenida
é alegre gentil tem vida
vamos todos
à “luta renhida”

Ficar no sofá
só no celular
nada vai mudar!

Copyright ©2013 Maria Brockerhoff

Autoestima — Poema Urbano

Uma árvore delicada
quase frágil
presa à calçada
se cobre de pendões
amarelos…
iluminam a avenida
cheia de ruídos
e gente distraída
se enfeita
ignora a desfeita
dos desiludidos.

Os galhos floridos
sob a chuva
ou sol matutino
estão plenos abertos
prontos e certos…

Admirável
esse destino!

À recém-formada paisagista Sonia, esta floração!

Copyright ©2013 Maria Brockerhoff

Aparência

Para alguém…

Corres saltitante
para o abismo!
Buscas gente brilhante
só em coluna social.
Gastas dias preciosos
atrás dos poderosos
vazios, tristes, pobres
de prazer e de ternura.
Desperdiças a esmo
tempo, suor, doçura
fugindo de ti mesmo.
Trocas as tuas origens
a emoção mais pura
por luzes e miragens.
Segues a via da loucura!

                 

Além desta carta
Posso ser, apenas, espectador…

Copyright ©2013 Maria Brockerhoff

Desventura

Encostado num canto
o barco foi entretanto
belo, forte, altaneiro!
Sumiu a boa sorte
hoje virou canteiro.
É o retrato, talvez
de quem perdeu a vez.
Desistiu. Nem partiu…

Copyright ©2013 Maria Brockerhoff

Raimundo Correia

MAL SECRETO

Se a cólera que espuma, a dor que mora
N’alma, e destrói cada ilusão que nasce,
Tudo o que punge, tudo o que devora
O coração, no rosto se estampasse;

Se se pudesse, o espírito que chora,
Ver através da máscara da face,
Quanta gente, talvez, que inveja agora
Nos causa, então piedade nos causasse!

Quanta gente que ri, talvez, consigo
Guarda um atroz, recôndito inimigo,
Como invisível chaga cancerosa!

Quanta gente que ri, talvez existe,
Cuja ventura única consiste
Em parecer aos outros venturosa!

O poeta é exímio conhecedor das emoções, buscando bem no fundo a verdadeira essência humana. “Mal Secreto” vale um mundo de psicanálise! Raimundo Correia, de família de classe média alta, nasceu a bordo do navio “São Luis” em águas maranhenses e por isso dizia: “sou um homem sem pátria, nasci no oceano”. Daí, com certeza, a universalidade da sua poesia.