
Hoje é domingo
pede cachimbo
disse o poeta
Aqui no limbo
nem um pingo
de sorte no bingo
Copyright©2026 Maria Brockerhoff

Hoje é domingo
pede cachimbo
disse o poeta
Aqui no limbo
nem um pingo
de sorte no bingo
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para Vanessa M.… já descobrindo aonde não ir…

José Régio, in ‘Poemas de Deus e do Diabo’ — 1925
“Vem por aqui” — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: “vem por aqui!”
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali…
A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos…
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: “vem por aqui!”?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí…
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?…
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos…
Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios…
Eu tenho a minha Loucura!
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios…
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: “vem por aqui”!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou…
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
— Sei que não vou por aí!
…haicai de mineiro, uai!
agressão a gays…
pura inveja no peito
rapaz, que despeito!
Copyright©2025 Maria Brockerhoff


De mansinho
abril
o amor surgiu…
ninguém viu?
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Assim como as páginas
de um livro
o tempo nos aguarda
cheio de mistérios
As páginas do tempo disponíveis
para os desejos
à espera de impulsos da vontade
da ousadia de transformar
da capacidade de ultrapassar
Estas páginas
assim como todos os dias
serão preenchidos com
seiva suor lágrimas
Cada um de nós usará
a tinta das veias
para colorir umas e outros

…vai fundo
o significado da despedida
não mais volta
nem ida
ao por do sol.
Delineia-se altivo
o definitivo
o fim da linha
Copyright©2024 Maria Brockerhoff
O vento vira tudo
é o primeiro sinal
do redemoinho.Cai água pesada
ousada
em fios grossos limpos
entupindo a razão
a boca — e terra — de lobos.Um mar
fora de lugar.
A corrente luta
perde a disputa
para os restos
humanos nas ruas.Todos os anos
a selva urbana é surda
tirana
a cada verão
enchentes
pânico
perdas.Longe bem longe
a chuva é um presente
brinca em rodopios
enche cisternas
alimenta os rios
dá frescor à terra ardente
deixa o outono lavado
dentro e fora da gente.Fica o terreiro inchado
ansioso
por nova semeadura…
Copyright©Maria Brockerhoff


A primavera traz
a voz de Olavo Bilac:
A alma da terra gorjeava e ria
Nascia a primavera… E eu te levava,
Primavera de carne, pelo braço.