África do Sul – KwaZulu-Natal e Durban

Hluhluwe River Lodge — o primeiro nome, em Zulu, impronunciável — é um hotel muito confortável numa reserva florestal. As mesas no restaurante estão sob as estrelas com vista para o Lago Sta. Lúcia, habitat de hipopótamos e crocodilos. Os chalés com varandas, espalhados pela mata, são muito espaçosos, com camas enormes cobertas com cortinados e agradável silêncio.

A comida é da melhor qualidade. Aliás, a grande variedade, o sabor delicioso da comida são pontos altos em todos os lugares da África do Sul.

A província de KwaZulu-Natal, que une o reino Zulu à antiga província de Natal, está na costa oeste da África do Sul. Limita-se com Cabo Leste ao sul e Moçambique ao norte. O belíssimo litoral, banhado pelo cálido Oceano Índico, é recortado por montanhas, cachoeiras, lagos. Plantações de milho, bananas, abacates, cactos, laranjas, lúpulo, amêndoas e cana de açúcar perdem-se de vista num mar verde ondulante.

A travessia do Lago Sta. Lúcia, em iSimangaliso, nos oferece uma excepcional biodiversidade. Às margens, um enorme bando de pássaros amarelos trabalha febrilmente na engenhosa construção dos ninhos: dois caniços são unidos com uma espécie de palha, da própria planta, trançada em forma redonda com a “porta” virada para baixo, protegida das intempéries. Quanto mais se contemplava os belos pássaros, mais incrível e mágica se tornava aquela inimitável arte. Estes ninhos são para a temporada de verão!

Retomamos a rodovia para Durban. São 330 km banhados pelo Índico azul e brincalhão. As cidadinhas são bem arrumadas e limpas. As frutas tropicais são de um colorido bem forte e dulcíssimas.

O nome “Rio de Natal” foi dado à cidade pelos portugueses; em 1835 passou a ser Durban — Benjamin d’Urban era o governador na época. É uma cidade cosmopolita; o centro histórico conserva a rica herança cultural de diferentes povos e etnias. O estilão dos prédios lembra o de Dublin. A presença indiana é grande; Mahatma Gandhi viveu em Durban por 21 anos e foi lá que formou sua filosofia de resistência pacífica pelos direitos humanos. A África do Sul é aberta a todas as religiões e cultos, que parecem conviver bem. Templos hindus, mesquitas, igrejas e sinagogas enfeitam Durban.

Pululam campos de golfe a cada curva e em junho/julho acontece a famosa migração de bilhões de sardinhas caçadas por tubarões, golfinhos e pássaros. Os esportes aquáticos, maratonas e corridas de bicicleta são constantes, com participação bem grande de toda a gente. As praias de Durban são tão bonitas quanto as nossas.

A nota infeliz de Durban são os bairros pobres ao sul, onde as casas se espremem entre fábricas e refinarias poluentes, sem qualquer filtro ou outra medida protetiva. Aqui, também, a ânsia do lucro e a omissão governamental sacrificam o povo.

No bairro do nosso hotel, muitos bares bem ao estilo dos “butecos” de Belo Horizonte, cheios de gente bonita e alegre, onde vimos raros brancos. A diferença é que o movimento começa e termina bem mais cedo. As árvores são enormes, antigas e imponentes e os jardins bem cuidados.

O Moses Mabhida Stadium, construído para a Copa de 2010, é moderno, funciona para muitas outras atividades e um bondinho leva turistas para o alto, de onde se tem uma vista panorâmica da cidade e do Oceano Índico. Uma maneira inteligente de gerar renda, pois é um passeio muito procurado por nativos e turistas.

Na Escola

Desde fedelho
falam pra gente
ser muito feio
meter o bedelho
no muro alheio.
Errada a lição…
bom é no recreio
furtar um beijo
roubar coração!

Copyright©2014 Maria Brockerhoff

África do Sul – Joanesburgo, Sabie

O aeroporto tem uma longa passadeira com as efusivas cores da bandeira sul-africana. É um toque bem especial. Um elefante de vidrilhos, em tamanho natural, sinaliza a beleza selvagem desta terra.

Nas imediações do aeroporto, o cassino “Las Vegas of Africa”, majestoso, enorme, justifica o nome. Há muitos outros na rodovia para Sabie, para onde fomos, fugindo da cidade grande. A rodovia privatizada é excelente, com farta sinalização e quatro pistas. Os pedágios são constantes.

Depois de quase 400km, com boas paradas, chegamos a Sabie, a nordeste de Joanesburgo. O Hotel Böhm’s Zeederberg, com 10 confortáveis chalés está em meio a um jardim luxuriante e 360 graus de verde repousante.

O Kruger National Park — uma das entradas é por Sabie — com quase 20 mil quilômetros quadrados, era o habitat original dos animais e foi transformado em reserva muito bem organizada. É um santuário cheio de pássaros onde as girafas são muito elegantes e as zebras tem uma pelagem de seda. Elefantes, leões, búfalos, javalis nem dão confiança para os turistas. Os macacos gibões, numa grande árvore, brincavam, se coçavam e catavam o pêlo uns dos outros, carinhosamente. Um bom exemplo para os humanos! 🙂

As manadas de antílopes impalas são um encanto! São capazes de saltar, com aquelas pernas-palito, 10m de distância e até 3m de altura. Aterrissam seguramente nas patas dianteiras por meio de uma conformação especial de ombros, sem clavículas! São tão adaptados ao ambiente que não sofreram modificação nos últimos 30 milhões de anos. Os jardins zoológicos são prisões e, por isto, nem deveriam existir. Já as reservas podem ser úteis à conservação e estudo das espécies.

Infelizmente, mesmo com modernas precauções, ainda há caça ilegal e matança de rinocerontes. Os criminosos entram pela fronteira de Moçambique e, só no ano passado, abateram quase 1000; os consumidores ávidos por supostos afrodisíacos (!) preparados com chifres e ossos são, principalmente, asiáticos. No Kruger Park constata-se o nível avançado dos animais ditos irracionais; com tal matança, instala-se a certeza da inferioridade dos arrogantes humanos…

As outras atrações de Sabie são a “God’s Window“: um paredão gigantesco, mais de 1000m de precipício, de onde se estendem as matas, as montanhas até o infinito. É mesmo a janela do paraíso; outra é o surpreendente Blyde River Canyon, uma profunda formação de cavernas, panelões, alisadas e formadas pelo rio Blyde e suas cachoeiras. Este canyon é magnífico!

África do Sul – KwaZulu-Natal

De volta à África do Sul. Agora na terra dos Zulus, uma importante e tradicional etnia africana. Natal é o antigo nome de Durban, a grande cidade da região.

A língua dos Zulus é sonora, com sílabas sibilantes, com cliques adotados da musicalidade nativa dos bosquímanos (Khoisan) e, claro, impronunciável para a maioria de nós. Os Zulus ainda são polígamos. Lobola/Lobolo, o equivalente ao dote, não é, em absoluto, pagamento pela noiva. É uma cerimônia complexa, significativa, com a participação das famílias; dura muitos dias, com danças e boa comida. Lobola é um tipo de indenização à familia da noiva, que perde um bom par de braços. Pode ser parte da colheita ou do gado, ou presentes para a família.

Muito interessante e nos faz pensar sobre as profundas diferenças culturais foi a questão de um Zulu para a nossa guia alemã; um carinha, intrigadíssimo, quis confirmar os rumores de que os alemães tinham apenas uma esposa. Ao ouvir a resposta afirmativa, o Zulu, com uma expressão de incredulidade e desapontamento:
                          “Ah, coitados! Deve ser muito triste a vida deles…”
Outro motivo de sério estranhamento foi quando percebeu a presença de solteiros e casais sem filhos nem parentes:
                          “Vocês viajam e deixam todos os outros em casa?!”

Visitamos Pongola, um vilarejo onde a agência de viagem Studiosus mantém uma excelente escola primária. A escola Sakhumuzi, com 500 alunos, inteiramente gratuita, tem laboratório de química, informática e todo o material escolar. Recentemente a fundação Studiosus construiu mais duas confortáveis salas de aula. Os alunos aprendem inglês, zulu e africâner — três das 11 línguas oficiais da África do Sul. É um trabalho magnífico. A diretora idealista, muito alegre, é uma visionária e os demais professores parecem gostar muito de ensinar ali. As famílias tornaram-se maiores depois da implantação de um tipo de bolsa-família pelo presidente Zuma, cuja carreira e métodos políticos populistas são bem parecidos com os de Lula.

As crianças, de idades variadas, apresentaram um espetáculo muito agradável, bonito, de danças e cantos. A visita a essa escola nos trouxe uma boa dose de otimismo.

O almoço na Casa Mia, um pequeno hotel cuja proprietária é do conselho da escola, foi delicioso, com serviço excelente. A simpática cozinheira veio ensinar a receita do gostoso bolinho de moranga com canela.

Suazilândia

Suazilândia — Swaziland — é um país de etnia Swazi, limita-se com a África do Sul e Moçambique. É uma monarquia absolutista, cujo rei, de 46 anos, tem 15 mulheres e muitas mordomias! E, claro, o povo é muito pobre, o índice de infectados-HIV é o mais alto do continente. Cruzamos com bando de crianças perambulando pela estrada.

A Suazilândia mantém uma reserva de rinocerontes reintroduzidos no país, onde já se extinguiram pela caça ilegal. Há outros animais selvagens e os safaris são fontes de divisa. Causam mal estar as cercas elétricas, em certos pontos, dividindo o espaço dos elefantes.

A estrutura dos parques da África do Sul é incomparavelmente superior; aliás, é gritante a diferença cultural, econômica e de educação entre os dois países. A África do Sul é muito desenvolvida, invejavelmente limpa e aproveitou bem os pontos positivos da colonização. Na Suazilândia, os governantes nativos espoliam o próprio povo, reduzindo-o a uma etnia miserável.

P1080948Há umas árvores bem altas e dezenas de ninhos dependurados; é surpreendente observar a movimentação dos pássaros-tecelões na construção elaborada das suas “casinhas”, numa coreografia maravilhosa.

P1080967Uma outra atração é um hotel no meio da Mkhaya Game Reserve. Os chalés de pedra têm por divisórias apenas cortinados; há ducha com água quente a gás e banheiro completo. A cobertura é um cone muito alto de sapé, aparado milimetricamente e muito bem feito. Não há energia elétrica e o céu estrelado é inesquecível.
O jantar — carne de antílope — ao ar livre, com uma fogueira no centro, é muito bom. Com a sobremesa vêm as danças e músicas étnicas. O pessoal é atencioso, o serviço de primeira, inclusive com toalhinhas úmidas para as mãos.

Acorda-se com uma xícara de café, ainda na cama, para a saída do safari. É uma palavra suaíli, o idioma bantu mais falado na África, significa “viagem”.

Saímos sob “os dedos róseos da alvorada“, na poética descrição de Homero na Ilíada. perfeitamente aplicada aqui.

Os rinocerontes… bem… resolveram não comparecer ao encontro… 🙂 uns dois lá longe… só com binóculo!

Uma colher de chá na insônia

As ervas são um mundo mágico, saboroso e medicinal. Abrangem plantas, flores, folhas, frutos, raízes, cascas e sementes. Desde sempre, as ervas acompanharam o homem nas alegrias, na morte, na saúde e na doença.

As receitas preciosas de chás, tisanas ou unguentos sempre foram segredos dos sábios, feiticeiras, monges e herbalistas conceituados.

Os jardins de ervas eram uma farmacopéia com alecrins cheirosos, rosas inigualáveis, açafrão, aniz, tomilho, e muitas outras preferidas de reis, rainhas e de estudiosos como Galeno e Dioscórides. Estes herbalistas, no auge do império romano, estudaram centenas de plantas e seus princípios ativos.

Na Índia, as ervas eram consideradas “filhas diletas dos deuses, só podiam ser colhidas por pessoas puras e piedosas e deviam crescer longe da vista humana e do pecado”, in “As Ervas do Sítio”, Rosy L. Bornhausen, 5ª Edição.

É importante lembrar que os efeitos de todas as ervas dependem da boa qualidade do cultivo, armazenamento e validade.

Com estes nobres precedentes fica explicada a aura especial dos chás.
Os momentos de intimidade, a pausa silenciosa, a sensação de bem-estar e boa prosa presentes no ritual do chá podem apresentar “subprodutos” valiosos.
Um dia produtivo e uma postura positiva diante da vida regados regularmente com chás aromáticos podem gerar a “serragem” de uma noite boa.

Vale experimentar diariamente e, muito melhor, em boa companhia:

  • a versátil e cheirosa camomila — anthemis nobilis ou matricaria chamomilla — é o calmante imbatível na “receita da vovó” e a princesa de todas ervas;

 

  • tília — tilia platyphyllus — é uma árvore belíssima, muito resistente à poluição. As flores, ricas em néctar, são usadas em infusões calmantes;

 

  • lúpulo — humulus lupulus — é uma planta riquíssima! É usada na fabricação de cervejas e lhes dá o inconfundível sabor amargo. É o tempero da cerveja.
    Entre outras propriedades, é antibacteriana. Os cervejeiros costumam aconselhar uma cervejinha quando se tem dúvida da procedência da água ou do gelo. É valioso sedativo, aliviando a ansiedade e a insônia.

 

Urtiga: o Outro Lado da Folha

É sinônimo de queimação; da pobre urtiga (Urtica dioica) brotam os dolorosos derivados urticar, urticação, pois contém ácido fórmico e suas enzimas são parecidas com o veneno de cobra… mas é rica em vitamina C, ferro e magnésio; é diurética e antidiarréica, cura as infecções da boca e as aftas. Além de bonita, a urtiga é boa companheira para outras plantas, protegendo-as de predadores e atraindo insetos úteis.

Claro, as suas folhas devem ser manipulados com cuidado, pois podem irritar severamente a pele. Contudo, seu valor nutritivo equivale ao do espinafre e uma sopa de urtigas com batatas enriquece qualquer refeição.

A urtiga é uma erva ótima para a pele e os cabelos, combatendo eficazmente a caspa; um chá bem forte na água do banho deixa a pele macia e estimula a circulação. A máscara de urtiga rejunevesce e clareia a pele. Extratos podem ser usados para tratar artrite e anemia.

Curiosamente, algumas tribos usavam a planta como anestésico antes de cirurgias ou para aliviar a dor. Na Escandinávia, serve para fazer linha; na Sibéria, para papel e óleo. No Nepal e no norte da Índia é muito popular na cozinha combinada com temperos indianos. Na Europa, o extrato de urtiga é um ingrediente em vários doces, xaropes e licores.

No mundo mágico, as folhas atiradas ao fogo afastam os perigos e são poderosas como amuleto. Uma crença muito antiga diz que um ramo de urtiga debaixo da cama faz com que o paciente se recupere mais depressa.

Também as plantas nos ensinam: quem só enxerga espinhos não aproveita do coração!

Fontes: “As Plantas do Sítio” de Rosy Bornhausen (1995), Словари и энциклопедии на Академике (foto), Encyclopedia of Organic Gardening (2005).