Engolir o sapo ou a justiça estrita do dente-por-dente? Nas irônicas circunstâncias desta história, o grande escritor russo Fiódor Dostoiévski (1821-1881), em O Idiota, aponta a saída…
…estou sòzinho no vagão. Fumar não é proibido mas também não é permitido; ou seja, é semipermitido, como de costume; e isso dependendo da pessoa. A janela está aberta. De repente, instalam-se duas damas com um totó, bem à minha frente; chegaram atrasadas; uma estava vestida de forma mais elegante, de azul claro; a outra, mais simples. Eu sou bem apessoado, elas olham com desdém, falam inglês. Eu, é claro, não ligo; continuo fumando para fora da janela. O totó está no colo da senhora de azul claro, é pequeno, cabe na minha mão, preto, patinhas brancas, até uma raridade. Coleira de prata com uns dizeres. Eu não ligo. Observo apenas que as damas, parece, estão zangadas com o charuto, é claro. Uma aponta para mim o lornhão, de osso de tartaruga. Não falam nada mesmo! Se avisassem, se pedissem, porque para isso existe finalmente a linguagem humana! No entanto, se calam […] Sem o mais mínimo aviso, todavia como se tivesse ficado totalmente louca, a de azul claro me arranca da mão o charuto e o joga pela janela. O trem voa, fico olhando como um louco. Uma mulher selvagem; selvagem mulher, os olhos brilham na minha direção, e eu, sem dizer palavra e com uma gentileza incomum, com a mais perfeita gentileza, gentileza refinada, por assim dizer, aproximo dois dedos do totó, pego-o delicadamente pela nuca e o arremesso janela afora atrás do charuto! Ele dá apenas um ganido! O trem continua voando…
O arquipélago abrange duas ilhas principais e mais de setecentas menores. Port Stanley, uma vila de pescadores, é a capital espraiada em baías e pequenas elevações sob um verão azul brilhante…
…este céu é enganador! O clima é hostil, esparsas chuvas ao longo do ano, temperaturas podem cair abaixo de zero, ventos fustigam continuamente, moldando as poucas árvores da região.
Por mais de 150 anos os ilhotas viveram praticamente incógnitos, criando carneiros e servindo navios. Hoje a população é de, aproximadamente, 3 mil pessoas, a maioria vivendo em Port Stanley.
As versões sobre o domínio destas ilhas geram controvérsias e dividem as pessoas; contudo, há de pesar nesta balança a ambição colonialista do império britânico, usurpando, a qualquer preço, povos, terras, culturas, crenças, recursos em todos os tempos e lugares.
O cemitério argentino em Darwin é uma homenagem a “Los Caídos” em 1982, na disputa entre Argentina e Inglaterra, e reforça o fato — aceito como indiscutível — de ter sido arrematada insensatez a decisão do governo militar argentino de atacar as ilhas, infelizmente apoiado pela grande maioria dos argentinos. Mais uma vez ficou demonstrada a incapacidade humana de usar a Razão. Jorge Luis Borges teria resumido, magistralmente, a questão das Malvinas ou Falklands:
é a disputa de dois homens calvos por um pente.
Os telhados coloridos de Port Stanley dão um toque criativo neste paraíso de raras espécies de pássaros, onde existe um ecossistema com uma espantosa variedade de espécies subantárticas: pinguins, elefantes, lobos e leões marinhos.
Esta, sim, foram doze dias e doze noites nos montes da galiza, com frio, e chuva, e gelo, e lama, e pedras como navalhas, e mato como unhas, e breves intervalos de descanso, e mais combates e investidas, e uivos, e mugidos, a história de uma vaca que se perdeu nos campos com a sua cria de leite, e se viu rodeada de lobos durante doze dias e doze noites, e foi obrigada a defender-se e a defender o filho, uma longuíssima batalha a agonia de viver no limiar da morte, um círculo de dentes, de goelas abertas, as arremetidas bruscas, as cornadas que não podiam falhar, de ter de lutar por si mesma e por um animalzinho que ainda não se podia valer, e também aqueles momentos em que o vitelo procurava as tetas da mãe, e sugava lentamente, enquanto os lobos se aproximavam, de espinhaço raso e orelhas aguçadas. {…} Ao fim dos doze dias a vaca foi encontrada e salva, mais o vitelo, e foram levados em triunfo para a aldeia, porém o conto não vai acabar aqui, continuou por mais dois dias, ao fim dos quais, porque se tinha tornado brava, porque aprendera a defender-se, porque ninguém podia já dominá-la ou sequer aproximar-se dela, a vaca foi morta, mataram-na, não os lobos que em doze dias vencera, mas os mesmos homens que a haviam salvo, talvez o próprio dono, incapaz de compreender que, tendo aprendido a lutar, aquele antes conformado e pacífico animal não poderia parar nunca mais.
…está, ipsis litteris, no livro de José Saramago, “A viagem do Elefante”; de uma profundidade infinita, simboliza a vida de mulheres e homens corajosos — e a reação do outro…
…é coberto por dunas de neve! A Antártida é considerada um grande deserto polar pelo índice mínimo de precipitação, além de ser o continente mais frio e mais seco. Aqui já se registraram ventos de até 320 km/h e a temperatura mais baixa da terra: –89,2°.
Sob o manto de gelo a vida é muito rica. A fauna cobre quase toda a cadeia alimentar; baleias, focas, lulas se alimentam de krill — pequenos crustáceos bem saborosos, também consumidos por russos e japoneses. As aves mais comuns são os pinguins, albatrozes e petréis; algumas espécies fazem seus ninhos em terra firme e migram, no inverno, para regiões mais quentes. O pinguim-imperador e o pinguim-de-adélia permanecem no continente. Os ventos fortes impedem o crescimento de vegetais, por isto florescem, no verão, os líquens, algas, fungos, briófitas.
A Antártida é considerada politicamente neutra. O Tratado da Antártida de 1959 transformou-a numa área de preservação científica, com proteção ambiental, proibição de exercícios militares e liberdade de investigação científica; há 29 países com bases científicas na Antártida. Aqui uma delas:
O continente tem 32 aeroportos, nenhum aberto ao público, pois estão sujeitos a severas limitações por causa das condições climáticas e geográficas. Daí o acesso, apenas, por navios.
Uma imensidão gelada recortada por rochas vulcânicas. A navegação através de canais estreitos e baías é em câmara lenta. Aqui, os icebergs, as montanhas brancas, os pássaros, as orcas quase ao alcance da mão.
O MS Zaandam contorna as ilhas, gira 360°, pára diante das rochas e glaciares, às vezes navega em marcha-a-ré; assim aproveitamos intensamente sem descer à “terra”. É uma medida protetora do meio ambiente. Hordas de turistas teriam devastadoras consequências.
Além das águas do difamado Paso Drake, a sala de espera da Antártida! O recepcionista é este primeiro iceberg. Esta escultura traz uma beleza tão grande quanto o incomum silêncio envolvendo tudo e todos nós.
Distanciando-se do Cabo Hornos entramos na Passagem Drake; neste dia, para nossa sorte, muito calma! Foi descoberta por Francis Drake em 1578. O corsário, condecorado pelo governo inglês por suas duvidosas conquistas, foi arrastado por um forte vendaval até o fim da Terra do Fogo, encontrando-se em pleno mar aberto.
Francis Drake chegou às águas tormentosas onde os gigantes Atlântico e Pacífico se fundem. Modificou-se, então, toda a geografia da terra, pois supunha-se a América unida à Terra Australis/Antártida. Depois da descoberta dessa nova passagem a navegação por aqui aumentou consideravelmente, apesar das trágicas estatísticas. Drake fez a segunda circumnavegação da Terra. Contudo, sua memória é manchada de sangue pelo assassinato de nativos na Patagônia, saques em Valparaíso, tráfico de escravos e especiarias, a captura de navios. O destino reserva a cada um a morte que merece: o pirata morreu de disenteria em Portobelo, Panamá.
• Oceano Pacífico: é o primeiro em extensão e profundidade, cobre um terço da superfície do planeta.
No entorno do Pacífico, as cadeias de montanhas são de intensa atividade vulcânica. Foi batizado por Hernando de Magallanes pela ilusão de ser mais calmo do que o bravo Atlântico.
• Oceano Atlântico: vem de Atlas (Άτλας) — filho de Netuno — na mitologia grega, aquele que sustenta o mundo nos ombros. Os gregos acreditavam ser o Atlântico um grande rio em torno da Terra. Chamavam-no Mar Tenebroso. Curioso o relevo no fundo deste oceano: uma extensa cadeia de montanhas de norte a sul, com altura de 3 mil metros, a Dorsal Mesoatlântica.
Os oceanos são de inestimável biodiversidade. Destoantes da riqueza destes mares são as manchas de 100 milhões de toneladas de lixo flutuantes. Charles Moore, em 1999, as descobriu por acaso, quando voltava de uma competição no Havaí. Estas ilhas de lixo se transformam em uma sopa tóxica levando peixes e aves à morte.
As perspectivas não são animadoras. Além do Pacífico norte, há grandes aglomerados de lixo a leste das Bahamas, leste do Rio de Janeiro, Madagascar e no Pacífico sul, entre outros. O biólogo Alexander Turra, da USP, qualificou de “moribundo” o estado dos oceanos.
Lixo no Pacífico – autor desconhecido, 2008
Resíduos de todos os tipos são provenientes dos esgotos urbanos, de rios poluídos por fertilizantes, das plataforma de petróleo, das embarcações e dos descartes dos insensatos moradores desta Terra.
Pesquisadores australianos estudam este processo de acumulação de lixo e o rastreamento de suas origens. O biólogico Erik van Sebille afirma: “é impossível limpar o oceano, o lixo permanecerá lá. É necessário, porém, identificar sua origem, para que os responsáveis possam criar estratégias para barrar a poluição.”
Ah! O continente antártico é uma riqueza inigualável. Ainda que pareça inverossímil, cada um de nós, indistintamente, é responsável pela conservação da vida neste misterioso reino gelado!
De Ushuaia navegamos, por vinte e quatro horas, numa imensidão de águas revoltas do Cabo Hornos e Paso Drake. As portas do silencioso Continente Antártico são o prêmio compensador.
Contornamos o Cabo Hornos/Cape Horn na ilha do mesmo nome. O único lugarejo é Puerto Williams com 1600 habitantes. Em formato de meia-lua a ilha é coberta, em sua maior parte, por líquens, musgos; daí o nome bosques em miniatura e a observação deste rico microcosmos ser com lupa. O Parque Nacional Hornos é um lugar privilegiado na Reserva Mundial de la Biosfera.
Aqui é abundante o arbusto Canelo ou Casca de Anta, cujas sementes atraem as aves austrais. Estas sementes devem ser saborosas, pois bandos de aves tropicais — fio-fio, Elaena Albiceps — viajam mais de 3500 km até Hornos para nidificar e encher o papo de Canelo.
As correntes fortes no Hornos, os açoites de vento, as ondas altíssimas justificam-lhe o apelido de Cementerio Marítimo. Contam-se 800 naves desaparecidas com tripulação de, pelo menos, 10 mil marinheiros! Pelas condições de chuva, neve, granizo também chamam-no Cabo de las Tempestades e Cabo Donde se Acaba el Mundo. Em determinados momentos, deu para avaliar, minimamente, a força destas águas: o vento de 90 km/h nos impediu de abrir a porta da cabine para a varanda!
Por essas e outras, escolhemos o grande navio MS Zaandam da Holland-America. É confortável, oferece concertos de piano e violino, música dançante, cassino, piscina, academia, pista de cooper, jogos de xadrez, bridge, além de fina gastronomia. A convidativa biblioteca tem mesas para quebra-cabeças coletivos que se tornaram um ponto de encontro nos finais de tarde. O lounge tem uma privilegiada vista panorâmica.
Tais navios são equipados com estabilizadores e, assim, pode-se minimizar a temida “gangorra” destas águas. Nos navios menores as histórias de seasickness/enjôos desta travessia não são animadoras. Numa viagem transoceânica, de Valparaíso à Austrália, a médica do navio, com bom humor, nos resumiu dois momentos deste incómodo:
inicialmente o passageiro pensa que vai morrer; depois, o pior: ele sabe que não vai morrer!
Com a abertura do Canal do Panamá em 1914, a navegação é praticamente de entretenimento e desportiva; são desafiadoras as competições entre solitários e experientes navegadores que se lançam numa tentativa de circumnavegar o globo terrestre. Para os aficcionados, contornar este cabo, onde Atlântico e Pacífico se encontram, equivale a atingir o cume do Everest.
Curiosa a aventura de um casal inglês em 1956; numa tentativa de contornar o Hornos do Pacífico para o Atlântico, o veleiro Tzu Hang naufragou. Não desistiram; no ano seguinte, lá vão eles! Novo naufrágio… mais uma vez, salvos miraculosamente. É… o Hornos não os quis lá!
Daqui saem os cruzeiros para a Antártida, os passeios pelas baías Ensenada, Lapataia, pelo Canal de Beagle, onde se pode navegar de catamarã e avistar os intrigantes cormoranes; também safaris e agradáveis trekkings por vales e florestas de Lengas — árvores cuja madeira é de muito boa qualidade. Ainda, Cerro Castor é considerado o melhor centro de esqui da América do Sul.
O clima hostil afastou os navegadores europeus até 1870, quando desembarcaram os missionários anglicanos vindos das Falklands/Malvinas. Em 1902 foi construída a colonia penal e nasce Ushuaia. Felizmente, o temido presídio desativado somente em 1947 é um museu com histórias de numerosos naufrágios…
…lojas e biblioteca. Há, inclusive, uma gravura de Robert F. Scott, explorador da Antártida e — grata surpresa! — exímio desenhista.
Um pavilhão não foi restaurado exatamente para uma pequena amostra da crueza, do frio e do cotidiano duríssimo. As penas eram por tempo indeterminado. De diferentes nacionalidades, os presos políticos, adolescentes e criminosos ditos irrecuperáveis. A média tinha de 30 a 35 anos. Carlos Gardel também teria se “hospedado” aqui. O destino dos fugitivos era igualmente perverso: voltavam à prisão fustigados pela fome e frio.
Os prisioneiros construíram a ferrovia do Tren del Fin del Mundo que, hoje, percorre o Parque Nacional da Terra do Fogo, bem devagar com paradas na cascatinha Macarena e outros interessantes pontos. Desta ferrovia, 7 km são ainda os mesmos da época da prisão.
O Lago Escondido, no Paso Garibaldi, se esconde mesmo entre as montanhas ponteagudas. Desponta, aqui, a Cordilheira dos Andes, este escudo majestoso que, num crescendum, vai até lá em cima, perto do mar das Antilhas.
Têm razão em orgulhar-se de Hernando de Magallanes, o trágico herói realizador da primeira circumnavegação da Terra. Dom Manuel, o pretensioso rei português, não reconheceu os excelentes serviços prestados anteriormente por Magalhães, nem lhe deu crédito quando apresentou o projeto da volta ao mundo pelo oeste. A humilhante rejeição levou Fernão de Magalhães à renúncia da cidadania portuguesa, à troca de nome e ao oferecimento dos serviços ao rei de Espanha, Carlos I, mais tarde coroado Carlos V, imperador alemão.
O intrépido navegante ao realizar “a maior proeza da história da exploração da Terra, a odisséia mais esplêndida na história da humanidade” (Stefan Zweigin “Magellan”, 1938) passou por aqui em 1520.
Em 1519 Magallanes lançou ao mar, em Sevilha, a frota de cinco navios. Após indizíveis sofrimentos, angústias, motins, a passagem do oeste para leste estava aberta e confirmada a inaceitável e absurda tese, desde Ptolomeu, da redondeza da Terra.
Até a abertura do Canal do Panamá em 1914, o Estreito era a rota principal entre o Atlântico e o Pacífico.
Com 570km de comprimento e apenas 2km de largura, o Estrecho de Magallanes é uma confusão de enseadas, complicados canais, baías, fiordes, os quais só se pode atravessar com muita sorte e máxima habilidade. As entradas são irregulares, bifurcam-se três ou quatro vezes à direita e à esquerda, sem contar os ventos adversos e redemoinhos repentinos.
A zona franca de Punta atrai muita gente compradeira. Daqui pode-se fazer os passeios pelas baías e canais azulados do Estreito de Magalhães, pelas reservas de pinguins, pelas haciendas típicas e alcançar as maravilhas de Torres del Paine.
Em Magdalena — a ilha com 120 mil pinguins e uma colônia de leões-marinhos — não há árvores, nem mesmo arbustos. Apenas tufos de grama. Os pinguins de rabo duro são encantadores, apesar do cheiro forte. São dóceis; apenas uns poucos se assustam com o movimento das pessoas. Fazem os ninhos como tatus; vimos alguns ninhos pisados por descuido de um ou outro turista, uma pena!
A beleza silenciosa da costa chilena é envolvente e especial para nosotros dos trópicos. A cada vez, esta natureza solitária e altiva nos mostra quão pequenos somos!
Voamos para Santiago do Chile e, por caminhos bem agradáveis, chegamos em Valparaíso, o ponto de partida de navegação de mais de 4000km até ao continente branco. A Cordilheira dos Andes nos recebe, assim, em Santiago.
Puerto Montt, colônia de alemães desde 1863, era considerado o fim de linha para qualquer viajante. Hoje é um importante centro pesqueiro; a região é cheia de lagos, rios e cascatas glaciares sob a imponência do vulcão Osorno. Perto daqui, as cidadinhas Frutillar e Puerto Varas cheias de rosas.
O Arquipélago Chiloé foi o maior centro de pesca de baleias no séc.XIX. No porto de Castro, fundado em 1567, uma belíssima igreja totalmente de madeira. No arquipélago catequizado pelos missionários espanhóis há mais de 150 igrejas católicas construídas pelos indígenas.
Puerto Chacabuco é o porto principal da Patagônia chilena; uma das poucas vilas nestes belíssimos fiordes. Aqui, a gente pode sentir o valor inestimável de florestas e vales silenciosos, onde o homem não conseguiu ainda devastar.
A partir daqui, Canal Darwin, o mundo já começa a se transformar em glaciares, em esculturas de rochas vulcânicas rodeadas de espertos pássaros pescadores.
A nossa próxima parada será Punta Arenas. Até lá navegamos nesta região austral por inúmeros canais —incluindo o estreito de Magalhães — e passagens impressionantes; aqui, o Paso Shoal.