Gabriel García Márquez — Doze Contos Peregrinos

Estes “Doze Contos Peregrinos” foram escritos ao longo de 18 anos e são recordações de viagens pela Europa. Eram 64 e sobraram este doze contos da “incessante peregrinação de ida e volta ao cesto de lixo“, como nos conta García Márquez; acrescenta, ainda, o curioso episódio:

já que eu havia descrito de memória e à distância as diferentes cidades da Europa onde os contos acontecem, quis comprovar a fidelidade de minhas recordações de quase vinte anos depois e empreendi uma rápida viagem de reconhecimento a Barcelona, Genebra, Roma e Paris. Nenhuma delas tinha nada a ver com as minhas lembranças.

Estes depurados contos são preciosos. Cada um, entremeado com o realismo mágico, nos transporta a um mundo interior de sentimentos doloridos, ternos, disfarçados.
O mundo surreal do mago de Aracataca, Colômbia, retrata o cotidiano de cada um de nós com uma força tão grande, a tal ponto de nos obrigar negá-lo por insuportável.
Gabo, como os amigos o chamavam, íntimo de todas as grandezas e de todas as misérias humanas, é filósofo, xamã, poeta, pajé, mestre, artífice da palavra.

Dos subtextos surgem setas indicando, para quem quiser ver, o caminho ou a busca interior, muitas vezes desesperada. Tais escritos valem séculos de psicanálise.

Um outro livro de García Márquez, “A Incrível e Triste História da Cândida Erêndira e sua Avó Desalmada“, aponta o norte na bússola desorientada da vida.

Canal de Suez — Uma Obra de Arte

Este mar brilhante, com vias de mão dupla, entre montanhas de areia e pedras, praias, ilhotas, oásis é uma miragem!

Canal de Suez – Copyright©2016 Rainer Brockerhoff

Esta escultura metálica é uma ponte giratória. Cada metade fica paralela às margens do canal. Para a passagem de trens as pontes giram para o centro. Parecem efeitos especiais ou ficção.

Ponte El-Ferdan, Canal de Suez – Copyright©2016 Rainer Brockerhoff

Esta ponte pivotante, com 340m, é a mais longa do mundo; une a cidade de Ismaília à Península do Sinai.

El Ferdan Swing Bridge – Copyright©H Nawara – Public Domain

O Canal de Suez, de incalculável valor estratégico, resultou em 11 mil km de atalho entre Europa e Ásia, pois evita o contorno da África pelo Cabo da Boa Esperança.

A travessia do canal leva de 11 a 16 horas. Os navios marcam com antecedência o horário rigoroso de entrada. Qualquer atraso gera grandes prejuízos, pois não há a menor possibilidade de “furar” a fila de dezenas de navios de turismo ou de carga.

Canal de Suez – Copyright©2016 Rainer Brockerhoff

O canal alimenta os lagos naturais de água doce — Grande Amargo, Timsah e Mamzala, considerados sagrados — compensando a evaporação; por sua vez, os lagos equilibram a vazão das águas do mar. Não existem eclusas. Esta passagem também proporciona uma grande migração de espécies marinhas, enriquecendo a fauna. É uma inteligente troca ecológica.

A cidade de Suez, ponto final da travessia, enfrenta hoje desemprego e atraso econômico. A recente e ambiciosa duplicação do canal – 2015 – pode representar desenvolvimento para a região. Na Suez antiga a água doce chegava no lombo dos camelos. Aqui, inicia-se a peregrinação dos muçulmanos para Meca.

Suez, Egito – Copyright©2016 Rainer Brockerhoff

Suez — o final da travessia.
À vista a imensidão do Mar Vermelho. Vejo neste instante que este lugar caiu do céu: nem imaginava a grandeza deste canal mágico. Isto porque, ao programar um roteiro, não há busca por fotos ou outras imagens.
A surpresa — uma sensação inigualável — é a essência da viagem. Experimente!

Canal de Suez — o Mar Feito à Mão

O sonho dos faraós — desde 640 a.C. — de navegar pelo deserto, unindo o Mediterrâneo ao Mar Vermelho, tornou-se um triunfo da engenharia em 1869.

Alexandria, Egito – Copyright©2016 Rainer Brockerhoff

De Alexandria — Egito — contornamos o delta do Nilo até Port Said, onde começa o Canal de Suez, hoje com 195 km. É a rota mais curta entre o ocidente e o oriente. Esta via marítima situa-se na região montanhosa e desértica da Península Sinai, entre Egito e Israel. Aí, o pico de granito do Monte Sinai sagrado para o Cristianismo, Islamismo e Judaísmo.

Copyright© Marine-Knowledge

A construção do Canal de Suez, durante dez anos, é uma odisséia magnífica e trágica. Vinte mil trabalhadores escravos eram substituídos a cada dez meses, tal a dificuldade em escavar à mão as pedras e remover as areias do deserto. Sequer havia carrinhos de mão; só mais tarde foram importadas pás e picaretas da França. Um milhão e meio de egípcios participaram da construção. Houve cerca de cento e vinte mil mortos.

Ismaília, Canal de Suez – Copyright©2016 Rainer Brockerhoff

Ainda havia os empecilhos provocados pelos caprichos do deserto: muitas vezes as tempestades de areia cobriam e fechavam as vias já escavadas, como também na tentativa dos faraós de unir o Rio Nilo ao Mar Vermelho, projeto abandonado após mil anos de reveses.

O jovem diplomata e engenheiro francês Ferdinand de Lesseps foi o grande visionário e propulsor desta obra.

Canal de Suez – Copyright©2016 Rainer Brockerhoff

O objetivo de Lesseps foi uma via de comércio e comunicação para todos os povos. Sem a ousadia deste determinado empreendedor os faraós modernos não veriam navios…

Do deck do MS Amadea se descortina este oásis além de um muro de pedras.

Canal de Suez – Copyright©2016 Rainer Brockerhoff

Este canal é uma caixa de Pandora! Traz encantamento e perplexidade…

Canal de Suez – Copyright©2016 Rainer Brockerhoff

Seguimos em direção à cidade de Suez.

2017

Mendocino, California – Copyright©2011 Rainer Brockerhoff

…Ano Novo é um casulo
Da lagarta caixa-preta
Vem única borboleta…

Ilulissat — Groenlândia

Pelos padrões da Groenlândia é cidade grande com 4 mil habitantes. É um mundo de fiordes cheios de icebergs gigantes formados pela movimentação das geleiras; neste a magnífica visita de baleias jubarte.

Ilulissat, Groenlândia – Copyright©2016 Rainer Brockerhoff

Estes icebergs têm, pelo menos, 800m abaixo da superfície e 100m ou mais de altura. Em um barco pequeno navegamos entre os gigantes que nos levam a um perplexo silêncio.

Ilulissat, Groenlândia – Copyright©2016 Rainer Brockerhoff

Através dos fiordes, as catedrais, castelos, cavernas, rendas de gelo.

Ilulissat, Groenlândia – Copyright©2016 Rainer Brockerhoff

As fotos não captam toda a beleza e mistério desta Ilulissat — significa iceberg.

Ilulissat, Groenlândia – Copyright©2016 Rainer Brockerhoff

Diante destas esculturas fortes o ser humano é a menor das formigas.

Ilulissat, Groenlândia – Copyright©2016 Rainer Brockerhoff

Uummannaq — Groenlândia

Uummannaq — é outro espanto! O relevo da Groenlândia é uma sucessão inimaginável de pedras emoldurando a vila.

Uummannaq, Groenlândia – Copyright©2016 Rainer Brockerhoff

O monte tem 1175m e o formato, apelidado pelos nativos, de Coração de Foca, significado de Uummannaq. Realmente esta imagem nos emudece.

Uummannaq, Groenlândia – Copyright©2016 Rainer Brockerhoff

Em toda a Groenlândia não há uma árvore sequer: impressionantemente, não há terra apropriada além da cobertura extensa de gelo por quase todo o ano. Os icebergs daqui são maiores ainda. Alguns mais altos do que o navio.

Uummannaq, Groenlândia – Copyright©2016 Rainer Brockerhoff

No centro, as antigas moradas dos Inuit, uma construção penosa de pedras e turfa. O telhado será um adereço turístico?

Uummannaq, Groenlândia – Copyright©2016 Rainer Brockerhoff

Bem perto, um toque moderno.

Uummannaq, Groenlândia – Copyright©2016 Rainer Brockerhoff

Aqui, o sonho de todo menino é abater a primeira foca, cuja pele é macia como seda. É um rito de passagem, comemorado com muita festa.

Qeqertarsuaq — Groenlândia

Os topônimos são um quebra-língua, cheios de consoantes, vogais dobradas, lindos e… impronunciáveis. Vêm do groenlandês as palavras caiaque e anoraque. Qeqertarsuaq — a costa oeste da Groenlândia / Kalaallit Nunaat é de uma imponência dramática. Da escotilha, fachos de luz e céu muito azul cheio de gaivotas.

Qeqertarsuaq, Groenlândia – Copyright©2016 Rainer Brockerhoff

A vila de Qeqertarsuaq, com 873 pessoas, na Ilha Disko, foi um importante centro de caça às baleias. Por todo lado varais de peixes. A base econômica é turismo, caça e pesca.

Qeqertarsuaq, Groenlândia – Copyright©2016 Rainer Brockerhoff

A viagem de navio segura o tempo! Por terra a gente corre atrás da paisagem, do hotel, do restaurante… aqui temos a sensação de tudo vir à porta.

As igrejas têm um estilo bem caprichado. O povo inuit — ancestrais groenlandeses — cultivavam o shamanismo e rica mitologia centrada na deusa Sedna, protetora dos animais marinhos. Sob a influência da Dinamarca o protestantismo é largamente praticado.

Qeqertarsuaq, Groenlândia – Copyright©2016 Rainer Brockerhoff

Na pedreira colorida tivemos um presente inusitado e inesquecível: um gigante gelado…

Qeqertarsuaq, Groenlândia – Copyright©2016 Rainer Brockerhoff

…revirando-se subitamente…

Qeqertarsuaq, Groenlândia – Copyright©2016 Rainer Brockerhoff

…com um forte estampido…

Qeqertarsuaq, Groenlândia – Copyright©2016 Rainer Brockerhoff

…a gente não acredita nos próprios olhos!

Cidadinhas da Groenlândia

Paamiut — 1742 — é cercada de pedras quebradas por martelos gigantes em diversos tamanhos.

Paamiut, Groenlândia – Copyright©2016 Rainer Brockerhoff

Parece mais próspera e mais limpa do que Ammassalik. Supermercado com vinhos e outros produtos chilenos, italianos, franceses. Os nativos mais velhos são baixinhos, muito enrugados. Os dentes, em geral, como os dos chineses, são encavalados. Aqui a única escola naval da Groenlândia, bem como a maior fábrica de empacotamento de bacalhau. A maioria dos 1600 habitantes é luterana.

Paamiut, Groenlândia – Copyright©2016 Rainer Brockerhoff

Maniitsoq — a formação de basalto é espetacular e as montanhas atingem 2000m.

Maniitsoq, Groenlândia – Copyright©2016 Rainer Brockerhoff

As casas tem escadarias enormes. O exercício para chegar até lá vale por horas de academia.

Maniitsoq, Groenlândia – Copyright©2016 Rainer Brockerhoff

Em Maniitsoq, o aconchego é de pedra.

Maniitsoq, Groenlândia – Copyright©2016 Rainer Brockerhoff

É impossível cavar nesta “terra”, por isso as tubulações de água, esgoto e luz exigem estruturas bem elaboradas sobre as rochas.

Maniitsoq, Groenlândia – Copyright©2016 Rainer Brockerhoff

Todos os passantes nos cumprimentam. Um taxista puxou prosa; ao saber da procedência brasileira, abriu um sorriso e imitou passos de samba. Agradeci em groenlandês: qujanaq! Ganhei um amigo. Crianças muito pequenas, sozinhas a caminho da escola. Outras, também pequenas e sem acompanhantes, pegaram o Bussii.

Maniitsoq, Groenlândia – Copyright©2016 Rainer Brockerhoff

Estreito Prins Christian — Groenlândia

O navio sai do mar aberto e navega pelo Estreito Ikerasassuaq ou Prins Christian, ao sul. A beleza desta passagem é incomum.

Prins Christian Sund, Groenlândia – Copyright©2016 Rainer Brockerhoff

São 100km recortados de fiordes com figuras bizarras, surpreendentes. Aqui o degelo está mais extenso do que na Antártida. Em alguns pontos, cascatas de areia e solo esfarelado.

Prins Christian Sund, Groenlândia – Copyright©2016 Rainer Brockerhoff

Há pouco tempo todas essas montanhas eram cobertas de neve e gelo, mesmo no verão. Agora apenas estes retalhos.

Prins Christian Sund, Groenlândia – Copyright©2016 Rainer Brockerhoff

O gentil comandante, em determinado ponto, gira o navio 360°, bem lentamente. As quedas d’água, os cortes na pedreira, os icebergs ficam bem pertinho. A cada olhar para fora é como se fosse a primeira vez.

Prins Christian Sund, Groenlândia – Copyright©2016 Rainer Brockerhoff

A neblina surge de repente… logo o canal do príncipe desaparece na bruma densa. A gente duvida se aquilo tudo não foi, mesmo, um passe de mágica…

Prins Christian Sund, Groenlândia – Copyright©2016 Rainer Brockerhoff

 

Groenlândia… finalmente!

Costa da Groenlândia à vista. Pela escotilha desfilam castelos de icebergs, cordilheiras de gelo ao pôr do sol. Neste fim de mundo o ciclo de cor, de luz, de movimento é um espetáculo ímpar…

Groenlândia – Copyright©2016 Rainer Brockerhoff

Ammassalik / Tasiilaq cercada de pedra pura!

Ammassalik, Groenlândia – Copyright©2016 Rainer Brockerhoff

É a primeira cidadinha no nosso roteiro; fundada em 1894, tem dois mil habitantes. Cada um recebe auxílio financeiro da Dinamarca, parece não haver programa de incentivo ao trabalho e o nível de alcoolismo é muito alto.

Ammassalik, Groenlândia – Copyright©2016 Rainer Brockerhoff

Em cada casa vimos um trenó, daí a sinalização:

Ammassalik, Groenlândia – Copyright©2016 Rainer Brockerhoff

Os cães são hábeis no trenó, trabalham muito e não são para brincadeiras ou de estimação. O treinador deve conhecer bem a aptidão dos cães, adestrando-os especificamente para as funções de lateral, de fundo e, principalmente, de líder na condução do trenó.

Ammassalik, Groenlândia – Copyright©2016 Rainer Brockerhoff

É proibida a importação de cães para impedir a mistura de raças. O ponto negativo é a manutenção desses belos e úteis animais acorrentados.

Os meninos são amáveis e a curiosidade é mútua.

Ammassalik, Groenlândia – Copyright©2016 Rainer Brockerhoff

O cemitério ao pé da pedreira. Cruzes sem nome ou data. Sempre visitamos cemitérios; são lugares reveladores de costumes e histórias.

Ammassalik, Groenlândia – Copyright©2016 Rainer Brockerhoff

A pesca é a principal fonte de alimento e cada um bota o almoço para secar.

Ammassalik, Groenlândia – Copyright©2016 Rainer Brockerhoff

Apenas por navio ou helicóptero se chega aqui. É um lugar muito diferente. Esta quebra de paradigma traz um misto de espanto e de surpresa.

Ammassalik, Groenlândia – Copyright©2016 Rainer Brockerhoff