Ano Novo

Bem-vindo
cada dia
com
louvores
dores
acrobacia…
cada um de nós
os vai
colorindo

Copyright©2026 Maria Brockerhoff

Salasaca, Ecuador — Copyright©2015 Rainer Brockerhoff
Salasaca, Ecuador — Copyright©2015 Rainer Brockerhoff

2026

Belo Horizonte, MG — Copyright©2010 Rainer Brockerhoff
Belo Horizonte, MG — Copyright©2010 Rainer Brockerhoff

Um dia, um médico atestará o fim do funcionamento do meu cérebro. E, numa forma essencial, minha vida chegou ao fim. Quando isto acontecer, não tente introduzir vida artificial no meu corpo através de máquinas. Invés disso:

doe meus olhos a um homem que nunca viu o sol nascer, nunca viu o rosto de um bebê ou amor no olhar de uma mulher;

doe o coração a uma pessoa cujo coração não fez outra coisa senão causar dias infindáveis de angústias;

doe o rins para alguém dependente de uma máquina para viver semana após semana;

doe o sangue, o ossos, cada músculo, cada nervo de meu corpo e encontre um jeito de fazer crianças aleijadas andarem;

explore cada canto do cérebro e de meu corpo, deixe as células se desenvolverem e algum dia, um menino mudo será capaz de gritar o gol de seu time e uma menina surda ouvirá o som da chuva na vidraça;

queime as sobras de mim e espalhe as cinzas ao vento para adubar as flores;

certamente será necessário enterrar as minhas culpas, as minhas fraquezas e todos os preconceitos.

Se você quiser se lembrar de mim, faça-o com um boa ação ou uma boa palavra para alguém desconhecido. Assim eu viverei para sempre!

Adaptado de um texto de Robert Noel Test

Gente Valente

Fomos ao Texas e, descuidados, não consultamos o poderoso Sr. Clima; de costa a costa, com raras exceções, as temperaturas beiravam 104°F (40°C). Foi a primeira vez que estivemos lá no verão… e fizemos meia volta para fugir do calor escaldante.

Não comunicamos nossa volta a ninguém; assim tínhamos mais dias de férias, fomos para um hotel e experienciamos certo exílio: sim, pois sabíamos que o celular não tocaria, não haveria visitas — um dos bons hábitos em Minas — nada de almoços coletivos, nem cafézinhos com prosa…

Descobrimos, aqui mesmo, lugares interessantes num bairro completamente desconhecido. Vimos o quanto a gente se apega à padaria, ao sacolão, à cabeleireira, à próxima esquina; como limitamos o círculo de convivência!

Deste nosso venturoso degredo pude avaliar a valentia de dois queridos amigos: M. e R. (abreviaturas invejando Freud). Ambos com faccia e coragem pediram as contas, juntaram um mínimo de tralha e foram-se… cada um, absolutamente, por sua conta e risco.

M. para Buenos Aires e R. para Paris. Estabeleceram-se nestas outras plagas, conquistaram amigos e boa colocação profissional (sem QI algum!). A certeza de ter as pessoas, o trabalho, a roda na pizzaria forma uma rede reconfortante deixada para trás.

Nas nossas andanças anônimas por aqui pude avaliar como a aventura dos meus amigos pode parecer meramente romântica, contudo os desafios da cidade grande e da língua estranha exigem boa dose de autosuficiência, determinação.

Este ir e vir solitário, incluindo todas as atividades e decisões, não é pra qualquer mortal. Certamente é uma bela aventura e pode ser um meio — talvez o único -— de nos virar pelo avesso e de nos fazer sair de um mundinho morno e, muitas vezes, medíocre.

Amigos M. e R., posso concluir que o impulso para uma corajosa virada só pode ser

…ou uma lança atravessada no peito ou uma esperança desvairada…

UFMG — Doação de Corpo…

..é um ato de profunda generosidade! A UFMG, há 26 anos, oferece a oportunidade para cada um de nós contribuir para a ciência e transformar a morte em algo útil e, ao mesmo tempo, simplificador. Isto mesmo!

Uma montanha de burocracia, como cartório, transporte, planos funerários, jazigo/cremação (atualmente um excelente e lucrativo negócio) se dissolve. Os custos decorrentes do falecimento ficam sob a responsabilidade da Faculdade de Medicina da UFMG com equipe alerta e bem-organizada.

Importante conhecer o VidaApósAVida. Há muitos preconceitos, enganos e desinformação sobre a doação de corpo. Novas perspectivas se apresentam àquele com disposição para ouvir, para tirar a venda dos olhos.

É até compreensível a ideia tradicional e, às vezes, até distorcida sobre sepultamento e/ou cremação. Contudo a doação de corpo, na realidade, é muito mais respeitosa quando assistimos, consternados, aos animados bate-papos em alguns velórios. Sem falar na maquiagem dos mortos; claro, uma moda importada dos americanos.

A doação de corpo traz a possibilidade magnífica para o ensino da anatomia médica, para pesquisas e para os treinamentos anatômicos e médico-cirúrgicos desenvolvidos na Faculdade de Medicina da UFMG..

Basta marcar uma entrevista pelo telefone (31)3409-9739.

É comovente e verdadeira a lápide no Cemitério da Saudade dedicada aos doadores.

É muito mais sensata e sensível a doação, pois é um desperdício descartar um corpo “que a terra há de comer”.

Ainda há outro bônus, saímos da entrevista de doação com a funda compreensão desta vida:

“o presente é um presente” — Saramago

Lagoa do Cassange, BA - Copyright©2017 Rainer Brockerhoff
Lagoa do Cassange, BA – Copyright©2017 Rainer Brockerhoff

3 de Abril

Lago dos Quatro Cantões, Suíça – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff
Lago dos Quatro Cantões, Suíça – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

…vai fundo
o significado da despedida
não mais volta
nem ida
ao por do sol.

Delineia-se altivo
o definitivo
o fim da linha

Copyright©2024 Maria Brockerhoff

Águas de Setembro

O vento vira tudo
é o primeiro sinal
do redemoinho.

Cai água pesada
ousada
em fios grossos limpos
entupindo a razão
a boca — e terra — de lobos.

Um mar
fora de lugar.
A corrente luta
perde a disputa
para os restos
humanos nas ruas.

Todos os anos
a selva urbana é surda
tirana
a cada verão
enchentes
pânico
perdas.

Longe bem longe
a chuva é um presente
brinca em rodopios
enche cisternas
alimenta os rios
dá frescor à terra ardente
deixa o outono lavado
dentro e fora da gente.

Fica o terreiro inchado
ansioso
por nova semeadura…

Copyright©Maria Brockerhoff

Hauui An, Vietnam - Copyright©2009 Rainer Brockerhoff
Hauui An, Vietnam – Copyright©2009 Rainer Brockerhoff

Domingo de Maio

Porto de Buenos Aires – Copyright©2006 Rainer Brockerhoff

…no livro da vida
as páginas do tempo nos aguardam
cheias de mistérios.

As páginas e o tempo
estão disponíveis
para os desejos
à espera
de impulsos
da ousadia de transgredir
da capacidade de ultrapassar.

As páginas
assim como todos os dias
serão preenchidos com seiva
lágrimas suor força…
cada um de nós usará a tinta das veias
para colorir umas e
outros…

Copyright©2001 Maria Brockerhoff

Fim de Linha

a gente quer segurar o passado
a surpresa da sintonia
os volteados da dança

as corridas na areia
os olhares sem palavras
os encontros completos

engano puro
o passado é lacrado
o afeto ficou
     distante
     vencido

hoje a conversa é caricatura
as lembranças distorcidas
machucam o presente

hoje temos nada
inútil buscar os laços
     lá longe

deixemos assim
as lembranças permanecem.
Agora entre nós somos ninguém…

Copyright©2022 Maria Brockerhoff

Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

Música, divina Música — Millôr

Copyright©2012 Wen Wei Sum (Creative Commons)

Tanto duvidaram dele, da teoria daquele jovem gênio musical, que ele resolveu provar pra si mesmo, empiricamente, a teoria de que não existem animais selvagens. Que os animais são tão ou mais sensíveis do que os seres humanos. E que são sensíveis sobretudo ao envolvimento da música, quando esta é competentemente interpretada.

Por isso, uma noite, esgueirou-se sozinho pra dentro do Jardim Zoológico da cidade e, silenciosamente, se aproximou da jaula dos orangotangos. Começou a tocar baixinho, bem suave, a sua magnífica flauta doce, ao mesmo tempo em que abria a porta da jaula. Os macacões quase que não pestanejaram. Se moveram devagarinho, fascinados, apenas pra se aproximar mais do músico e do som.

O músico continuou as volutas de sua fantasia musical enquanto abria a jaula dos leões. Os leões, também hipnotizados, foram saindo, pé ante pé, com o respeito que só têm os grandes aficionados da música. E assim a flauta continuou soando no meio da noite, mágica e sedutora, enquanto o gênio ia abrindo jaula após jaula e os animais o acompanhavam, definitivamente seduzidos, como ele previra.

Uma lua enorme, de prata e ouro, iluminava os jacarés, elefantes, cobras, onças, tudo quanto é animal de Deus ali reunido, envolvidos na sinfonia improvisada no meio das árvores. Até que o músico, sempre tocando, abriu a última jaula do último animal – um tigre.

Que, mal viu a porta aberta, saltou sobre ele, engolindo músico e música – e flauta doce de quebra. Os bichos todos deram um oh! de consternação. A onça, chocada, exprimiu o espanto e a revolta de todos:

– Mas, tigre, era um músico estupendo, uma música sublime! Por que você fez isso? E o tigre, colocando as patas em concha nas orelhas, perguntou: 
– Ahn? O quê, o quê? Fala mais alto, pô!

MORAL: OS ANIMAIS TAMBÉM TÊM DEFICIÊNCIAS HUMANAS.

Millôr Fernandes, autodidata, é um dos maiores jornalistas e chargistas da imprensa brasileira, século XX.
Carioca do Méier, Milton Viola Fernandes foi registrado como Millôr devido a uma dúvida na caligrafia. Na revista O Cruzeiro publicava sob o pseudônimo Vão Gôgo! Inteligentíssimo, como o demonstra o seu senso de humor.
A vastíssima escrita de Millôr é atemporal, como toda obra-prima.