Baikal é o maior lago de água doce do mundo. É um maravilhoso velhinho de 25 milhões de anos. A profundidade pode alcançar 1700m, contendo 20% da água doce de todo o planeta e 90% da da Rússia.
Por sua biodiversidade é considerado “Galápagos da Rússia”. Com 37 mil km², possui riquíssimas tradições, flora e fauna, cujos crustáceos são hábeis faxineiros do lago: devoram plantas, peixes mortos e qualquer outro material em decomposição. Neste típico mercado, às margens do Baikal, provamos o omul — um salmão de água doce — e outros peixes defumados.
No inverno, as temperaturas são rigorosas, o Baikal se transforma em um continente gelado. Neste verão a temperatura está muito agradável, tornando-o uma imensidão azul.
O Zarengold espera pacientemente o espetacular piquenique às margens do lago: a tripulação arma mesas com toalhas adamascadas, churrasqueiras, bebidas geladas, frutas e sobremesas. Mergulhar no Baikal era inimaginável e a realidade valeu a pena!
De Novosibirsk a Moscou — a etapa final — as cidades foram restauradas ou reconstruídas da sanha cruel de Stalin e Lenin. Como fênix, ressurgiram fortes, imponentes e se desenvolvem em ritmo acelerado.
• Novosibirsk, ainda na Sibéria, fundada em 1893 durante a construção da ferrovia Transiberiana, é uma cidade-menina para os padrões russos, banhada pelo rio Ob. Até 1991 o regime soviético proibia as visitas de estrangeiros. Hoje é importante centro industrial e universitário.
• Ekaterinburg, a janela para a Ásia, a quarta cidade da Rússia, outrora rodeada por fortalezas, é uma homenagem a Catarina I. É divisa entre os dois continentes. Neste ponto, se celebra com champanhe a brincadeira dos viajantes: colocar um pé na Europa e outro na Ásia.
A cidade guarda, ainda, a perplexidade e horror ao assassinato do casal imperial, Nicolau II. Os cinco filhos e todos os familiares foram, também, covardemente executados pelos bolcheviques — membros do Partido Operário, liderado por Lenin — em 17 de julho de 1918. Segunda a lenda, uma das filhas do czar teria escapado ao destino trágico. O filme “Anastasia”, um clássico de 1956 com Ingrid Bergman e Yul Brinner, bota mais lenha na fogueira.
Esta catedral/museu foi erguida no local onde os Romanov foram mortos:
• Kazan é espetacular! Situada na confluência dos rios Volga e Kazanka existe desde o século XI. Após a dissolução da União Soviética tornou-se um prestigiado centro científico. Aqui convivem pacificamente, desde a queda do comunismo, credos diferentes e são faladas as línguas russa e tatar.
Na despedida, uma constatação se impõe: se cada um pudesse encontrar a paz dentro de si mesmo, todos os seres vivos compartilhariam, sim, da indescritível diversidade, diferenças culturais, étnicas e religiosas que enriquecem o mundo.
A aventura para cruzar o círculo polar ártico começa com o gosto bom do vinho do Porto em Lisboa. Daqui, o vôo para Bremen, ao norte da Alemanha. A cada vez, a cidade dos músicos — burro, cão, gato e galo — é mais agradável. O ícone de Bremen é a figura destes personagens…
Foto: Bremenlotsen
…retratados pelos Irmãos Grimm: esses bichos trabalhavam duramente e, para escapar do patrão cruel, fogem da fazenda para cantar na cidade. Entre muitas aventuras, se empilham para afugentar ladrões com zurros, latidos, miados e cacarejos. Haja ouvidos! Este folclore já rendeu filmes, peças, anedotas, musicais, desenhos e muito humor:
Desenho – Johann Mayr Em tradução livre, nas hierarquias os maiores asnos ficam no topo!
Há sinais de habitantes nesta região, às margens do Rio Weser, desde o ano 12 mil a.C.; as muralhas da cidade datam de 1032. Daí o estilo arquitetônico belíssimo:
Nos arredores de Bremen visitamos o Moor — são pântanos como na Irlanda. No séc. XVIII eram fazendas de onde se extraia a turfa usada para aquecimento e combustível. O trabalho era feito pelas famílias, inclusive pela criançada. Atualmente o Moor é um parque enorme, belíssimo:
Antigamente a turfa, depois de retirada, era cortada como em um tabuleiro, seca e transportada por barcos, como este no museu, para as cidades vizinhas.
Esta reserva muito bem conservada é um habitat de pássaros, insetos e plantas. Um metro de terra preta leva mil anos para se decompor e se compactar; daí pode-se avaliar a preciosidade desses torrões de humus, hoje usados nos jardins. Está explicada a magnificência dos Gärten em toda a Alemanha.
Há locais em que a turfa compactada alcança 4 metros; assim, é um trabalho incessante de 4 mil anos! É algo em que não se acredita, a não ser com os olhos de São Tomé.
Bremen oferece uma cozinha saborosa e exótica de quase todos os cantos. Os queijos da região são inigualáveis. Os jardins de toda a Alemanha parecem ter nascido aqui no Rhododendron-Park:
De Bremen para este porto o trem leva 34 minutos cravados. No trem, e por todo lado, um universo de gente de todas as cores, tipos e etnias. Esta diversidade recente enriquece, traz vantagens para todos.
Aqui em Bremerhaven o Atlantic Hotel Sail City, à beira-mar, nos recebe com água de hortelã e maçãs. A sauna, toda de vidro, tem a forma de um barco e as duchas bem fortes, revigoradoras.
Bremerhaven, com 110 mil habitantes, limpíssima, agradável é, essencialmente, cosmopolita. Os belos e modernos edifícios —como o centro de conferências em forma de zepelim e o hotel — acentuam o contraste entre a tradição do museu e a história intrigante de navios antigos.
Um barco a vapor, pesadão — DE Wal, 1937-1990 — uma relíquia-navegante satisfaz o desejo dos saudosistas lançando-se ao mar, de vez em quando, com uma tripulação de voluntários:
A Islândia é aveludada! Montes com tampa de mesa devido à solidificação das lavas. Berços de neve em contraste com as rochas bem escuras. É uma fartura de azul.
Embarcamos no MS Albatros, um quarentão bem conservado, mobília nova e confortável. Tem três mesas de pingue-pongue — uma festa! — sauna, bons aparelhos de musculação, além daqueles mimos dos bons navios de cruzeiro. A piscina com ondas nos descansa das peripécias da chegada e prepara-nos para o agora!
Em nossa mesa, dois casais com idade entre 75 e 82 anos são valentes velejadores. Isto mesmo! Uma disposição incrível para singrar os mares; suas histórias prendiam-nos muito além da sobremesa. É relaxante aproveitar a ausência de rotina, as pessoas e ambientes diferentes, as novidades de cada porto. O primeiro, Seyðisfjörður:
É a cidade mais antiga da ilha, 750 habitantes. Nos arredores fundou-se uma cidadinha para funcionários de grandes empresas; é um tipo de Brasília dos burocratas, com a diferença da eficiência e excelentes resultados dos islandeses.
Fomos ao parque Hengifoss, 450m acima do nível do mar; a caminhada forte de 2km começa por esta escadinha. É impressionante a limpeza, não vimos um saquinho plástico ou pedaço de papel. Dá uma inveja…
Por todo lado, panelas enormes onde fachos de água revolta formam cachoeiras; fios de água cristalina despencam e correm apertados entre os corredores de pedra. A primeira queda d’água de 30m de uma torre de basalto compensa todo o esforço.
A principal cachoeira Hengifoss, 118m de torrentes, em meio-círculo de camadas de rochas coloridas. Aqui, a gente experimenta sufocante e maravilhosa sensação: a tal de tirar o fôlego!
Com 17 mil habitantes, a antiga Akureyri é uma cidade grande. Há um estudo para limitar a avalanche de turistas — convenhamos, uma praga! — a esta ilha civilizada.
Os islandeses têm razão, pois receberam quase 2 milhões de turistas em 2015 — seis vezes o número de habitantes! Outros países vêm adotando certas restrições ao turismo em massa. Quando estivemos no Bhutan, em 2015, a taxa de turismo era de 250 dólares por dia, per capita.
• fazendas de gado e cavalos de raça para exportação. Inclusive é proibida a importação para não interferir na excelente qualidade dos cavalos nativos.
Em 1918 a Islândia proclamou a independência formal da Dinamarca. É uma nação conservadora com surpreendentes práticas modernas, avançadas e instituições democráticas inabaláveis há 1000 anos. A própria língua, de origem escandinava, sofreu poucas modificações ao longo dos séculos; praticamente sem dialetos tem alguma semelhança com o alemão: não é grande consolo!
Tendo passado por período de privação, o povo aprendeu a comer tudo: de aves, peixes, testículos de carneiro a tubarão apodrecido… sabiamente transformaram os ingredientes da terra em saborosos pratos exóticos. A carne de rena experimentamos e repetimos. Ah! São consumidos 3 milhões de litros de cerveja por ano.
A cultura é permeada de sagas heróicas transmitidas oralmente através das gerações. Aqui, a cachoeira Goðafoss, onde segundo a lenda, é a morada dos deuses.
A Islândia até a II Guerra Mundial era um dos países mais pobres do ocidente. Hoje ocupa o topo do mundo em renda e o maior número de livrarias — ah, invejável! — per capita. Aqui o centro antigo de Reykjavík.
Para tal desenvolvimento, foram adotadas medidas simples e inteligentes. Aliás, estes adjetivos estão sempre juntos em bons resultados:
Trabalho em conjunto exportando largamente peixes e frutos do mar, matéria prima farta e de boa qualidade;
Investimento em turismo; cada cidadinha procurou valorizar os seus pontos interessantes;
Incentivos ao pessoal para morar na terra natal, ao invés de migrar para a cidade grande. Uma motivação para estas pessoas se tornarem guias e/ou hospedarem os visitantes;
Aproveitamento eficiente da energia hidroelétrica e geotérmica, fornecendo água a mais de 200°C e eletricidade grátis ou de custo mínimo para moradores e indústrias; destacam-se multinacionais de alumínio, com minério importado, inclusive do Brasil.
Nesta catedral, com o tocante formato de mãos postas, o organista, com todo o talento dos seus 80 anos, nos proporciona um momento mágico: a nave se enche com o som dos Beatles — Yesterday.
A Islândia já atravessou fases duríssimas: restrições religiosas em 1550, epidemias, erupções vulcânicas devastadoras, fome dizimadora da população e animais de criação; tudo isso temperou o caráter islandês, tornando-o receptivo às causas humanitárias, à proteção do meio ambiente e cultivador das artes. Esta emblemática escultura rende filosofias e babados, não?
O ensino é obrigatório, gratuito dos 6 aos 16 anos; a natação está na grade escolar. As escolas apresentam alto nível de excelência mundial em Linguagem e Matemática. É maciça a participação política, com mais de 80% de votantes nas últimas eleições.
Esta escultura no porto Hafnarfjörður é uma homenagem aos antepassados:
É proibida a concessão de privilégios de qualquer tipo aos governantes e servidores públicos. Não há forças armadas. Nem é preciso falar da segurança e da limpeza em todos os cantos.
Costa da Groenlândia à vista. Pela escotilha desfilam castelos de icebergs, cordilheiras de gelo ao pôr do sol. Neste fim de mundo o ciclo de cor, de luz, de movimento é um espetáculo ímpar…
É a primeira cidadinha no nosso roteiro; fundada em 1894, tem dois mil habitantes. Cada um recebe auxílio financeiro da Dinamarca, parece não haver programa de incentivo ao trabalho e o nível de alcoolismo é muito alto.
Os cães são hábeis no trenó, trabalham muito e não são para brincadeiras ou de estimação. O treinador deve conhecer bem a aptidão dos cães, adestrando-os especificamente para as funções de lateral, de fundo e, principalmente, de líder na condução do trenó.
São 100km recortados de fiordes com figuras bizarras, surpreendentes. Aqui o degelo está mais extenso do que na Antártida. Em alguns pontos, cascatas de areia e solo esfarelado.
O gentil comandante, em determinado ponto, gira o navio 360°, bem lentamente. As quedas d’água, os cortes na pedreira, os icebergs ficam bem pertinho. A cada olhar para fora é como se fosse a primeira vez.