Evelyn Glennie no Minas Tênis Clube

Uma virtuose escocesa, simpática, alegre e muito simples, como o são os grandes, apresentou-se em Belo Horizonte, MG.

Além da forte tradição musical no nordeste da Escócia, onde o desenvolvimento dos jovens músicos é levado muito a sério, o pai tocava acordeon e Evelyn Glennie tocava, inicialmente, gaita e clarineta. Começou a perder a audição aos 8 anos e aos 12 ficou profundamente surda.

Esta artista rompe paradigmas e preconceitos. Por volta dos 15 anos, Evelyn disse à conselheira vocacional que pretendia seguir a carreira musical. A orientadora, perplexa e um tanto obtusa, como sói acontecer, sugeriu-lhe cursar contabilidade (!!). Desde então, a busca do som tornou-se um desafio ainda mais forte. Ela aprendeu a “ouvir” com outras partes do corpo as vibrações sonoras que substituem, incrivelmente, os ouvidos. Sente vibrações específicas, por exemplo, no dedo indicador.

No palco, uma parafernália selecionada dos mais de 1800 instrumentos da sua coleção. A maior percussionista de todos os tempos é criativa e inventa sons de pedras, conchas e constrói instrumentos dos quais extrai belíssimos sons, como o “aquaphone”. A marimba é suspensa para melhor transmissão das vibrações, assim como a apresentação descalça. Ela toca, ainda, o “Hang”: instrumento suiço, incomum, feito apenas sob encomenda.

Evelyn Glennie fala normalmente, com enunciação precisa; não tem sequela alguma da deficiência. Faz palestras sobre a surdez, cuja natureza é incompreendida pelo público em geral. A carreira inigualável desta moça mudou os padrões do ensino musical no Reino Unido. Ela própria é a prova viva de superação, de desafio de limites e de força interior.

De quebra, ela desenha e fabrica jóias de uma beleza ímpar.

O insight incrível de Evelyn é a busca do som em si mesmo, muito além da música: o corpo é fonte de som.

 

Belmonte e Aldeias Históricas em Portugal

O interior de Portugal reserva agradáveis surpresas. São vilas e aldeias com muitas histórias e tradição. Conservam o estilo e as raízes seculares. Belmonte, terra de Pedro Álvares Cabral, a 290km de Lisboa, com as casas de pedra com flores e frutas, as ruelas cheias de curvas, os museus incrivelmente modernos, é muito agradável! Curtimos imensamente a quietude e o silêncio dali; principalmente bem cedo pela manhã e ao começar da noite não há vivalma. Por isto, Belmonte é singular.

A Pousada Convento de Belmonte, na parte mais alta, tem a vista ampla para a Serra da Estrela. Foi um antigo convento dos Franciscanos, a planta original foi mantida, bem como a capela e a sacristia. Os amplos apartamentos são designados pelos nomes dos Frades! A decoração, de muito bom gosto, mantém o estilo antigo aliado ao conforto. Interessantes as ruínas preservadas em dos pátios da pousada. Lá, sim, se pode ouvir as estrelas…

Pousada Convento de Belmonte - Copyright©2013 Rainer Brockerhoff

Sortelha! Ah! Sortelha é uma miragem… o Castelo de Sortelha foi edificado em 1228, para defesa estratégica. Para fixar a população, foi criado ali um couto de homiziados — neste lugar, qualquer indivíduo tinha o direito de fixar-se livremente, ainda que fosse perseguido pela justiça de outra região. No conjunto de fortificações, no interior da muralha, pode se ver, por exemplo, a torre de menagem, cisterna, porta falsa, varanda de Pilatus, a torre sineira e uma pedra de forma peculiar, a Cabeça da Velha. Vale a visita. A região em torno de Sortelha é de pedra-pura e belíssima.

Castelo Novo é uma aldeia em caracol, rodeada por pedras “acolchoadas”. Lá no alto, a arquitetura gótica e manuelina do castelo.

Vir a esta região foi uma inversão de papéis: nós, agora, descobrimos Portugal.

Ilha Norfolk — Austrália

Estas valentes porções de terra cercadas, muitas vezes, por ondas bravias, que  desenham, cortam e cavam-lhe as costas, guardam tesouros e mistérios. Norfolk é uma destas ilhas fascinantes. O vulcão que lhe deu origem espalhou, com gosto por todo o lado, pedras negras dos mais variados tamanhos e formas; o contraste com gramados verdes, muito verdes, se estendendo até as praias de águas cristalinas faz-nos duvidar dos próprios olhos.

As ruínas majestosas e muito bem conservadas das duas penitenciárias, cuja muralha continua intacta, revestem esta parte da ilha de uma aura enigmática; há um silêncio, uma quietude, onde se escutam o vento e as histórias inscritas nas paredes, nas celas, nos corredores estreitos, nas lápides do cemitério. Nos anais do museu o drama do prisioneiro fugitivo das grades, recapturado depois de viver durante 7 anos no oco de uma árvore.

Hoje, em compensação, não há cadeia nem qualquer outro tipo de vigilância. Ninguém tranca a casa nem o carro. No vilarejo com 2000 habitantes, onde a lista telefônica é por apelido, o centro de compras é uma única rua com lojas finas, galerias de arte e modernos restaurantes. Não há semáforo e a carona é o único “transporte público”. Todos se cumprimentam, incluindo os turistas, com o “Norfolk wave”, o polegar positivo! A ilha exporta sementes de palmeiras, fabrica cerveja e chocolate e não usa agrotóxicos.

Norfolk se localiza a leste da Austrália, a menos de duas horas de vôo de Auckland (Nova Zelândia), no Oceano Pacífico; ao sul, o mal-humorado Mar da Tasmânia. Os polinésios viviam aqui antes da chegada do Capitão Cook em 1774. Em meados do século XIX os descendentes do famoso motim “Bounty”, moradores da ilha Pitcairn, já pequena para tanta gente, foram levados para Norfolk… mais histórias para o folclore e cultura…

A rica miscigenação resultou numa linguagem rara: mistura de taitiano e o antigo inglês de Pitcairn. A língua Norfolk está sendo ensinada nas escolas.

Norfolk é inigualável para mergulho em cavernas, abismos e túneis de coral, com infinita variedade de peixes e visibilidade de 20m ou mais. As árvores resistem bravamente aos ventos fortes e daí a estranha e belíssima forma das suas copas. Esta pequena ilha parece manter-se fiel às suas raízes, intocada pelos modismos, plantada nas rochas vulcânicas e protegida pelo oceano-guarda-costa.

Em Norfolk está o barco “Desventura”.

Desventura

Encostado num canto
o barco foi entretanto
belo, forte, altaneiro!
Sumiu a boa sorte
hoje virou canteiro.
É o retrato, talvez
de quem perdeu a vez.
Desistiu. Nem partiu…

Copyright ©2013 Maria Brockerhoff

Raimundo Correia

MAL SECRETO

Se a cólera que espuma, a dor que mora
N’alma, e destrói cada ilusão que nasce,
Tudo o que punge, tudo o que devora
O coração, no rosto se estampasse;

Se se pudesse, o espírito que chora,
Ver através da máscara da face,
Quanta gente, talvez, que inveja agora
Nos causa, então piedade nos causasse!

Quanta gente que ri, talvez, consigo
Guarda um atroz, recôndito inimigo,
Como invisível chaga cancerosa!

Quanta gente que ri, talvez existe,
Cuja ventura única consiste
Em parecer aos outros venturosa!

O poeta é exímio conhecedor das emoções, buscando bem no fundo a verdadeira essência humana. “Mal Secreto” vale um mundo de psicanálise! Raimundo Correia, de família de classe média alta, nasceu a bordo do navio “São Luis” em águas maranhenses e por isso dizia: “sou um homem sem pátria, nasci no oceano”. Daí, com certeza, a universalidade da sua poesia.

A Cidade dos Mórmons

…Salt Lake City é muito agradável, plana, arborizada, cercada de montanhas aveludadas.

A natureza é pródiga em Utah! A viagem vale por si só! As estradas rodeadas de vegetação colorida, de pedreiras ponteagudas, nos conduzem à progressiva cidade, sede das Olímpiadas de Inverno de 2002.

Como sempre, deixamos a pouca bagagem no hotel e saímos imediatamente, perambulando sem destino — o melhor jeito de descobrir maravilhas — pelas avenidas largas e limpas, pela praça do capitólio, um edifício imponente cheio de histórias e símbolos. Há muitos restaurantes exóticos, entre eles o Himalayan Kitchen, onde aproveitamos os sabores do Nepal e da Índia: “tikka masala” servido em recipientes e talheres de bronze.

Ainda perambulando, fomos parar no Temple Square: não sabíamos nada sobre este lugar, com 40 mil m² de jardins, templos, escritórios comerciais, conference center, o tabernáculo com um órgão gigantesco e coral de 360 vozes. Ainda, um belíssimo e antigo hotel transformado em memorial do fundador Joseph Smith. A réplica da imagem de Jesus Cristo de Copenhagen (3,4 m), esculpida por um artista dinamarquês, emociona fiéis e turistas. O templo principal, com espelho d’água, fontes e belíssimo jardim é magnífico. A construção toda em granito  foi iniciada em 1853 e durou 40 anos.

Naquele fim de semana se realizava a conferência semestral, com um número incontável de mórmons de todos os lugares. No intervalo de almoço, as famílias faziam piquenique na grama ao som do coral. Tudo bem organizado, muito limpo, muito bonito. Havia muitos jovens com placas anunciando a língua nativa para informações de, praticamente, todos os países. A partir de 18 anos, moças e rapazes já são missionários e partem mundo afora. Ficamos muito bem impressionados com a acolhida carinhosa; éramos “forasteiros” mas, por onde passamos, e de todas as pessoas com as quais cruzamos, recebemos mensagens amigáveis.

Nesta mesma noite tivemos um encontro agradibilíssimo em casa de amigos que confirmaram as gentilezas e a convivência fraternal dos princípios mórmons.

 

Jardim Botânico Plantarum – Nova Odessa, SP

O Jardim Botânico Plantarum, Av. Brasil 2000, Nova Odessa, SP, bem pertinho de Campinas, vai muito além dos 80 mil m² com 300 belas palmeiras brasileiras, das quais 200 são exóticas, da paisagem colorida, das esculturas, da perfeita organização, limpeza e bom gosto.

O Jardim Plantarum se nivela às grandes obras dos visionários, aquelas pessoas movidas por uma inabalável força interior e esperança sem limites.

Os parques do Grand Canyon e Yellowstone, por exemplo, nos Estados Unidos, além de receberem subsídios do governo, contam com milhares de contribuições voluntárias para a custosa manutenção. Parques europeus recebem apoio de empresas privadas. Este magnífico Jardim Plantarum é privado, nem tem isenção do pagamento de IPTU! O canteiro central da avenida do jardim, com belíssimas árvores meticulosamente classificadas, é mantido e limpo pelo parque. A água da chuva é armazenada e reaproveitada na irrigação.

O Plantarum tem um programa incipiente de associados que deve merecer o maior apoio. Associar-se a esta utopia verde é uma demonstração de cidadania.

O idealizador do projeto, o Eng. Agrônomo e botânico brasileiro, Harri Lorenzi, vai diariamente ao jardim e recebe os visitantes com máxima cordialidade e atenção. Um dos seus grandes méritos é conservar espécies ameaçadas de extinção e algumas até extintas no país. Lorenzi é também excelente autor de dezenas de livros. Há, ainda, variados cursos de paisagismo, pintura a aquarela de plantas/flores e oficinas verdes ao longo do ano, xiloteca, carpoteca, biblioteca e vasto material para pesquisa.

Há um excelente restaurante, espaçoso centro de eventos, empório de souvenirs, sementes e mudas. Chupar as mangas dulcíssimas caídas do pé, com caldo escorrendo pelos cotovelos, foi um luxo! A muda de vitória-régia é um espanto. Andar pelas alamedas, contemplar as incríveis formas verdes e coloridas, enfim, estar lá, traz uma sensação de leveza e bem-estar incomparáveis.

Nós, mineiros, levamos a boa nova do Plantarum para os amigos de Campinas, que se deliciaram. Por lá e por aqui a notícia de um jardim de tão alta qualidade, com fácil acesso, é uma grata surpresa.

Parques

Este mundão é inusitado! Está explicada a motivação do povo nômade em perambular por aí; além da coleta, da caça, a diversidade dos campos, das florestas, das montanhas, dos rios, certamente era um plus significativo e invejável!

Pobres de nós, cuja paisagem é um monte de janelas, filas intermináveis de bichos metálicos barulhentos, viadutos, pirâmides e outras figuras geométricas em vidros fosforescentes! Nem é bom lembrar daquela massa compacta emergindo de trens e metrôs…

Podemos avaliar a péssima qualidade de vida nas cidades grandes ao percorrer estradas vazias cortando as Montanhas Rochosas com o horizonte a perder de vista — sim, faz uma diferença enorme para a retina ver o infinito lááá looonge.

As árvores vestidas de dourado-amarelo-vermelho, as pedras pontiagudas enormes às margens das rodovias muito bem cuidadas, já indicam a beleza dos parques em torno de Moab/Utah, nos Estados Unidos. A cidadinha de Moab é muito agradável. A rua principal, cheia de hotéis, restaurantes, agências de aventuras radicais (e outras nem tanto), tudo em estilo do velho Oeste. Lojas muito boas. As galerias de arte e livrarias de alto nível são surpreendentes!

A cidade é ponto de partida para o Arches National Park, Canyonlands National Park e Deadhorse Point. A paisagem é indescritível: nenhum delírio, fantasia ou sonho humanos podem se comparar às brincadeiras da natureza por 300 milhões de anos. A cada momento, a cada curva, formações bizarras, impressionantes desenham palácios, pontes, círculos vazados e milhares de arcos frágeis, graciosos desafiam a gravidade. Os nomes, em tradução livre, são bem apropriados: as fofoqueiras, a torre de Babel, o órgão, o tribunal, as janelas, os jardins do diabo, etc. etc.

Os rios Colorado e Green se encontram e dividem Canyonlands em 3 partes. Apenas a parte norte pode ser percorrida de carro, nas outras há trilhas acidentadas, belíssimas para longas caminhadas e umas poucas para veículos 4×4. Uma antiga mina de urânio é hoje um dos lugares mais bonitos e mais bem conservados do parque. O Shafer Trail inexplicavelmente foi, no século passado, lugar para criação de gado e carneiros que, muitas vezes, despencavam canyon abaixo.

Em Deadhorse Point foi filmada a magnífica cena final do filme “Thelma & Louise“. Deadhorse Point é tão forte, tão imponente… silencia qualquer um.

As imagens deste lugar emocionam profundamente; estão guardadas para iluminar algum momento escuro!

Ano Novo Chinês – Serpente

Com muitas luzes, danças, rituais, começou hoje o novo ano lunar, comemorado na China, Coréia do Norte, Taiwan, Singapura, Birmânia, Indonésia e nas Chinatowns de todo o mundo. A serpente, este ano, se identifica com o elemento água, portadora de alegria e otimismo. Há milhares de anos, conforme a filosofia antiga, os acontecimentos nesta vida são resultados do equilíbrio entre os 5 elementos do universo: metal, madeira, água, fogo e terra.

Terminou o ano do dragão e começa o do signo da serpente, o mais enigmático e cheio de mistérios. A serpente é a ancestral mítica dos imperadores chineses, estando associada ao conhecimento e ao profundo pensamento filosófico. O ano da serpente 1929 trouxe a grande depressão; 1941, o ataque a Pearl Harbor; 1989, o massacre da Praça da Paz Celestial; 2001, os ataques às torres gêmeas. Contudo, grandes alegrias, incríveis avanços científicos, pessoas e livros transformadores surgiram também nestes anos. Os estudiosos do Feng Shui — literalmente, wind+water — aproveitam essa época para prognósticos e previsões.

Assim, fantasias à parte, interessa-nos a parte cultural e os interessantes costumes destes povos. Pessoas comemoram, atirando milhares de moedas nos sinos dos templos para trazer boa sorte; se a moeda tilintar, a sorte estará garantida. Famílias viajam longas distâncias para a celebração. Em geral, os chineses evitam casar-se neste ano; sendo época propícia para bons negócios. Os filhos nascidos neste ano são bons provedores. As pessoas do signo da serpente apreciam debates de alto nível intelectual, são inteligentes e dotadas de inquebrantável força de vontade. As atividades mais indicadas aos nativos deste signo são filosofia, literatura, escultura, arquitetura, política e psicologia. Costumam ignorar o que os outros falam a seu respeito. De natureza agitada, detestam barulho e desarmonia. São prestativas, mas não costumam perdoar as faltas nem as próprias. São, às vezes, desconfiadas e essa desconfiança, se levada ao extremo, pode afastá-las dos relacionamentos mais profundos.

A serpente combina bem com o rato, o boi, muito bem com o macaco, o galo. Serpente e tigre, serpente e porco não se beijam. 🙂

As Erínias, claro, são do signo da serpente! Então, encaram este tema com ceticismo. Tudo isso é excelente prosa para uma roda bem-humorada que, aí sim, pode levar a surpreendentes descobertas do outro…