…um milésimo da força e grandeza de Luis Soriano / Biblioburro:
Montes de Santana
A praça da Matriz de Santana dos Montes, hoje calçada com pés-de-moleque, era toda em grandes e originais lajotas de pedra, também usadas em passeios e alicerces.

O descuido e a falta de informação podem ter levado à troca desse calçamento ímpar e secular. Uma pena! Nesta faixa e na calçada, alguns preciosos remanescentes:

Alguns casarões das fazendas antigas se transformaram em confortáveis hotéis. O Solar dos Montes, no centro histórico, foi totalmente restaurado e ampliado, conservando-se o estilo e a elegância. Além da hospedagem de primeiríssima qualidade, o Solar é um abrigo de livros, história, música, cinema e workshops, com Medina, exímio contador de causos e Ana ao piano.
Aqui detalhes reveladores do bom gosto e finesse do Hotel Solar dos Montes:


No ambiente tranquilo a boa prosa é espontânea e alguns hóspedes se tornam já amigos de infância.

As delícias da cozinha mineira — o purê de inhame! — aquela comida redondinha com bons temperos, sem ressaltar o sal; no bufê de sobremesas criativas a compota de polpa de maracujá… tudo feito aqui mesmo, além de quitutes da culinária argentina e européia.
Aqui em Santana é relaxante submergir no passado:


O grupo escolar, sólida construção, infelizmente é mal conservado. O jardim poderia ser cuidado pelos próprios alunos orientados pelos professores; parece, aqui também, arraigada a idéia de ser apenas da prefeitura ou de outro órgão público — e não dos cidadãos — o dever de zelar pelo patrimônio.

Por aqui, ainda, trekking, cachoeiras, uma fábrica de cerveja, loja de artesanato e a oficina do capim Vetiver, cuja artesã Beverly faz um excelente trabalho com os adolescentes.
Santana dos Montes — Minas Gerais
Muita gente, ainda, não sabe dessa cidadinha — aqui, ó! — pra frente de Lafaiete.

Do séc.XVIII, é um circuito de casarões coloniais em estilo Bandeirante, antigas fazendas em meio a matas e serras repousantes.


Nestas bandas, a 130km de Belo Horizonte, o asfalto não conseguiu quebrar o tráfego sem pressa…

A praça da Matriz é uma surpresa a cada momento, quando se chega à janela: as casas quietas, o silêncio incomum. Faltam apenas árvores…

Santana guarda intrigantes detalhes do passado em muitas casas, infelizmente, abandonadas. Na Europa, por exemplo, estas ruínas seriam preservadas como um tesouro. Com um olhar cuidadoso são, certamente, um baú de lembranças.



Estes Montes de Santana, sua gente amável, os pássaros de todas as cores são um intervalo perfeito para suspender os pensamentos, a rotina, os sobressaltos…
Romênia — Rio Danúbio
Os Montes Cárpatos, a terceira cadeia mais longa de montanhas da Europa, ocupam um terço da România / Romênia. São incríveis grupos de pedra espalhados pelo sudeste. O nome, Carpați, em romeno, provém do grego Καρπάτauuς όρος (montanhas rochosas). Os Carpați abrigam nascentes de importantes rios europeus.

Aportamos ao entardecer em Turnu Măgurele, România, a bordo do navio Rousse Prestige (Русе Престиж) da companhia Phoenix, na rota do Donau / Danúbio: de Passau na Alemanha ao Mar Negro.

Neste porto um olhar perspicaz capturou este original interruptor:

…e a elegante sineta do navio:

București / Bucarest era a Micul Paris, a pequena Paris do Oriente. Infelizmente, sob o regime comunista do ditador Nicolae Ceaușescu, a rica arquitetura do centro histórico foi destruída, incluindo antigas igrejas. Os prédios da era comunista ainda subsistem.

A arquitetura residencial também foi dilapidada durante o regime:

O suntuoso parlamento é o segundo em tamanho na Europa. Houve um concurso para sua construção; venceu uma arquiteta de 27 anos. Supervisionada pelo casal Ceaușescu, a obra sofreu as mais disparatadas intervenções; em consequência, por exemplo, o parlamento consome hoje €3 milhões de eletricidade por ano, para refrigerar no verão e aquecer no inverno. Por fora… bela viola.

București é muito segura, a taxa de criminalidade bem baixa. No centro, alguns edifícios históricos foram restaurados:

A língua romena — limba română — é parecida com o italiano; aí ficamos animados em tentar ler, entender as pessoas… de repente, não se entende mais nada. Com ajuda de gentis romenos conseguimos trazer a mensagem:
A gente deve segurar o amor como um pássaro.
Se se sentir livre dentro da minha mão, o pássaro ficará.
Outra Vez

Outra vez primavera
brotam sementes — talvez
de amores irreverentes
Quem dera!…
Copyright©2019 Maria Brockerhoff
Copyright©2019 Rainer Brockerhoff
Vulcão-Laguna Quilotoa — Ecuador
A força, a grandeza do Quilotoa nos fazem emudecer e admitir a insignificância da condição humana! Está a 180km, sudoeste de Quito.

Deixamos bem cedinho o Hotel Hacienda La Ciénega, no pueblo Lasso, próximo ao Parque Nacional Cotopaxi; haveria uma procissão de 40km da Semana Santa e as rodovias seriam fechadas. Mesmo antes do sol nascer, o hotel, confirmando os bons serviços, nos serviu um reforçado desayuno.

A rodovia, inaugurada no dia anterior — parte da Carretera Panamericana projetada para ligar o Alaska a Ushuaia — corta a região cheia de vales retalhados, vegetação de todas as cores e as mais pitorescas formações rochosas.

Uma se chama Guarida del Condor, pois a montanha se parece com um gigante condor de asas abertas; um vasto canion é apelidado de Machu Picchu del Ecuador.

O rio Toachi, desaguando no Pacífico, sulcou profundamente o vale, transformando-o num Grand Canyon do Ecuador.
As casas típicas de adobe com cercas vivas, as crianças pequenas a caminho da escola, envoltas em xales coloridos e bochechas vermelhas pelo frio, as mulheres pastoreando ovelhas completam esta paleta da natureza. Toda a paisagem se equipara à do Bhutan, com a vantagem de, para nós brasileiros, estar… logo alí, ó…

O parque do vulcão Quilotoa, próximo ao pueblo de Zumbahua, tem boa estrutura. De um mirante pode-se apreciar, com conforto, toda a magia deste lugar. As muralhas, o portal de entrada, são uma obra de engenharia de alto nível.
A laguna do Quilotoa, cujas águas salinas abrigam apenas algas, tem 240m de profundidade. Suas paredes elevam-se a 400m da superfície. Nasceu da erupção em 1280 — uma das maiores do mundo no último milênio. A lava alcançou até 35.000 km² e tornou a região rica para agricultura, pastagens e fonte de estudos arqueológicos. O nível da água tem diminuído nos últimos anos.
O caminho até a laguna, com degraus e muretas de apoio, é limpíssimo e bem sinalizado. Pode-se descer em meia hora até às suas margens, onde não chegamos. E a volta?! Bem, na subida, o aclive muuuito acentuado e a altitude de quase 4000m tornam este percurso uma prova para maratonista. Os afoitos podem contratar mulas para içá-los de volta.
A vista da cratera, um espelho esmeralda emoldurado por montanhas onduladas, é de uma beleza ímpar! Já estivemos no Crater Lake, Oregon/USA, e nos lagos do Licancabur, no Chile e, a cada vez, um encantamento primevo.
Setembro

Chegou setembro
Ah! a primavera dos teus olhos…
Doído me lembro
Copyright©2019 Maria Brockerhoff
Zürich – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff
Istambul — Turquia
Türkiye é a terra onde pode-se ir mil vezes… é fascinante. Os bazares, em İstanbul, são um mundo de sons, cores e cheiros. Os queijos enormes, colméias inteiras, doces e especiarias inigualáveis. A gente é bonita e os homens especialmente cavalheiros. Também nas ruas os vendedores são equilibristas.

A visita à Hagia Sophia, à Mesquita Azul — Blue Mosque — e ao misterioso Topkapı — residência do sultão — se equipara a uma inesperada peregrinação, quando se vai pela primeira vez.

Porém, há um lugar impressionante nem tanto frequentado por turistas: a Cisterna da Basílica — Yerebatan Sarnıcı — restaurada há mais de 30 anos, é um retângulo de 10.000 m² e 8 m de altura sustentado por 336 colunas, de vários tipos de mármore, bem abaixo do nível da rua.

Estes reservatórios, muito antigos, eram a provisão de água da cidade e estratégia de conservação, porque o inimigo atacava primeiramente os aquedutos. A água nessas cisternas chegava ao teto.
Atualmente fizeram passarelas por onde percorremos todo o espaço. O nível de água é baixo; se criam carpas para a limpeza do reservatório e sinalizar vazamentos.
A Coluna das Lágrimas veio de Creta, é cheia de olhos que minam as lágrimas dos escravos, daí o nome.

Curiosa a coluna com a cabeça de Medusa colocada de cabeça para baixo, segundo a lenda, por Justiniano para demonstrar que os deuses pagãos estavam mortos. Outros afirmam ser a intenção de neutralizar o olhar mortal da Medusa, uma das três Górgonas da mitologia grega.
A cisterna é um incrível museu vivo e abriga um pequeno palco para concertos. A construção da cisterna é engenhosa no estilo catedral, com 140m de comprimento por 70m de largura, uma escada de acesso com 52 degraus. Esta relíquia ficou esquecida por mais de cem anos até ser redescoberta em 1544 por um explorador francês.
A lembrança deste lugar nos leva lá de volta trazendo a mesma sensação de sossego e encantamento.
Everest ou Disneyworld?
Centenas de pessoas estão nesta fila de espera, por horas, para dar uma olhadinha no topo do Everest, Himalaya — Nepal. Quarta-feira, 22 de maio, três pessoas morreram.

A escalada tornou-se um negócio cada vez mais lucrativo desde 1953, quando o sherpa Tenzing Norgay e o neozelandês Edmund Hillary, pela primeira vez, conquistaram o intocável pico. A permissão de escalada custa US$11 mil. Para esta estação já foram concedidas, pelo Nepal, 381 licenças somente para alpinistas, sem contar 140 licenças para a escalada pelo flanco tibetano. Acrescentando-se os guias, mais de mil pessoas enfrentam este congestionamento no Hillary Step.
No Nepal, o alpinismo, o glamour e as glórias da conquista do Everest são um mundo elitizado muito distante da realidade do gentil povo nepalês. O Himalaya é uma belíssima moldura fora do alcance de quase todos.

Em Kathmandu, o guia comentou, entre divertido e irônico: “aqui, a sola do pé já acabou”, ao esclarecer o desinteresse dos nativos de Kathmandu por escaladas; andam a pé grandes distâncias para trabalhar e tudo o mais.
Além do pesado gargalo na proximidade do cume, um outro desatino neste caminho é o acúmulo de lixo: em abril, foram retiradas 11 toneladas — uma pequena fração do remanescente. Curiosamente, alguns turistas tentam simular a chegada ao cume para receber o certificado, na situação embaraçosa de um casal de indianos em 2018, alterando fotos.
No Bhutan não é permitido escalar as montanhas, a morada dos deuses e, por isso, sagradas.

Neste reino da felicidade, poluir as águas ou cortar florestas atrai doenças e a ira das divindades. Invejável sabedoria!
Hotel-Escola — Alemanha
No Hotel Zugbrücke em Grenzau, o Centro de Treinamento de tênis de mesa tem uma programação especial para crianças, incluindo aulas particulares. Interessa à equipe a descoberta de talentos… quanto mais cedo melhor.
Anton Stefko, o treinador-chefe, é um mágico ao treinar, por exemplo, um menino de 4 anos. Esses treinos, muitas vezes, são gratuitos.
O vilarejo é um jardim só! Até um portão de garagem é uma arte.

E este mercadinho de castanhas no passeio? Ninguém toma conta; o freguês faz o pagamento e o próprio troco; ah! a gentileza do quebrador de nozes… essa gente fina!

Uma boa caminhada leva ao rico museu de cerâmica. Ali, também, uma sala de aula para as crianças se iniciarem nesta arte milenar.

A argila da região especialmente branca e fina atrai artesãos há séculos.

Grenzau é a terra do maior mentiroso do mundo: este viajante destemido — Theodor Schmidt, 1830 a 1890 — contara aos conterrâneos o espanto de não haver, em terras distantes, carruagens puxadas por animais de quatro patas. Havia, sim, um cavalo enorme de aço cheio de gente e de mercadorias, correndo sobre os trilhos e soltando nuvens de vapor. Ninguém, claro! acreditou; daí o apelido “Lügendores” (Theo mentiroso).
…nem sempre se consegue ver além do próprio mundo estreito…

O nosso Theodor teve um glorioso revide em 1884, quando o cavalo de ferro — a locomotiva — apareceu aqui e fez a multidão desabalar num misto de admiração e pavor.