Giant’s Causeway — Belfast

O tal do Giant’s Causeway — a calçada dos gigantes — é magnífico, duvidamos dos próprios olhos! São milhares e milhares de colunas de basalto agarradinhas, formando as mais exóticas figuras geométricas. Em dias claros, avista-se a costa escocesa. Esta paisagem de favos de uma colméia tem origem vulcânica de uma erupção de 60 milhões de anos aproximadamente.

Nesta floresta de pedras uniformes, com colunas de 4, 5, 6, 7, 8 ou 9 lados, parecendo lápis gigantescos de até 12m, avançando sobre o mar, se encaixa perfeitamente a lenda de dois gigantes — um irlandês e um escocês — na construção e destruição do enigmático calçadão, numa disputa de poder.
Através deste calçadão, o gigante irlandês alcançaria a pequena ilha Staffa na Escócia. Lá, a Gruta de Fingal se estende espetacularmente por 80m rochedo adentro. Esta caverna tem a mesma surrealista formação basáltica; veja aí mais uma razão para creditar aos gigantes 😉 esta incrível obra de arte, considerada patrimônio da humanidade.

Próximo do Giant’s Causeway está, entre outras atrações, a Carrick-a-Rede Rope Bridge. É uma ponte de cordas de 20m de comprimento, unindo dois penhascos de 30m de altura; era usada, tradicionalmente, pelos pescadores de salmão. A vista é esplendorosa e uma sensação de plenitude é trazida pelo profundo silêncio só cortado pelos ventos.

A Causeway Coastal Route é considerada uma das mais maiores jornadas do mundo: de Belfast a Londonderry, ou vice-versa. Além de castelos, da Bushmill’s, uma destilaria de uísque de 400 anos, de campos de golfe, é uma rota de descobertas onde a natureza brincou como uma criança livre, travessa e engenhosamente criativa: trilhas, jardins selvagens, florestas, cachoeiras, penhascos banhados pelo mar, este guarda-costas temperamental.

Ao final da tarde até um banco de madeira pareceu aconchegante para um cochilo… os olhos tão cheios precisavam guardar aquelas imagens inesquecíveis!

Atlético e companhia aérea no Marrocos

Parece conexão esdrúxula? Nem tanto.

A multidão atleticana voando para o Marrocos, certamente pela Royal Air Maroc, poderá ter sérios problemas com a desorganização da companhia, como se pode constatar pelas inúmeras queixas no Skytrax. Ontem recebemos pedido de ajuda de passageira cuja mala extraviou-se. O sumiço de bagagem é constante, comum, e insolúvel.

Entre outros problemas, malas de passageiros de origens diversas desaparecem sem deixar vestígios e, na Royal Air Maroc, as queixas, os problemas daí decorrentes, as causas do sumiço, o “destino” (?) das bagagens também tornam-se invisíveis, irrespondíveis, intocáveis, misteriosos e sem vestígios…

As operadoras e agências de viagem sérias e a ABAV (Associação Brasileira de Agentes de Viagem) têm a obrigação de alertar os consumidores da gravidade do problema, já público e notório, na Royal Air Maroc. As seguradoras de viagem sérias também deveriam fazer o alerta.

No caso presente, a seguradora está seguindo o trâmite legal dos prazos e tenta a recuperação da bagagem tão somente na própria companhia aérea.

Claro, extravio de bagagens acontece. Mas aos precedentes, à frequência, ao descaso, à omissão contínua, já não se pode mais chamar de extravio ou perda fortuita. Há outro nome para isso…

Titanic — Belfast

Curtir o luxuoso e romântico navio era um desejo bem forte. O navio foi construído em Belfast, Irlanda do Norte, onde, até hoje, as mesmas companhias mantém os guindastes trabalhando nas docas. O Titanic sempre foi motivo de especulação; a partir de 1985 tornou-se a grande atração na literatura, filmes, pesquisas e fofocas. Naquele ano, Robert Ballard, oficial da marinha mercante americana, professor de oceanografia conhecido e respeitado pelos trabalhos em arqueologia submarina e em naufrágios, descobriu os destroços, depois de varrer com a equipe e o robô Argo centenas de quilômetros no fundo do mar.

Ballard tentou, inicialmente, manter em segredo o exato lugar do naufrágio e impedir a invasão daquele “sagrado cemitério”. Relevante descoberta dessa expedição foi a confirmação de que o navio se partira em dois e a popa sofrera danos muito maiores. O competente oceanógrafo descreveu a primeira imagem da proa:

…rios gelados de ferrugem cobrem os lados do navio e se espalham no fundo do oceano.

Ballard retornou em 1986, desta vez com o submarino tripulado Alvin, para uma pesquisa detalhada do mais famoso naufrágio de todos os tempos. A curiosidade, para o bem ou para o mal, trouxe à tona os mistérios, as histórias e os mitos.

A partir de 1986 a RMS Titanic Inc. dedicou-se a preservar o legado do navio; em sucessivas expedições foram resgatados 5500 artefatos. Com este magnífico acervo, complementados por filmes, fotos e testemunhos vários, a empresa recriou espetacularmente toda a atmosfera do Titanic em exposição por todo mundo.

Não escapamos ao fascínio e já corremos atrás do Titanic: assistimos o documentário de Ballard nos Estados Unidos; visitamos em Halifax, Canadá, o belo cemitério onde estão centenas de vítimas; a gente pôde se arrepiar ao tocar em um enorme iceberg de verdade na primeira exposição da RMS Titanic em San Francisco. Em Denver, Colorado, envolvemo-nos emocionalmente com Molly Brown, famosa sobrevivente do Titanic. Na Irlanda, estivemos em Cobh, último porto de onde partiu o Titanic, hoje museu da emigração.

Titanic/Belfast - Copyright©2013 Rainer BrockerhoffAgora, em Belfast, completamos a peregrinação ao visitar o maior museu do mundo sobre o Titanic. A grandiosidade, o avanço tecnológico, os detalhes, enfim toda a Mostra é comparável à construção do próprio navio. Resumindo:

uma ida a Belfast apenas (!) para reviver todas as emoções daquela viagem e voltar no dia seguinte é altamente compensadora.

Paladas de Alexandria — poeta grego

Também filósofo, do século IV d.C., contestou, duramente, as consequências da transição da cultura grega para o cristianismo.

O tema Tyche — a divindade da má ou boa sorte, fortuna, adversidade, acaso, destino — é muito bem desenvolvido com laivos de humor e ironia. Aqui uns epigramas de Paladas, traduzidos por outro poeta, José Paulo Paes:

Muita coisa pode acontecer entre o cálice e o lábio. (X:32)

 

Enriqueces; e daí? Quando morreres, a riqueza por acaso
te seguirá ao te arrastarem para o túmulo?
No juntá-la gastaste o teu tempo de vida; não poderias
pagar por ela preço mais exorbitante. (X:60)

 

Um palco, a vida e uma comédia; ou aprendes a dançar
deixando a sisudez de lado ou
lhe aguentarás as dores. (X:72)

Autoestima — Poema Urbano

Uma árvore delicada
quase frágil
presa à calçada
se cobre de pendões
amarelos…
iluminam a avenida
cheia de ruídos
e gente distraída
se enfeita
ignora a desfeita
dos desiludidos.

Os galhos floridos
sob a chuva
ou sol matutino
estão plenos abertos
prontos e certos…

Admirável
esse destino!

À recém-formada paisagista Sonia, esta floração!

Copyright ©2013 Maria Brockerhoff

Belfast – Irlanda do Norte

No miolo de Belfast não dá para perceber a, ainda inacreditável, separação entre protestantes e católicos. A cidade é considerada a segunda, depois de Tóquio, em gentileza e boa recepção aos turistas. Saboreamos isto em duas ocasiões quando, na rua, consultávamos um mapa e as pessoas se aproximaram afavelmente para ajudar.

Ainda, próximos aos principais pontos de ônibus, há grupo de rapazes uniformizados orientando as direções e levando os turistas aos ônibus certos — um luxo! Os de turismo percorrem todas as atrações com curtos intervalos e funcionam no sistema dropon/dropoff: o sobe-e-desce-onde-quiser. Quando se sai do centro, a imagem da cidade vai se transformando. Muitas grades, edifícios abandonados, casas e prédios públicos cercados, arame farpado nos muros; é uma pena!

Belfast está empobrecida, como em geral a Irlanda do Norte. Certamente a profunda divisão religiosa (!) tem grande parte na decadência econômica e social. Gera grande perplexidade o alto muro separando os bairros Shankill (protestante) e o mais pobre Falls (católico). Aqui aumenta consideravelmente o abandono, as cercas tomando conta de praças e conjuntos residenciais. Uma funda sensação de impotência ao nos aproximar dos portões que se fecham todas as noites às 21:00, bloqueando entrada e saída entre os bairros.

Há, conforme a imprensa e relatos individuais, ação de grupos paramilitares fomentando a discórdia sob a omissão do governo. Felizmente, há grupos idealistas de católicos e protestantes trabalhando em conjunto para reverter esta realidade. Visitamos um prédio — exatamente no limite dos bairros — com escola, oficinas e campo de futebol onde os jovens dos “dois lados” se encontram, aprendem ofícios e jogam bola. São alentadores o programa e os resultados, lentos mas progressivos, deste pessoal.

Em tempo, perambulamos por dois dias por esses bairros e não tivemos problema algum com segurança.

De Dublin para Belfast, onde passamos três dias, conseguimos atingir nossa proposta já há algumas viagens: turismo leve! Fomos para lá apenas com nécessaire e a mochila com iPad. Sem bagagem a gente já não é mais turista e faz uma diferença impressionante! Só experimentando…

Aparência

Para alguém…

Corres saltitante
para o abismo!
Buscas gente brilhante
só em coluna social.
Gastas dias preciosos
atrás dos poderosos
vazios, tristes, pobres
de prazer e de ternura.
Desperdiças a esmo
tempo, suor, doçura
fugindo de ti mesmo.
Trocas as tuas origens
a emoção mais pura
por luzes e miragens.
Segues a via da loucura!

                 

Além desta carta
Posso ser, apenas, espectador…

Copyright ©2013 Maria Brockerhoff

Blue Jasmine — filme de Woody Allen

Mais uma vez, o grande cineasta desnuda, como por acaso e de forma divertida, a natureza humana. Combina magistralmente humor e profundidade para retratar cada um de nós na tela. É um filme rico para quem estiver disposto a uma viagem interior, a repensar os motivos, as razões do cotidiano e as — aparentemente pequenas — concessões diárias ao parceiro/parceira, à família, ao consumo… enfim, a agir como Jasmine, absolutamente incapaz de conversar sobre a escolha de um possível curso para uma possível profissão.

Certamente muitos pensarão estar aquela gente muito longe de nós; ledo engano! Seguindo a característica principal — a leveza e a ausência de “dramalhão” — Woody Allen mostra como cada uma das irmãs é capaz de enxergar, com lucidez, as soluções… …para a outra! Jamais para si mesma. Outro ponto abordado é a falta de discrição generalizada; todos “contam” tudo de todos. Não há cuidado algum pelo sentimento e pela privacidade do outro.

A vista da baía de San Francisco e da Golden Gate traz saudades, as músicas de primeira, os atores muito bons. Nem faltou a pequena armadilha presente em todos os filmes. Desta vez, Jasmine, em mais um acesso de megalomania, típico de gente insegura e vazia, diz ter viajado de primeira classe. Em retrospectiva, pode-se constatar que os assentos do avião, nas primeiras cenas, não são de primeira; nem mesmo de classe executiva! 😉

O filme nos acompanha e, como toda boa história, continuamos a trama da carente Jasmine e do pessoal em torno como se fizesse parte do nosso aqui e agora.