Remo Olímpico — Lagoa dos Ingleses

A atividade no mar-das-gerais é lazer completo! A lagoa azulada, “quase” a perder de vista, compensa bem a falta de mar nestas terras de montanhas. Nas manhãs claras, o sol refletindo no espelho das águas, as velas, caiaques e lanches nos transportam para longe da cidade grande, do barulho, de multidões, numa viagem rápida e agradável — a Lagoa dos Ingleses está às margens da BR040, a 30km de Belo Horizonte.

No Iate Clube Lagoa dos Ingleses, pode-se velejar, praticar SUP (stand-up paddle) e remar. Não é necessário ser sócio para frequentar os cursos; saber nadar é preciso.

  • O rei da vela é o simpaticíssimo Pedro Basílio, amineirado pelas águas da Lagoa. É campeão e ótimo professor, seguindo as pegadas do pai, também velejador.
    A prova indiscutível do bom resultado das aulas de Pedro é a filha, Fernandinha, 6 anos, exímia nadadora da Academia Nada Melhor, velejando com toda a segurança.
  • O SUP está atraindo adeptos; é a remada em pé sobre uma prancha. Foi inspirado nos instrutores do Havaí, que remavam em pé sobre grandes pranchas de madeira, acompanhando os alunos de surfe. É bem elegante, transmitindo leveza e liberdade.
  • O remo olímpico está sob a batuta, ops! sob o remo, de Augustus e Sandra, apaixonados pelo esporte. O CRALmg — Clube de Regatas Afonso Ligório, que leva o nome do pai de Augustus, tinha sede na Lagoa da Pampulha e mudou-se para a Lagoa dos Ingleses.
    O remo exige esforço e boa coordenação motora. Por isso mesmo, nós escolhemos esta modalidade. O remo olímpico é, depois da natação, um dos mais completos exercícios; desenvolve vários grupos musculares, é antiestressante. No Rio de Janeiro o remo tem sido utilizado como tratamento coadjuvante altamente eficaz para as mulheres com câncer de mama.
    Pesquisas na área de oftalmologia mostraram um aumento significativo de miopia nos jovens das grandes cidades asiáticas, onde a grande massa de edificações impede a visão do horizonte. Assim, remar ou velejar na Lagoa é um plus: a vista do infinito e do por do sol é um bom tratamento para os olhos. 🙂
    Sob a orientação segura de Augustus e de Sandra, a gente já brinca de remador, vai pra mais longe e começa a deslizar!
    O remo é, agora, um grande incentivo para as manhãs de sábado — aulas também às terças e quintas — vamos sem pressa de voltar, as remadas fazem a comida ter um sabor especial na cantina do clube. O final da aula é comemorado com um bom mergulho nas águas limpidamente frias.

Ah, é muito bom! A cabeça se esvazia, vem a sensação de estar inteiramente no aqui e agora… as endorfinas tomam conta…

 

A Confissão de Guimarães Rosa

A genialidade de Rosa dispensa qualquer superlativo. Na centésima leitura ainda há segredos, mistérios e achados.

Em “Jardins e Riachinhos” (1983), Guimarães Rosa faz uma confissão preciosa. É de uma clarividência doída, é um grito de alerta:

Não gosto de falar da infância. É um tempo de coisas boas, mas com pessoas grandes incomodando a gente, intervindo, estragando os prazeres. Recordando o tempo de criança, vejo por lá um excesso de adultos, todos eles, mesmo os mais queridos, ao modo de soldados e policiais do invasor, em pátria ocupada. Fui rancoroso e revolucionário permanente, então. Já era míope e nem mesmo eu, ninguém sabia disso. Gostava de estudar sozinho e de brincar de geografia. Mas tempo bom de verdade, só começou com a conquista de algum isolamento, com a segurança de poder fechar-me num quarto e trancar a porta.

Príncipe Harry — Inglaterra x Costa Rica

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Caiu um príncipe
no buraco fundo
da copa do mundo.
O elegante rapaz
atraiu muita gente
batedores, holofote.
Teve brilho fugaz
o nobre filhote.
Cercado de menina
de mídia cretina
certamente o pobre Harry
trocaria a própria sina
— do pé à medula —
pela alegria simples
do moleque gandula…

Copyright©2014 Maria Brockerhoff

Jardinagem — Horta Vertical

Este mural vivo encantador foi idealizado e executado pela Rosenbaum, uma empresa paulista pioneira e inovadora. Este pessoal cria, inverte, organiza, enfim transforma tudo em arte confortável no Lar Doce Lar, programaTV de Luciano Huck.

Em jardinagem, principalmente, a idéia é tão maravilhosa quanto simples: garrafas PET com ervas de cheiro ou hortaliças. Aqui a jardinagem faz milagres coloridos e cheirosos.

Un Cuento Chino

Um encontro fortuito numa situação incomum pode criar laços pessoais fortes e transformar vidas.

É o terceiro filme escrito e dirigido por Sebastián Borensztein, jovem e premiado cineasta argentino — o primeiro foi “La suerte está echada” — e diretor da série de TV em 69 episódios, “Tiempo final”.

Ricardo Darín (Roberto), Ignacio Huang (Jun) e Muriel Santa Ana (Mari) estão perfeitos na história baseada, conforme a legenda, em um fato real. A veracidade do tal “fato” é questionável. Há opiniões e reportagens para todos os gostos. Contudo, aquelas primeiras cenas, das quais se origina a trama, nos prendem a respiração até às últimas. Ah! a cena final…

Filmado em Buenos Aires, “Un Cuento Chino ” é um bom filme sem tramóias, sem luxo. Apresenta momentos tocantes para um espectador atento, como a imagem de Roberto indeciso diante da fechadura da porta do hóspede intruso! Mostra a desconfiança e a indiferença ao estrangeiro. O roteiro tão bem amarrado nos leva a participar, a sofrer, a dar boas risadas.

Se a mágica de um livro, de um filme, de uma obra de arte, de uma viagem está na surpresa da primeira vez, “Un Cuento Chino” é o máximo desta filosofia de deixar-se surpreender, de permitir a invasão da novidade de experienciar um livro, um filme, uma foto sem uma cartilha-desmancha-prazeres de resenhas indiscretas, resumos e orelhas.

Borensztein, com a grandeza da simplicidade, revela neste drama os mais complicados e cômicos viézes das relações interpessoais. Num lance genial, a quebra da “estante-altar” traz Roberto de volta à realidade, despertando-o do culto alienado à memória da mãe. Claro, isto é uma instigação para você, leitor, ver o filme!

Mari é uma amante alegre, generosa, não-invasiva, dá até vontade de ser homem para se enamorar dela. O chinês Jun é adorável; uma excelente interpretação. Roberto se rende ao misterioso significado da vida e se torna um mestre na definição de Guimarães Rosa:

Mestre é aquele que, de repente, aprende.

La suerte está echada

A origem da expressão, o dado seja lançado ou a sorte está lançadail dado è tratto, the die is cast — é latina: alea jacta est! Júlio César, ao atravessar o Rio Rubicão, 49 a.C., em direção a Roma, desobedecendo ao Senado, lançou este brado cheio de esperança e desespero. Queimar os navios — ordem de Hernán Cortéz — tem significado semelhante. Uma escolha corajosa, uma decisão arriscada e a impossibilidade de retorno.

LSMas, este primeiro filme, 2005, de Sebástian Borensztein — também dele Un Cuento Chino — não carrega essa dramaticidade toda! Pelo contrário, é uma incitante história. Este jovem diretor está se firmando como um bom contador de “causos”. Neste La suerte, Borensztein não dá lições, não tem a pretensão de mudar alguém; conduz o fio com muito humor e sensibilidade.

A orquestra El Arranque, desde 1996, reconhecida pelo talentos dos músicos, já fez apresentações em Hongkong, Itália, Japão, Estados Unidos e no Canecão do Rio de Janeiro. Está perfeita no tango, a alma argentina! Aquele clube é o dos nativos. Já estivemos numa milonga, sem turistas, em Buenos Aires e a atmosfera é mesmo envolvente com a linguagem corporal do tango.

Mais uma vez é interessante perceber a diferença cultural no linguajar porteño. A franqueza é quase rude, o “politicamente correto” não está na moda na Argentina. O gestual completa o diálogo, onde PQP é uma interjeição (!).

LS2Perspicaz é o desenlace da questão amorosa de Clara (Julieta Cardinali) e Guillermo (Gastón Pauls). Inicialmente o término da relação foi muito rápido… y punto! O troco foi incisivo, sem palavras, cortante… y punto. Útil para ser colocado em prática no momento oportuno. Quem vir o filme vai decifrar.

A delicadeza de Felipe (Marcelo Mazzarelo), no final, ao proporcionar ao pai a mais doce das lembranças, revela a reconciliação completa dos laços familiares. Demonstra, ainda, o tesouro de possibilidades do talento do diretor Borensztein, ele próprio um filho amoroso. A preparação persistente de Guillermo, sob a batuta do mestre dançarino, para o tango do amor é a declaração mais eloquente…

Um comentarista argentino, cujo nome se perdeu, avalia este diretor como “incapaz de compreender cinema”, além de considerá-lo “prolixo, reacionário e discursivo”. Encaixa bem aqui o saber da vovó: ah, a inveja é má conselheira!

O clube dos azarados é a melhor das caricaturas, a bazuca é daquelas soluções que a gente acaricia por muitas e muitas vezes e “la mufa” nos deixará rindo bem depois de as luzes se acenderem.

Aeroporto — o melhor lugar…

…do mundo! Aqui cessam as obrigações e as amarras.

Ouvem-se, apenas, queixas contra os aeroportos. Certamente há motivos, mas a gente consegue transformar este quadro. Aliás, tudo nesta vida, todos os acontecimentos têm a coloração, o sabor e o impacto determinados pela postura e pela disposição interior de cada um de nós. Claro, esta teoria é, quase sempre, rejeitada. Sim, é uma tarefa espinhosa reconhecer nossa parte e responsabilidade pelo modo de encarar e reagir aos fatos. Estes são alheios à vontade. A reação, não.

Bem, vamos à prática. Para curtir e transformar o aeroporto — e a viagem — há táticas comprovadas repetidamente. Apenas experimentando-as você verá ser possível executá-las e desfrutar do prazer daí decorrente.

É um método Zen. Calma, muuuita calma:

  • antecipar — sobretudo para si mesmo — a data oficial da viagem para um dia de antecedência. Isto é, avise pra todo mundo o “dia 2”, por exemplo, quando a viagem for mesmo no dia 3. Na volta, o mesmo esquema, para garantir um dia de sossego. Ao invés de “desperdício” de dois dias, esta folga será altamente compensadora;
  • no dia antecedente — “dia 2”, no caso — todos os compromissos, telefonemas, visitas, pagamentos, aniversários, presentes e outras encrencas estão resolvidos: você JÁ viajou!
  • leve isso a sério. Acredite nesta data oficial e terá o “dia 2” para:

    se levantar com calma,
    tomar lauto café com música,
    desligar telefones e internet,
    especialmente o Sr. Celular seu chefe,
    um banho comprido e namorar;

  • a malinha — quanto maior a mala, maior a insegurança do passageiro — já fechada proporciona ao corpo e mente o início de relaxamento para se incorporar à leveza Zen;
  • no dia seguinte — esta tática pode-se botar em prática sem delongas — a saída para o aeroporto será com quatro horas de antecedência. Aqui, uma regra de ouro: vá SEM carona. Recuse firmemente qualquer oferecimento. Uma chatice levar alguém ao aeroporto. Chatice ainda maior é buscar! Amigos e familiares ficarão sinceramente surpresos e agradecidos;
  • a ida ao aeroporto JÁ é a viagem! Com o exercício Zen é possível e gostoso deixar os olhos e a mente deslizarem pelas ruas, construcões, buracos, jardins, lixo, pessoas… a cidade será outra;
  • são quatro horas de antecedência, sim; pois no check-in antecipado as atendentes estão mais solícitas. Não há os aflitos empurrando um monte de malas, bolsas e mochilas sobre os outros, como se o balcão fosse desaparecer;

  • agora, com apenas uma nécessaire — ah! o luxo da leveza! — um tour, preferencialmente sozinho/a, pelos arredores. Nos aeroportos há os refúgios silenciosos e desertos de templos/capelas; alguns surpreendentes. Há exposições de bordados, artesanato, antiguidades, fotos, livrarias, jardins, bons restaurantes… etc. Com disponibilidade encontramos pessoas inteligentes e bem-humoradas. Há cantinhos escondidos, onde se pode ler sossegadamente e até meditar;
  • os lounges das companhias aéreas, também quando se chega mais cedo, são um mini-hotel com boa comida, sofás macios e banho confortável;
  • desligue-se da previsão do tempo. Agora, no aeroporto e para a viagem, a sorte está lançada: sol, chuva, vento, frio, calor estão fora de controle. É lamentação inútil, melhor aproveitar;
  • nada de entrar em lojas! Enquanto a gente fizer compras não há, realmente, viagem. Diferentemente é deixar-se perder nos bazares orientais, mercados e feiras étnicas;
  • viajar com familiares e amigos de longa data traz vantagens. Contudo, esta “juntidade” impede o inestimável benefício de viajar: a releitura à distância do habitat, da convivência e do cotidiano. Este distanciamento traz insights inesperados.
  • Duas regrinhas para minimizar arrependimentos:
    • marcar hora e lugar de reencontro, para que cada um possa ceder espaço e tempo ao outro;
    • instituir o sagrado direito de ninguém esperar ninguém. A não ser, claro, para quem não consegue ficar consigo mesmo — aí não tem remédio, “não tem jeito mesmo”, nem viagem!

As pessoas viajam. Muitas vezes, na volta nada trazem. Vão, mas a viagem não volta com elas.

Curta ou longa, uma viagem significa via de mudança. Ver, cada vez, como se fosse a primeira… incluindo o aeroporto.

Andanças

As Erínias caem no mundo: Lisboa, Munique, Nova Delhi, Sikkim, Bhutan, Nepal, Nova Delhi, Verona, Veneza, Montenegro, Atenas, Ilhas Gregas, Lisboa.

• Muito agradável Lisboa, como sempre. Os portugueses… se pedimos informações ou puxamos papo… são prestativos e amáveis. A Fundação Gulbenkian e suas preciosidades valem a visita.

O Oceanário de Lisboa é muito bem cuidado e a gente se sente tão pequeno naquela beleza toda.

Desta vez quisemos percorrer o itinerário de Raimundo, o personagem de “A História do Cerco de Lisboa”. Este livro de José Saramago é pra ser lido mil vezes! Sim e sem exagero! Esta oitava leitura ainda traz espanto, encantamento, descobertas. Desconfio serem autobiográficos os traços do inefável romance descrito ali. Este SaraMago das palavras é um saraMágico da narrativa!

Munique é uma mistura de tradição e modernidade. Em meio a uma praça com edifícios ultra-avançados, uma escultura revela uma história do século XI. O bonde, metrô, ônibus, rigorosamente pontuais circulando entre parques com lagos e jardins, as bancas de frutas e dálias exuberantes amenizam a cidade grande.

Também os sinos em todas as praças — em geral, só para pedestres — dão um toque especial. As lojas de chás e especiarias nos transportam para lugares exóticos. O cheiro é delicioso!

O Palácio Nymphenburg, antiga residência de verão do rei da Bavária, é imenso, recortado por fontes e jardins. A bomba d’água do sistema de irrigação funcionou do século XVII até 1804, quando foi “modernizada” e até hoje está firme, a mais antiga da Europa!

Munique, desta vez, nos reservou uma agradável surpresa. Geralmente, os lugares públicos são para exposição de produtos à venda, propagandas, etc.. Aqui num espaço ao ar livre, dia e noite, em frente ao Gasteig — centro cultural sede da Orquestra Filarmônica — está um piano aberto. Ao lado, um convite: “Spiel mich” — toque-me! Assim, quem se sentir habilitado pode dar um concerto ali mesmo. Um jovem tocou muito bem para o enlevo dos passantes deliciados com o inesperado presente musical. Não é uma excelente idéia?