Vasa — o resgate de um navio

Em Stockholm, Suécia, todos os caminhos levam ao Vasa Museet. A história deste navio ultrapassa qualquer ficção.

Vasa, Suécia – Copyright©Peter Isotalo, Creative Commons

O Vasa — nome da dinastia — afundou numa clara manhã de 10 de agosto de 1628, em poucos minutos, a 1300m do porto do arquipélago de Stockholm, diante do rei, de toda nobreza e de convidados ilustres. Dos 445 tripulantes e soldados pereceram entre 30 e 50 pessoas.

Na maiden voyage — viagem inaugural — a nave mais potente da marinha sueca, a menina dos olhos de Gustavo Adolfo II, inclinou-se sob uma rajada de vento; a água infiltrou nas canhoeiras abertas e a obra-prima desapareceu nas profundezas do Báltico. Aí permaneceu por mais de três séculos.

Vasa, Suécia – Copyright©Rainer Brockerhoff

O Vasa foi projetado corretamente; contudo o rei fez exigências extravagantes para o seu palácio flutuante. Por exemplo, transportar 64 canhões, o dobro do peso previsto. A idéia do resgate, por volta de 1950, veio de Anders Franzén, arqueólogo e técnico naval. Com a obstinação dos visionários, Franzén localizou o navio e a ressurreição do Vasa levou 30 anos! Somente a retirada do mar exigiu quatro de trabalho árduo. Os mergulhadores furaram túneis sob o casco, lançaram cabos de aço e içaram o navio com o madeirame praticamente intacto.

Vasa, Suécia – Copyright©JavierKohen, Creative Commons

O motivo do bom estado da madeira é também uma grande sorte: o molusco Teredo Navalis é um devorador de madeiras de navio. Não teria sobrado uma lasca do Vasa se o Mar Báltico não estivesse poluído e se fosse mais salgado. O gosto das águas salobras não são do paladar do Teredo.

O Vasa Museet foi construído especialmente. São 7 andares de onde se vê tudo de todos os ângulos. Há réplicas de compartimentos onde a gente pode entrar, bisbilhotar, como se estivesse navegando…

Vasa, Suécia – Copyright©Peter Isotalo, Creative Commons

A equipe altamente especializada conseguiu montar o gigantesco quebra-cabeças das milhares e milhares de peças soltas, 700 esculturas de leões, deuses, heróis gregos e romanos, animais marinhos, símbolos da cultura sueca e ambições políticas; eles refizeram, também, esqueletos humanos e pertences.

Vasa, Suécia – Domínio Público

Para a preservação das velas, da madeira, das cores reavivadas cuidadosa e fielmente, a temperatura tem de ser muito baixa e a luz comedida. Tudo aqui exige manutenção contínua. Um ritual cotidiano reconhecido pelos 1 milhão de visitantes / ano.

O resgate e a reconstrução representam uma esplêndida odisséia. Aqui a atmosfera do passado, futuro, devaneio, aventura nos faz ficar suspensos…

Mauritius — Oceano Índico

As Ilhas Mascarenhas — descobertas pelo português Pedro Mascarenhas em 1505 — compreendem Mauritius, Réunion e Rodrigues perdidas em um Éden tropical, sudeste de África. As extensas areias brancas e vegetação exuberante.

Mauritius – Autor ignorado

De Seychelles, o navio MS Amadea rumou para a República de Mauritius, a aproximadamente 1700km; depois de quase 3 dias em alto mar, aí está…

Mauritius – Copyright©2013 Miwok

A ilha vulcânica é próspera, uma rica cultura preservada, há séculos, por indianos, creoles, chineses, franceses, holandeses, portugueses e africanos. É a maior renda per capita da África. Port Louis é a capital colonial:

Caudan Waterfront, Mauritius – Copyright©2017 Rainer Brockerhoff

A população multiracial favorece o exercício cotidiano da cidadania e da tolerância. São perceptíveis a tranquilidade e o viver democrático pela variedade de sotaques ouvidos nas ruas da capital: créole, hindi, tamil, marathi, além do francês, inglês… …envolvidos pelas músicas e danças contagiantes. Há ainda o fator principal para esta convivência: em Mauritius não há religião oficial e, portanto, nenhuma restrição a qualquer culto.

Port Louis, Mauritius – Copyright©2017 Rainer Brockerhoff

Port Louis é o ponto de partida para os melhores mergulhos do mundo e para qualquer outro desejo de trekking, balões, cavalos e esportes aquáticos. O litoral brasileiro tem praias belíssimas, sem dúvida. Contudo a diferença indiscutível é a limpeza e a segurança nestas ilhas.

Mont Choisy, Mauritius – Copyright©2017 Rainer Brockerhoff

A França dominou Mauritius entre 1710-1810. A princípio, como aconteceu em outras regiões, os indianos foram enganados por falsos contratos e viveram, por muito tempo, em regime de severa escravidão. Desde 1968 não se tem notícias de disputas políticas ou militares, levantes e ditadores. Vigora o sistema democrático parlamentar com eleições regulares a cada 5 anos para os chefes de estado e de governo.

Imagens contrastantes de Port Louis moderna…

Caudan Waterfront, Mauritius – Copyright©2017 Rainer Brockerhoff

…e o mercado antigo, a ainda efervescente Chinatown…

Chinatown, Mauritius – Copyright©2017 Rainer Brockerhoff

O nome Mauritius foi homenagem ao princípe Maurits van Nassau, aquele mesmo holandês apelidado de “o brasileiro”, cuja excelente administração (1637-1644) iria transformar Recife em uma cidade moderna. Cabe aqui uma indagação: como teria sido o Brasil holandês? Apesar de toda a crueza envolvida em uma colonização, as ocupações holandesas tiveram um nível de desenvolvimento razoavelmente mais alto.

A ilha ocupa o terceiro lugar em produção mundial de açúcar. Cultiva-se também tabaco, flores e chá. Por falar nisto, experimente nestas tardes quentes o chá das ilhas: um punhado de capim-cidreira, torcer bem ou picar ou bater no liquidificador; colocar água quente, abafar e… geladeira por 2 dias antes de coar. Uma delícia!

Aqui se fabricam navios em miniatura; depois de 200 horas de trabalho manual, o resultado é a mais requintada das artes. O Jardim Botânico é um dos mais bonitos do mundo. Vimos, também, o selo “Mauritius Two-Penny”, avaliado em torno de US$2 milhões.

©Petr Kalivoda, Wikimedia Commons

A nota dissonante na Ilha Rodrigues é a pesca incessante e prolongada de octopus. Nesta atividade, as mulheres vêm quebrando os corais. Os polvos dependem dos corais e, assim, ambos estão em risco de extinção. Este trabalho típico de mulheres beira a crueldade; é pouquíssimo dinheiro e drásticas as consequências ambientais.

Mark Twain, o pai da literatura americana, em definição primorosa:

Criou-se Mauritius primeiro, depois o paraíso foi a cópia.

Mamirauá — comunidade Caburini

Aqui, a marca indelével é a diversidade deste mundo de águas. Visitamos Caburini descendo pelo rio Japurá. As margens oferecem o toque pitoresco das moradias…

Rio Japurá, Amazonas – Copyright©2017 Rainer Brockerhoff

…as esculturas…

Rio Japurá, Amazonas – Copyright©2017 Rainer Brockerhoff

…o vai-vém…

Rio Japurá, Amazonas – Copyright©2017 Rainer Brockerhoff

Impressiona a boa adaptação dos bichos e dos homens. Nas cheias, as onças, por exemplo, se empoleiram nos galhos mais altos das árvores. A comunidade Caburini transporta as casas conforme o deslocamento do rio nas cheias. É uma praia de areias ricas em nutrientes transportadas pela correnteza. Perfeito o banho nas águas mornas do rio!

Comunidade Caburini – Copyright©2017 Maria Brockerhoff

É frequente, também, elevar o nível das “pernas” das palafitas, pois a água chega a ultrapassar os 5 metros. Implantaram a boa idéia de uma cozinha comunitária; cada qual leva um ingrediente.

Comunidade Caburini – Copyright©2017 Rainer Brockerhoff

Os ovos de tartaruga são cuidados e protegidos sob orientação do patriarca, seu Sandro. Para multiplicar a sobrevivência, enterram-nos mais perto de suas palafitas e ajudam os filhotes a alcançar o rio. Afastam os pássaros fregueses do manjar de ovos!

Comunidade Caburini – Copyright©2017 Rainer Brockerhoff

Aqui vive a maioria dos funcionários da Pousada Uacari. A criatividade dessa gente amável atinge o máximo nessa academia; aí o seu Sandro “puxando ferro”:

Comunidade Caburini – Copyright©2017 Maria Brockerhoff

Os frutos de Mamirauá se devem à iniciativa de mentes brilhantes e dos saberes dos ribeirinhos longe dos centros do poder e de gente cheia de teoria. O grande mérito de Marcos Ayres foi acolher o jeito de cuidar dos bichos e plantas transmitido pelos bisavós, acrescentando-lhes a técnica adequada e pesquisa científica. A participação dos ribeirinhos tornou-se fundamental para fixá-los à terra de origem, incentivo à propriedade privada e à limpeza das áreas sem uso do fogo.

Ao voltar, é forte a sensação de ter vivido nem um milésimo de toda a fartura deste universo.

Reserva Mamirauá, Amazonas – Copyright©2017 Maria Brockerhoff

Mamirauá, au revoir

Para contato: Andarilho da Luz / Reserva Mamirauá.

Mamirauá — o reino das aves

O regime de enchentes e vazantes estabelece modus vivendi específico e diferente para bichos, peixes, aves, plantas e ribeirinhos da Reserva de Mamirauá. Nas cheias, de dezembro a maio, 1 milhão de hectares ficam submersos. Na seca, de junho a novembro, a admirável cigana ou hoatzin

Hoatzin em Mamirauá – Copyright©2009 Pedro Meloni Nassar

…as garças elegantes…

Mamirauá, Amazonas – Copyright©2017 Rainer Brockerhoff
Mamirauá, Amazonas – Copyright©2017 Rainer Brockerhoff

… e os biguás, úteis fiscais das águas limpas, não se alimentam em águas poluídas.

Mamirauá, Amazonas – Copyright©2017 Rainer Brockerhoff

Exímios mergulhadores preferem peixes pequenos, não representando assim concorrência para os ribeirinhos que os protegem. Aí o merecido descanso depois do expediente.

Mamirauá, Amazonas – Copyright©2017 Rainer Brockerhoff

Embaixo destas árvores, nas cheias, alguns peixes fazem cavernas nas margens e ali depositam ovos; pode-se ver este “estacionamento” de buracos. Também nas cheias, em uma adaptação formidável, outros peixes se alimentam dos frutos altos das árvores e desovam entre suas raízes. As enchentes podem alcançar até 15m ou mais. O único meio de transporte é o barco.

São preciosas as fotos de aves do biólogo Pedro Nassar, gentil guia bilingue da Pousada Uacari. É uma fartura; há passeios exclusivos para observação de aves. Este Uirapuru-de-chapéu-azul é mais um presente de Pedro.

Uirapuru – Copyright©2015 Pedro Meloni Nassar

Mesmo com todos os cuidados da Reserva de Mamirauá há, na Amazônia, segundo estudos recentes, 48 espécies de aves ameaçadas de extinção, principalmente pela implantação de hidroelétricas e do desmatamento. Estes passarinhos enfrentam, sim, a ameaça cruel: a indiferença do homem…

Mamirauá — Pousada Uacari

Logo depois da confluência dos rios Japurá e Solimões entra-se no Canal Mamirauá… aqui a primeira imagem — ou será uma miragem? — das telhas cor de tijolo feitas de garrafas-PET ao estilo das ilhas do Pacífico sul: a Pousada.

Pousada Uacari, Mamirauá – Copyright©2017 Rainer Brockerhoff

O visionário e brilhante biólogo Márcio Ayres anteviu, num projeto pioneiro de 1997/99, uma reserva ambiental protegida cuidada pelos ribeirinhos, os legítimos senhores da floresta.

Reserva Mamirauá – Copyright©2017 Rainer Brockerhoff

Este incrível primatologista tornou possível a utopia de promover o manejo sustentável dos recursos naturais com a efetiva participação das seis comunidades integrantes da reserva.

Comunidade Caburini, Mamirauá – Copyright©2017 Rainer Brockerhoff

A região é muito quente; a umidade triplica a sensação térmica. Assim, os passeios são, inteligentemente, programados para bem cedo e à tardinha. Ao meio-dia, o zênite solar leva todos — até os jacarés vizinhos — a uma reparadora soneca depois do delicioso almoço. A temperatura e a umidade nos fizeram antecipar a volta!

Pousada Uacari, Mamirauá – Copyright©2017 Rainer Brockerhoff

A varanda traz o gostoso e cantante silêncio das águas… as fotos são apenas desbotadas imagens…

Pousada Uacari, Mamirauá – Copyright©2017 Rainer Brockerhoff

O exótico macaco Uacari — o querido de Marcio Ayres — corria sério risco de desaparecer, assim como peixes-boi, pirarucus, tracajás e, em consequência, outras espécies endêmicas. Hoje essas espécies se multiplicaram e a degradação regrediu drasticamente. Ainda há muito trabalho, mas o resultado de Mamirauá, através do desenvolvimento e capacitação das comunidades deveria ser buscado por todo este Brasil.

No próximo post: pássaros e mais surpresas!

Mamirauá — no fundão da Amazônia

Aqui o viajante apreciador dos mistérios dos rios e das florestas vai descobrir um lugar maravilhoso! Já o turista apressurado poderá submergir em ondas de tédio.

Mamirauá, Amazonas – Copyright©2017 Rainer Brockerhoff

A aventura começa com um pernoite em Manaus. O Teatro Amazonas é muito elegante:

Teatro Amazonas – Copyright©2017 Rainer Brockerhoff

Em um vôo de 50 minutos chega-se a Tefé. A cidade bem antiga com, aproximadamente, 70 mil habitantes, era a região dos índios Tapibas e centenas morreram na luta contra os espanhóis.

Tefé, Amazonas – Copyright©2017 Rainer Brockerhoff
Tefé, Amazonas – Copyright©2017 Rainer Brockerhoff

Na região cultiva-se a mandioca brava para a produção de farinha e, também, a macaxeira para o consumo culinário. A venda e compra de peixes é importante fator econômico. Incontáveis barcos de todos tipos, apinhados de gente, cortam de cima a baixo o lago formado pelo rio Tefé, afluente do Solimões.

Tefé, Amazonas – Copyright©2017 Rainer Brockerhoff

No porto o esgoto corre a céu aberto para o rio, parecendo bem precário o recolhimento de lixo. Aliás, o hábito de brasileiros jogarem tudo na rua é incompreensível e, infelizmente, impõe-se uma conclusão: se nós somos incapazes de um ato civilizado tão simples, jamais alcançaremos a cidadania.

Tefé, Amazonas – Copyright©2017 Rainer Brockerhoff

Neste porto embarcamos no barco da Pousada Uacari para uma imersão na floresta. São deliciosos 90 minutos flutuando entre árvores, flores, frutos e pássaros.

Mamirauá, Amazonas – Copyright©2017 Rainer Brockerhoff

Na várzea entre os rios Solimões e Japurá entra-se pelo Canal do Lago Mamirauá. Aí, presa às margens por cordas a pousada flutuante Uacari, nosso destino.

Lagoa do Cassange — Bahia

A massa de água doce com 1500m de comprimento, bem próxima do Oceano Atlântico, se esconde na Península de Maraú — Costa do Dendê, sul da Bahia.

Lagoa do Cassange – Copyright©2017 Rainer Brockerhoff

O nome Maraú vem da antiga aldeia indígena Mayrahú descoberta por frades capuchinhos em 1705; está a 140km do aeroporto de Ilhéus. Chega-se à Pousada do Cassange pela rodovia BR101, com uma parte de terra. A viagem é agradável, com muito verde e vista para o mar.

Por esta trilha no meio do mato, bem pertinho da pousada, chega-se à lagoa.

Lagoa do Cassange – Copyright©2017 Rainer Brockerhoff
Lagoa do Cassange – Copyright©2017 Rainer Brockerhoff

Aqui, nesta reserva da Mata Atlântica, é ótimo para esportes à vela, stand-up, caiaque e repouso na água.
Esta singular arquibancada nos reserva um luminoso entardecer.

Lagoa do Cassange – Copyright©2017 Rainer Brockerhoff

A Pousada do Cassange, em meio a belíssimos coqueiros e bromélias, oferece estes chalés com rede, ar condicionado, sossego.

Lagoa do Cassange – Copyright©2017 Rainer Brockerhoff

Da varanda deste chalé abrem-se a infinitude e o balanço do mar.

Lagoa do Cassange – Copyright©2017 Rainer Brockerhoff

As ondas valentes e mornas são massagens revigorantes e saram tudo! Todo o tempo é curto. Daí ser inexplicável o turismo-vitrine, quer dizer, “observar apenas”… a uma distância regulamentar. A propósito, e para reflexão, um comentário no livro de hóspedes:

Mar maravilhoso. Desta vez, entrei pouco, não faz diferença, porque voltarei ano que vem.

Não é mesmo um grande desperdício deixar para o “ano que vem” tudo isso?

Lagoa do Cassange – Copyright©2017 Rainer Brockerhoff

Fizemos a viagem pela Andarilho da Luz, inclusive o transporte de ida e volta para Ilhéus. Nas imediações há dezenas de outras praias e cidadinhas antigas, além da Cachoeira de Tremembé.
Nosso motorista e guia — Zé Domingos, (73)99824-8297, muito eficiente e bem-humorado — nos levou, também, às piscinas naturais de Taipu de Fora e nos apresentou a elegante graviola:

Lagoa do Cassange – Copyright©2017 Rainer Brockerhoff

No restaurante com deliciosos e fartos frutos do mar, Helinho e todos da jovem equipe são muito acolhedores e nos fazem querer voltar.

Especial para Advogados

Uma Decisão de Peito

Estou acanhado, nem sei por onde pegar este assunto sucinto:
um solerte advogado, possivelmente de pasta preta, não sei, indo ao Forum da Justiça Federal no Rio para cuidar de processos, topou pela frente com determinada funcionária, cujos seios saltavam aos olhos.

Faço aqui um parêntese: vejam como a língua brasileira é safada. Quando escrevo que os seios saltavam aos olhos quero dizer os olhos é que pularam para os seios, visto que estes não saltam, pois a natureza os fez presos e seguros. Ao mesmo tempo, quero significar que os seios eram vistosos.

Entendido?
Fechar o parêntese.

Que faz o advogado? Em vez de requerer em juízo a juntada aos autos, conforme determina a boa processualística, quis fazer justiça pelas próprias mãos e agarrou-os (os seios), presa de incontida emoção, num arroubo que, francamente, só se entende perante jurados.

Não sei como qualificar o gesto.
Atentado violento ao pudor?
Apropriação indébita?
Tentativa de seqüestro?

Sei apenas que a funcionária, embora pública, teve bons motivos privados para protestar, e o fez, numa representação ao diretor do Forum.

Formou-se o processo, e imagino sua finura. Deve ter dado um romance, este opinando assim, aquele opinando assado, um outro pedindo que se ouvissem as testemunhas; enfim, essas coisas todas que a justiça é obrigada a suportar todos os dias.

Corria a coisa na órbita federal, até que os seios foram parar nas mãos do Tribunal Federal de Recursos, que não sabia onde botar aquilo. Reúnem-se os juízes, atarantados. Mexe daqui, mexe de lá, verifica-se que não há jurisprudência firmada sobre o assunto.

O que faz o Tribunal? Lava as mãos, sob a alegação de que a Justiça Comum é que deve cuidar do caso — da mesma forma como trataria, digamos, dos seios de uma comerciária, de uma fazendeira, de uma operária.

O entendimento do Tribunal Federal de Recursos é bastante claro:

“Quem se descontrola perante a beleza estética de uma funcionária pública federal e lhe agarra os seios não comete nenhum crime que deva ser apurado pela Justiça Federal, mas sim pela Justiça Comum dos Estados. Os seios da funcionária não são próprios da administração pública, nem quem os toca comete uma infração ao exercício normal da função.”

Decisão exemplar.

Vejam bem que não se trata aqui de permitir aos advogados o descontrole perante a beleza estética, isso não, pois haveria uma corrida aos cursos jurídicos, que já abundam, em busca de tão esdrúxulo privilégio. Amanhã estaria a enorme população de beca e capelo trocando os pés pelas mãos.

Em absoluto. Continua terminantemente proibido bulir nos seios no recinto do Forum, dentro ou fora do expediente. Este é o ponto que deve ficar bem claro: os infratores serão julgados pela Justiça Comum.

De outra parte, fica-se sabendo que não há seios federais.
Todos os seios são estaduais. E não são próprios da administração.

Cada funcionária deve, pois, administrar o que lhe pertence de direito. De resto, os seios não são públicos; antes, estão subordinados à iniciativa privada, que se encarregará de resguardá-los e defendê-los na medida das necessidades.
Que cada um saiba, pois, onde os deixa e onde bota a mão.

O Tribunal Federal de Recursos manifestou-se com sensatez. Provou, mais uma vez, que a Justiça é mulher experiente e de peito. O erro foi do advogado: acreditou naquela história de que a Justiça é cega.
No Forum, tudo se sabe, doutor.

Crónica de Lourenço Diaféria, 11/1976,
coletada em “Circo dos Cavalões”.

Seychelles — Oceano Índico

O nosso berço esplêndido nos oferece milhares de quilômetros de litoral; ninguém precisa procurar praias estrangeiras… se, mesmo assim, tiver forte comichão vá para o Arquipélago das Seychelles.

La Digue, Seychelles – Copyright©2017 Rainer Brockerhoff

Costa leste — África

Seychelles são um dos países mais ricos da África, com 81 mil habitantes. Fala-se Kreol Seselwa — uma linguagem crioula, derivada de uma mistura de outras línguas — além de francês e inglês. A capital é Victoria, na ilha Mahé.

Centro de Victoria, Seychelles – Copyright©2017 Rainer Brockerhoff

O arquipélago de 115 ilhas é um santuário para fauna e flora. O mundo misterioso dos peixes nos é revelado por snorkel nas águas transparentes. Aqui o cheiroso Jardin du Roi de especiarias e de plantas raras:

Jardin du Roi, Seychelles – Copyright©2017 Rainer Brockerhoff

Interessante e exótico o coco-de-mer — um “cocão” gigante, aliás a maior semente do mundo — é produzido pela palmeira Lodoicea Maldivica, endêmica das ilhas Praslin e Curieuse. O coco atinge 30kg e a palmeira pode viver mais de 200 anos.

Coco-de-mer, Praslin, Seychelles – Copyright©2017 Rainer Brockerhoff

As tartarugas daqui se equiparam às de Galápagos. Estivemos nas Ilhas Mahé, Praslin e La Digue. Em algumas ilhas, o governo exige, apropriadamente, autorização para visita; são reservas ambientais.

A música de raiz africana é contagiante e a dança reflete a alegria dos seychellois. Aqui, em La Digue, um silêncio incomparável:

La Digue, Seychelles – Copyright©2017 Rainer Brockerhoff
La Digue, Seychelles – Copyright©2017 Rainer Brockerhoff

Nesta vila, em Praslin (pronuncia-se Pralã) a proibição de carros traz tranquilidade, conforto e, felizmente, nada de shopping centers. O comércio é aí mesmo debaixo das árvores, com um dedo de prosa e frutas frescas:

Praslin, Seychelles – Copyright©2017 Rainer Brockerhoff

É uma nação créole com raízes multiétnicas, essencialmente matriarcal. As mães solteiras tem status legal e os pais são obrigados a dar suporte financeiro. Escola pública até os 18 anos, livros didáticos gratuitos. A idade para o casamento é a partir de 15 anos; isto ainda reflete costumes ancestrais.

Na despedida, esta ilhota fica gravada na retina…

Seychelles – Copyright©2017 Rainer Brockerhoff

Gabriel García Márquez — Doze Contos Peregrinos

Estes “Doze Contos Peregrinos” foram escritos ao longo de 18 anos e são recordações de viagens pela Europa. Eram 64 e sobraram este doze contos da “incessante peregrinação de ida e volta ao cesto de lixo“, como nos conta García Márquez; acrescenta, ainda, o curioso episódio:

já que eu havia descrito de memória e à distância as diferentes cidades da Europa onde os contos acontecem, quis comprovar a fidelidade de minhas recordações de quase vinte anos depois e empreendi uma rápida viagem de reconhecimento a Barcelona, Genebra, Roma e Paris. Nenhuma delas tinha nada a ver com as minhas lembranças.

Estes depurados contos são preciosos. Cada um, entremeado com o realismo mágico, nos transporta a um mundo interior de sentimentos doloridos, ternos, disfarçados.
O mundo surreal do mago de Aracataca, Colômbia, retrata o cotidiano de cada um de nós com uma força tão grande, a tal ponto de nos obrigar negá-lo por insuportável.
Gabo, como os amigos o chamavam, íntimo de todas as grandezas e de todas as misérias humanas, é filósofo, xamã, poeta, pajé, mestre, artífice da palavra.

Dos subtextos surgem setas indicando, para quem quiser ver, o caminho ou a busca interior, muitas vezes desesperada. Tais escritos valem séculos de psicanálise.

Um outro livro de García Márquez, “A Incrível e Triste História da Cândida Erêndira e sua Avó Desalmada“, aponta o norte na bússola desorientada da vida.