ano novo?
novo apenas o ovo…
tudo o mais
está manchado
está corroído
está moído
novo apenas o ovo…
tudo o mais
está gasto
está sujo
está podre
está roto… o odre
Copyright©2011 Maria Brockerhoff
Correria no ponto de ônibus, empurrões, o velho caiu. Seu mundo escureceu. Lá no fundo uma fresta: um sorriso quente atrás da mão estendida.
Copyright©2010 Maria Brockerhoff
A escravidão do milênio. O servo obediente interrompe o jantar, o diálogo, até o amor. Reage ansioso ao sinal: pois não, meu senhor celular!
Copyright©2010 Maria Brockerhoff
As crianças são terreno fértil; recebem indiscriminadamente presentes, honras, mercês, agrados, lisonjas, exceto limites. Crescem ditadores.
Guarda-velhos: clínicas onde filhos depositam os pais. Espoliados da esperança e sugados pela ambição. Juízes cúmplices concedem interdição.
O preso cabisbaixo. Policiais enxotaram todos do velório. Silêncio de pedra. Mãos algemadas às costas. O rapaz roçou o rosto na face da mãe.
Copyright©2010 Maria Brockerhoff
Haikai, haiku ou haicai é uma forma de canto; é aparentemente simples mas profundo, delicioso.
Ressalvadas as diferenças semânticas e a tradução, o poema japonês — adaptado, claro, a cada cultura — é um lampejo, uma forma de meditação, capta o silêncio, o efêmero, o eterno…
Numa linguagem depurada, o haicai não explica, flui.
Suas origens são muito antigas, provém do tanka, do renga, uma sequência de estrofes. O grande Bashō (1644-1694) é o mestre desta arte; de seu discípulo Issa (1763-1826):
Crisântemos florescem
junto ao monte de estrume
uma só paisagem
O haicai sempre teve 17 sílabas ou sons — 5, 7, 5 — diz o máximo em 3 linhas; não é provérbio ou “pensamento”; pode ser ironia, introspecção, humor, sempre traz um “encanto intraduzível” (conforme Afrânio Peixoto, 1919) ou, como bem definiu Paulo Franchetti, “com o mínimo obtém-se o suficiente”.
Osório Dutra (1889-1968) afirmou que a poesia do Japão era pobre e o haicai fruto desta pobreza… estariam verdes as uvas…?
Importante mesmo é saborear o haicai dos bons autores:
Borrão azul
na brancura da página
o poema
Albano Martins, 1930
Festa das flores
acompanhando a mãe
uma criança cega
Herberto Helder, 1930
As flores tantas
o outono
nem sabe a quantas
Paulo Leminski, 1983
Tem cautela
ajuda o sol
com uma vela
Millôr Fernandes
O pato, menina
é um animal
com buzina
Millôr Fernandes
…avenida Pedro II, trânsito lento, casario feio, passeios cheios de lixo; à direita, avenida Bias Fortes; o viaduto enegrecido completa a paisagem desolada da cidade grande.
Logo depois da esquina, uma massa dourada à direita, um oásis de flores amarelas, algumas pétalas esvoaçando…
a rua se iluminou
a feiura sumiu
os cachos coloridos penetram a retina
um fio de esperança desponta.
Este Ipê magnífico, como o são todas as árvores, recebe em troca as queimadas, as serras elétricas e a derrubada para os blocos de cimento disfarçados em áreas de “lazer” e em espaços “gourmet”.
Oh! humanidade desvairada…
Que venha o outro dilúvio!
Penso ser preocupante este livro, de W. P. Young, ocupar o primeiro lugar em vendas na última semana na lista da Livraria Leitura.
Certamente o marketing de promoção do tal é o melhor do mundo! Conseguiu uma vendagem extraordinária para um livro medíocre. Há tantos livros nacionais mais úteis, mais divertidos e substanciosos.
A Cabana foi reescrita quatro vezes antes de ser recusada por 26 editoras. Finalmente, dois produtores de cinema criaram uma editora e, então, publicaram o barraco (ops!).
A primeira parte tem enredo razoável, mas o desenrolar da visita ao casebre é piegas; o consolo é uma sequência de chavões e duvidosas respostas de cunho religioso; a solução do crime é um mix de revelação sobrenatural, adivinhação e muitas coincidências… inclusive a conservação de indícios por um tempo longo.
Há quem diga que é um livro “para os sofredores”; gosto não se discute… lamenta-se.
Outros o indicam como auto-ajuda, parece ser este o grande lance marqueteiro: o livro trará a receita para todos os males da tristezas…
Para as Erínias, o sofrimento, às vezes, é inevitável, mas o masoquismo é opcional!
Os bons livros de “auto-ajuda” são os de Amyr Klink, família Schürmann, Oliver Sacks, Guimarães Rosa, João Ubaldo Ribeiro, Arnaldo Jabor, Isabel Allende e outros maravilhosos! 😉
São depoimentos corajosos e inspiradores, idéias inteligentes; pessoas que escolheram o próprio caminho e assumiram as responsabilidades.
Este livro é puramente comercial; nisto foram muitos bons; inclusive criaram um site de relacionamento com “Missy”, a personagem desaparecida… …argh!
É, por definição, indescritível.
Podemos falar das batidas aceleradas do coração,
da perplexidade diante daqueles raios coloridos tirando-nos o folêgo.
A despedida de hoje foi, mais uma vez, surpreendente e
quem teve a sorte grande de estar na platéia
pôde guardar este por de sol na retina e trazê-lo de volta…
para iluminar um momento escuro.