Teatro — Perdoa-me por Morrer

Vá assistir! Esta resenha é tão só para aguçar a curiosidade. O teatro nos transporta a outros mundos. A gente se envolve, se emociona, o coração dispara… é assim mesmo quando acompanhamos a trajetória amarga dos três personagens de “Perdoa-me por Morrer” com o sax de João Paulo Prazeres.

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Está na FUNARTE, um espaço muito interessante nos galpões da antiga EFCB — Estrada de Ferro Central do Brasil, na rua Januária, centro de Belo Horizonte, onde tem adoráveis bananeiras na calçada.

A peça do diretor Luiz Carlos Garrocho não é um espetáculo para multidão: além do denso contexto visível, a mensagem subliminar do drama de todos os seres humanos através da perfeita expressão corporal de Renata Rocha, Rafael Paiva e Sitaram Custódio. Não há diálogos orais, mas a linguagem viva e forte do corpo, do olhar, do movimento denuncia a violência, a perseguição, o preconceito. O grito visceral da atriz sintetiza toda a dor dos oprimidos e dos injustiçados.

Levanta-se, também, a instigante questão sobre “a bala perdida que sempre encontra a pele escura”. Vá assistir e, além da surpresa do final incomum, poderá — quem sabe? — descobrir qual é a pedra que cada um de nós carrega.

Fedra e Hipólito

Começa hoje, no Palácio das Artes, a apresentação da ópera do músico, compositor e maestro Christopher Park. Sob a direção artística e cênica de Fernando Bicudo, a venda de ingressos está esgotada; felizmente as Erínias conseguiram ingressos para quinta, dia 20/6. Certamente todo o grande elenco é responsável por esta acolhida impressionante.

Hipólito e/ou Fedra é uma peça do grego Eurípedes (428 a.C.), adaptada pelo romano Seneca. Desde então, este clássico da mitologia grega tem sido repetido na literatura, dramaturgia, filmes e óperas. Bem conhecida é a interpretação de Jean Racine em 1677. O papel de Fedra é magnífico, sendo o ponto máximo almejado, em todos os tempos, por exímias atrizes e sopranos. O nome Fedra deriva do grego φαιδρος, “brilhante”.

Racine se inspirou na tragédia grega e escreveu a peça “Hipólito”: a destruidora paixão de uma mulher por seu enteado. É a exploração das consequências de uma paixão proibida. Segundo um estudo muito interessante de Roland Barthes, Racine focaliza a tragédia da palavra. Para Fedra, a palavra reveladora do terrível segredo — seu amor pelo enteado — é a irreversível condenação. Nenhuma palavra pode voltar atrás. Para Hipólito, a palavra, o falar a versão dos fatos, seria a própria salvação. O não-dizer, a omissão, leva à destruição do nobre Hipólito.

Vargas Llosa, o grande escritor peruano, em “Elogio de la Madrastra“, faz uma interessante subversão do mito: o enteado seduz a madrasta. Também aí, como em Eurípedes, é a definitiva deterioração da família.

Os mitos formam a base das religiões, literatura, filosofia e artes. A sabedoria da mitologia é atingir a dimensão tipicamente humana; é muito diferente de fábulas ou lendas. Os mitos dizem respeito ao nosso relacionamento interior ou com o desconhecido. Podemos dizer que os mitos são espelhos que nos lembram quem somos e quão pouco mudamos desde a origem. Os mitos abrangem a história universal e constituem a base da psicanálise.

A tragédia mitológica trata de todas as emoções humanas e, o mais importante, através de símbolos oferece ao ser humano a solução dos conflitos. É função eficaz dos mitos demonstrar toda a gama dos sentimentos humanos sem culpa, sem censura, sem preconceitos. Aproveitemos, pois, a grande oportunidade de renovação interior que “Fedra e Hipólito” nos proporcionam.

A simbologia do mito é diversificada em cada região integrando o sistema de crenças de uma cultura ou civilização. Joseph Campbell, conceituado professor de mitologia, resume muito bem:

Mitos são sonhos públicos; um sonho é um mito privado.