Bem-vindo
o dia
com
louvores
dores
acrobacia…
cada um de nós
os vai
colorindo
Copyright©2026 Maria Brockerhoff

Bem-vindo
o dia
com
louvores
dores
acrobacia…
cada um de nós
os vai
colorindo
Copyright©2026 Maria Brockerhoff


Um dia, um médico atestará o fim do funcionamento do meu cérebro. E, numa forma essencial, minha vida chegou ao fim. Quando isto acontecer, não tente introduzir vida artificial no meu corpo através de máquinas. Invés disso:
doe meus olhos a um homem que nunca viu o sol nascer, nunca viu o rosto de um bebê ou amor no olhar de uma mulher;
doe o coração a uma pessoa cujo coração não fez outra coisa senão causar dias infindáveis de angústias;
doe o rins para alguém dependente de uma máquina para viver semana após semana;
doe o sangue, o ossos, cada músculo, cada nervo de meu corpo e encontre um jeito de fazer crianças aleijadas andarem;
explore cada canto do cérebro e de meu corpo, deixe as células se desenvolverem e algum dia, um menino mudo será capaz de gritar o gol de seu time e uma menina surda ouvirá o som da chuva na vidraça;
queime as sobras de mim e espalhe as cinzas ao vento para adubar as flores;
certamente será necessário enterrar as minhas culpas, as minhas fraquezas e todos os preconceitos.
Se você quiser se lembrar de mim, faça-o com um boa ação ou uma boa palavra para alguém desconhecido. Assim eu viverei para sempre!
Adaptado de um texto de Robert Noel Test

Este polêmico livro do nosso baiano é de uma extrema e terrível lucidez.
O assunto é pesado, até assustador! Daí, talvez, a relutância de o leitor aceitar que a natureza humana é, sim, capaz de ultrapassar os limites do Bem e do Mal.
A parte final do livro é destoante e, mais uma vez, desejável que um corajoso Editor tivesse usado, ali, um misericordioso bisturi…
Contudo, o objetivo aqui é, tão somente, transcrever — ipsis litteris — um trecho que, por si só, vale o livro. Cada releitura deste texto faz o coração saltar diante da perturbadora e dura verdade:
A vida é vitoriosa não quando se tem o que se costuma ver
como bênçãos, ou seja, beleza, dinheiro, honrarias e assim por diante.
Essas coisas podem perfeitamente conviver e entrar em simbiose
com a mais completa infelicidade.
Elas não representam uma vitória por mais que seus detentores
e os que erroneamente os invejam queiram pensar assim.
A vida é vitoriosa quando se satisfaz o que de fato há em cada um de nós,
aquilo que de fato ansiamos e quase nunca nos permitem,
nem nos permitimos, reconhecer.
para Vanessa M.… já descobrindo aonde não ir…

José Régio, in ‘Poemas de Deus e do Diabo’ — 1925
“Vem por aqui” — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: “vem por aqui!”
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali…
A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos…
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: “vem por aqui!”?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí…
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?…
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos…
Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios…
Eu tenho a minha Loucura!
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios…
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: “vem por aqui”!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou…
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
— Sei que não vou por aí!
O processo dos lapsos de linguagem é interessantíssimo. Para quem os comete, o melhor é dar uma risadinha… explicar, justificar, apenas complica e constrange, pois são, indiscutivelmente, reveladores; para quem os recebe pode ser uma boa fonte de descobertas.
O livro “Psicopatologia da Vida Cotidiana” (ed. 2023 Editora Autêntica) é delicioso!
Freud narra os próprios lapsos, os de outros psicanalistas e os de clientes, além de apresentar, claro, os valiosos e lúcidos fundamentos psicanalíticos.
Ficamos aqui com a parte lúdica de alguns lapsos de linguagem, leitura e escrita:

Continua na próxima…
O mestre da psicanálise resume os lapsos de forma magnífica: “o inconsciente nunca mente.”
Fomos ao Texas e, descuidados, não consultamos o poderoso Sr. Clima; de costa a costa, com raras exceções, as temperaturas beiravam 104°F (40°C). Foi a primeira vez que estivemos lá no verão… e fizemos meia volta para fugir do calor escaldante.
Não comunicamos nossa volta a ninguém; assim tínhamos mais dias de férias, fomos para um hotel e experienciamos certo exílio: sim, pois sabíamos que o celular não tocaria, não haveria visitas — um dos bons hábitos em Minas — nada de almoços coletivos, nem cafézinhos com prosa…
Descobrimos, aqui mesmo, lugares interessantes num bairro completamente desconhecido. Vimos o quanto a gente se apega à padaria, ao sacolão, à cabeleireira, à próxima esquina; como limitamos o círculo de convivência!
Deste nosso venturoso degredo pude avaliar a valentia de dois queridos amigos: M. e R. (abreviaturas invejando Freud). Ambos com faccia e coragem pediram as contas, juntaram um mínimo de tralha e foram-se… cada um, absolutamente, por sua conta e risco.
M. para Buenos Aires e R. para Paris. Estabeleceram-se nestas outras plagas, conquistaram amigos e boa colocação profissional (sem QI algum!). A certeza de ter as pessoas, o trabalho, a roda na pizzaria forma uma rede reconfortante deixada para trás.
Nas nossas andanças anônimas por aqui pude avaliar como a aventura dos meus amigos pode parecer meramente romântica, contudo os desafios da cidade grande e da língua estranha exigem boa dose de autosuficiência, determinação.
Este ir e vir solitário, incluindo todas as atividades e decisões, não é pra qualquer mortal. Certamente é uma bela aventura e pode ser um meio — talvez o único -— de nos virar pelo avesso e de nos fazer sair de um mundinho morno e, muitas vezes, medíocre.
Amigos M. e R., posso concluir que o impulso para uma corajosa virada só pode ser
…ou uma lança atravessada no peito ou uma esperança desvairada…
No sul da Itália — calcanhar da bota — a intrigante cidadinha de Alberobello com as torres de pedra. Trulli, plural de trullo, vem do grego, significa cúpula.

Antigamente, essas engenhosas construções de pedras calcárias, empilhadas sem argamassa, abrigavam os camponeses durante a colheita de azeitonas. Com destreza, os trulli eram desmanchados e reconstruídos rapidamente. Assim, os coletores de impostos do rei de Napoli eram enganados: deparavam com montes de pedras sobre as quais não incidia cobrança. Às costas dos fiscais os trulli eram reerguidos.

A região de Alberobello, a 55km de Bari, é solo fértil para a plantação de oliveiras muito elegantes… …e idade de Matusalém.

As oliveiras — a planta macho — são em número bem menor; então, planta-se uma oliveira macho e em volta uma dezena de oliveiras fêmeas para facilitar a polinização.
A habitação em trulli remonta a mil anos. O formato em cone é apropriado para a coleta de água de chuva em cisternas. O interior se mantém fresco e agradável. O centro antigo é recortado por escadarias, ruelas e lojinhas.


Excelentes hotéis e restaurantes modernos em estilo trulli:

Diante destes imponderáveis trulli fica patente o poder criativo dessa gente campesina em transformar inóspitas pedras em abrigo. Alberobello é mais uma grata surpresa por estas antiquíssimas bandas italianas.
..é um ato de profunda generosidade! A UFMG, há 26 anos, oferece a oportunidade para cada um de nós contribuir para a ciência e transformar a morte em algo útil e, ao mesmo tempo, simplificador. Isto mesmo!
Uma montanha de burocracia, como cartório, transporte, planos funerários, jazigo/cremação (atualmente um excelente e lucrativo negócio) se dissolve. Os custos decorrentes do falecimento ficam sob a responsabilidade da Faculdade de Medicina da UFMG com equipe alerta e bem-organizada.
Importante conhecer o VidaApósAVida. Há muitos preconceitos, enganos e desinformação sobre a doação de corpo. Novas perspectivas se apresentam àquele com disposição para ouvir, para tirar a venda dos olhos.
É até compreensível a ideia tradicional e, às vezes, até distorcida sobre sepultamento e/ou cremação. Contudo a doação de corpo, na realidade, é muito mais respeitosa quando assistimos, consternados, aos animados bate-papos em alguns velórios. Sem falar na maquiagem dos mortos; claro, uma moda importada dos americanos.
A doação de corpo traz a possibilidade magnífica para o ensino da anatomia médica, para pesquisas e para os treinamentos anatômicos e médico-cirúrgicos desenvolvidos na Faculdade de Medicina da UFMG..
Basta marcar uma entrevista pelo telefone (31)3409-9739.
É comovente e verdadeira a lápide no Cemitério da Saudade dedicada aos doadores.
É muito mais sensata e sensível a doação, pois é um desperdício descartar um corpo “que a terra há de comer”.
Ainda há outro bônus, saímos da entrevista de doação com a funda compreensão desta vida:
“o presente é um presente” — Saramago
