Vilarejos Italianos — Gerace

Está, merecidamente, incluído na lista dos lugarejos mais belos da Itália: Gerace, no topo, mostra lááá embaixo a Calabria banhada pelo azulíssimo mar Ionio / Jonico. Aliás toda a costa-sul aproveita fartamente o sol, esta matéria-prima de país tropical.

Sul da Itália – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

Com, aproximadamente, 3 mil habitantes, Gerace conserva as antiquíssimas e maciças construções de pedra…

Catedral de Gerace, Itália – autor desconhecido

…um curioso detalhe na fachada da catedral…

Catedral de Gerace, Itália – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

…o toque romântico da celebração de um casamento, no qual fomos penetras…

Catedral de Gerace, Itália – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

…e mais a secular Chiesetta di San Giovanello:

Igrejinha de San Giovanello, Gerace – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

Chegamos pouco depois de uma chuva torrencial e a cidadinha nos recebeu de alma lavada. Vinhos cuidadosamente produzidos aqui e acolhedores cafés completam as boas-vindas após a chuva. Para chegar à praça pode-se escolher entre boas pernadas morro acima e o pitoresco trenzinho da mamma.

Gerace, Itália – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

Na costa oeste da Calabria a enigmática Sicilia, logo ali depois do Estreito de Messina. O antigo e polêmico projeto da construção de um viaduto, unindo a ilha ao continente, aquece discussões ruidosas. A obra estimada em €5 bilhões (!) valerá o benefício?

Creative Commons, Wikimedia

De uma outra vez, subimos o monte Etna, na costa leste da Sicília, para um inesquecível mergulho num dos cones secundários do vulcão. Uma “craterinha” calma e receptiva — naquele momento!

Etna, Sicília — Copyright©2004 Rainer Brockerhoff

As lavas decompostas tornam as terras da zona baixa muito férteis, multiplicando as colheitas de olivas, uvas e, principalmente, limões.

Em dezembro de 2018, um Etna forte ilumina e espanta o mundo:

Etna, Sicília – Copyright©2018 Andrea Mirabella

Vilarejos Italianos — Stilo

Encravado no monte Consolino, a 150km de Reggio Calabria, sul da Itália, o elegante mosteiro Cattolica di Stilo:

Cattolica di Stilo, Italia – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

…representa, desde os gregos, a idéia universal da união de crenças quebrada pelo grande cisma da igreja católica em 1054. Aqui, em Stilo, nasceu — 1568 — Tommaso Campanella, dominicano, filósofo, poeta, teólogo; preso e torturado pela inquisição romana por defender avançadas idéias políticas de paz e justiça.

Cattolica di Stilo, Italia – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

O gracioso mosteiro, em estilo bizantino do século IX, erguido com as pedras de Kaulon, uma colônia grega de 1200 a.C., foi restaurado e conserva partes de preciosos afrescos.

Cattolica di Stilo, Italia – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff
By Marcuscalabresus – Creative Commons

As valiosas ruínas de Stilo nos trazem uma sensação inusitada de atemporalidade…

Cattolica di Stilo, Italia – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

Vilarejos Italianos — Calabria

Gerace, Stilo, Santa Severina — estes burgos quase intocados, perdidos no sul da Itália, são muito especiais. Na Calábria, a costa belíssima é banhada pelos mares Tirreno e Ionio.

Por aqui passaram gregos — Magna Grécia — romanos, suábios, aragoneses, normandos; daí a diversidade em cada canto. A estrada serpenteia à beira de plantação de olivas, de cedros e da adorável bergamota: uma mistura de limão e laranja azeda que se multiplica em chás, doces, licores. Da casca se extrai o óleo essencial para perfumes, principalmente Eau de Cologne, lançado na Alemanha no século XVIII.

Numa volta surge, lá em cima, Santa Severina, apelidada “la Nave de Pietra”:

Santa Severina, Itália – © Fondazione Calabria Film Commission

O vilarejo exibe o estilo bizantino cujo império permaneceu até 1076.

Santa Severina, Itália – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

O batistério do século VII:

Santa Severina, Itália – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

Entre as curvas de uma estradinha, uma apetitosa surpresa: Azienda Agrituristica Le Puzelle. O jovem empreendedor, Sergio, parece estar totalmente envolvido com o próspero negócio da família. Já morou no Brasil, tem pousada em Florianópolis.

Le Puzelle, Santa Severina – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

Quer desenvolver o agro-turismo, aproveitando a falta de transporte regular na região e a distância dos grandes centros como um atrativo. O turismo em massa traz, sabidamente, desvantagens a longo prazo. Vale descobrir todas as delícias italianas e o melhor cappuccino… do mundo!


Alberobello — a Capital dos Trulli

No sul da Itália — “calcanhar da bota” — a intrigante cidadinha de Alberobello com as torres de pedra. Trulli, plural de trullo, vem do grego, significa cúpula.

Alberobello, Itália – Copyright©2016 Gianfranco Vitolo

Antigamente, essas engenhosas construções de pedras calcárias, empilhadas sem argamassa, abrigavam os camponeses durante a colheita de azeitonas. Com destreza, os trulli eram desmanchados e reconstruídos rapidamente. Assim, os coletores de impostos do rei de Napoli eram enganados: deparavam com montes de pedras sobre as quais não incidia cobrança. Às costas dos fiscais os trulli eram reerguidos.

Alberobello, Itália – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

A região de Alberobello, a 55km de Bari, é solo fértil para a plantação de oliveiras muito elegantes… …e idade de Matusalém.

Masseria Valenti, Itália – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

As oliveiras — a planta macho — são em número bem menor; então, planta-se uma oliveira macho e em volta uma dezena de oliveiras fêmeas para facilitar a polinização.

A habitação em trulli remonta a mil anos. O formato em cone é apropriado para a coleta de água de chuva em cisternas. O interior se mantém fresco e agradável. O centro antigo é recortado por escadarias, ruelas e lojinhas.

Alberobello, Itália – Copyright©2016 Eduard Marmet
Alberobello, Itália – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

Excelentes hotéis e restaurantes modernos em estilo trulli:

Alberobello, Itália – Copyright©2016 Claudia Liechavicius

Diante destes imponderáveis trulli fica patente o poder criativo dessa gente campesina em transformar inóspitas pedras em abrigo. Alberobello é mais uma grata surpresa por estas antiquíssimas bandas italianas.

Matera — a Cinderela da Itália

Um lugar muito diferente surgiu lá no alto! Chegamos a uma praça com o piso claro e brilhoso, torres, balcões, escadarias… tudo de pedra. Nem sempre escolhemos roteiros em detalhes; ver fotos antecipadamente, nem pensar. A recompensa é a sensação indescritível desta surpresa: Matera.

Matera, Itália – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff
Piazza San Giovanni, Matera – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

Nunca ouvíramos sobre a cidade dos Sassi — pedras em italiano — situada em Basilicata, no “tornozelo” da bota a 70km de Bari, habitada há mais de 12 mil anos. Os Sassi são cavernas habitadas desde o período paleolítico e se dividem em Sasso Caveoso e Sasso Barisano.

Cavernas Paleolíticas, Matera – Copyright©2015 Revol Web

Antigamente, as condições de vida nos Sassi eram miseráveis: doenças, sujeira, absoluta falta de higiene. Em 1944 o escritor Carlo Levi denunciou ao mundo, no livro Christ Stopped at Eboli, os horrores de um inferno de Dante. Há um filme com o mesmo título, de 1979; o significado é de o cristianismo e a civilização jamais terem ido além da cidade de Eboli, onde viviam os excluídos pela pobreza.

Nas décadas de 1950 e 60 os Sassi foram considerados um insulto à República daí, depois de planos, projetos e reviravoltas, iniciaram a evacuação, restauração e o saneamento — década de 1990. Inevitável, nestes casos, o dramático impacto da mudança, a perda de laços afetivos e as dificuldades de adaptação. Contudo o saldo é altamente positivo: as cavernas revitalizadas são um centro cultural efervescente com museus, artes e desenvolvimento.

Sasso Barisano, Matera – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

Em Matera foi filmado, entre outros clássicos, A Paixão de Cristo de Mel Gibson. A cidadinha já recebe 600 mil visitantes por ano. As cavernas abrigam, com conforto, bons restaurantes, hotéis…

A nossa caverna, o Hotel Sassi – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

…residências, dezenas de B&B, lojas:

Matera – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

A magnificência da Cattedrale della Madonna della Bruna e di Sant’Eustachio data de 1230.  Há centenas de igrejas rupestres. O valor artístico e histórico dos afrescos é inestimável. Aqui a Igreja de Santa Maria de Idris:

Chiesa di Santa Maria di Idris, Matera – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

…em uma das incontáveis escadarias uma pitada do estilo italiano:

Centro histórico de Matera – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

Matera, de andrajos e de extrema carência, transformou-se em Cinderela cheia de originalidade escolhida capital européia da cultura em 2019.

Suiça — Grand Train Tour

Aqui os Alpes ficam aos pés da cama… não, não é exagero. Ao acordar, esta montanha maciça enche-nos os olhos.

Grindelwald, Suiça – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

É a primeira imagem de Grindelwald. Nesta época, início de primavera, fora de temporada de esqui, muitos hotéis se fecham e a cidadinha se oferece, principalmente, para turistas asiáticos.

Grindelwald, Suiça – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

O roteiro é muito bem organizado pelo Switzerland Travel Centre a partir de Zürich, banhada pelo rio Limmat, às margens do lago Zürichsee.

Zürich – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

O Hotel Wellenberg em Zürich é central, atendimento perfeito. Na universidade — fundada em 1833 — uma das mais avançadas da Europa, o Museu de Zoologia é espetacular. Este exemplar de preguiça gigante, um animal pacífico, viveu nas Américas há 20 mil anos.

Megatherium Americanum, Campus, Zürich – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

Aqui, a criançada tem a oportunidade única de alargar a mente, de descobrir os próprios talentos. O restaurante universitário é de alto nível. O campus é um jardim só:

Campus, Zürich – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

A rota inicial: Zürich / Luzern / Giswil / Interlaken Ost / Grindelwald em trens panorâmicos. Não se pode cometer a heresia de descrever fotos ou paisagens; estas, no real, são absorvidas pelos poros ou reduzidas a selfies.

Giswil, Suiça – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff
Giswil, Suiça – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff
Brienz, Suiça – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

Em Grindelwald o Hotel Eiger Selfness é um village, com jardins internos, estrutura completa de fitness, sauna e spa. Aqui é o embarque no trem amarelo para Jungfraujoch, um passo elevado entre os montes Mönch e Jungfrau. A cremalheira nos trilhos foi especialmente projetada para trechos íngremes.

Kleine Scheidegg, Suiça – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

Alcança-se o topo em 78 minutos. Através de um túnel chega-se a um edifício gigantesco embutido na rocha com restaurantes, exposições, lojas, histórico da dificílima construção — 1896 a 1912 — e um palácio de gelo.

Jungfraujoch, Suiça – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

Jungfraujoch é, mesmo, inimaginável para nós dos trópicos…

Jungfraujoch — Wikimedia Commons

Arles — os caminhos de van Gogh

Numa bifurcação do Rhône, Arles — no sul da França — é a porta de Camargue: uma região muito rica em biodiversidade, escolhida pelos flamingos e morada dos intrigantes touros negros. Ao anoitecer, aportamos neste canal do rio, protegido por muralhas.

Arles, França – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

Neste canal havia uma ponte espetacular destruída na Segunda Guerra; restaram dois pilares e, relembrando a grandeza da obra, pares de leões em cada margem:

Arles, França – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

Arles, nos séculos IV e V, foi um grande centro cultural e comercial; ocupada por diferentes povos, até que os romanos fincaram pé e permaneceram por mais de 800 anos. Daí as características construções bem conservadas até hoje. Claro, um magnífico coliseu faz parte do currículo do império romano:

Arles, França – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

Aqui o passado volta com o clamor da turba, o rugido dos leões. Agora realizam-se festivais. Felizmente, nas touradas atuais, não se matam os touros; ágeis atletas tentam retirar as fitas dos chifres em uma arena civilizada.

Arles, França – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

Ouvir o caloroso ritmo cubano num boteco da esquina em meio às ruínas romanas significa convívio saudável; aproximamo-nos e gente de todas as cores dançava alegremente.

Como sempre, perambular sem rumo é o melhor destino. Arles, especialmente, é uma caixa de surpresas.

Arles, França – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff
Arles, França – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

Seguir os passos de van Gogh nos leva às suas telas: Terrasse du café le soir, La Chambre à coucherLes AlyscampsAutoportrait à l’oreille bandée, dentre outras. Vale ver o filme Loving Vincent. Aqui van Gogh cortou a orelha. A criatividade deste pintor era, para o mundo medíocre, alucinações e loucura. Para “preservar a ordem pública” (!), o povo de Arles exigiu do médico a internação deste gênio em hospital psiquiátrico.

Constantino I, o Augusto romano, construiu as excelentes termas. Os banhos, com a incrível idéia dos hipocaustos, foram outra característica do savoir vivre dos romanos:

Arles, França – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

Arles, com uma história forte, é uma interrogação…

Avignon — Provence

Avignon é mesmo um cenário de filme. Dentro das muralhas todas as tragédias e grandezas das histórias humanas. É uma das cidades mais antigas de França.

Palais des Papes, Avignon – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

Mesmo nesta segunda vez, o palácio dos papas de Avignon ainda nos surpreende.

Copyright© Jean-Marc Rosier, CC BY-SA 3.0

A corte papal se estabeleceu aqui devido às ingresias entre o papado e a coroa francesa. Em 1305, o rei Philippe IV forçou a eleição de Clemente V, que recusou mudar-se para Roma, devastada por lutas internas. A partir de então, seis outros papas reinaram aqui. As divergências se agravaram até o Grande Cisma na igreja católica: isto é, por quarenta anos, houve um papa em Roma e outro em Avignon. Esta situação anômala terminou por volta de 1417. Este período dos pontífices favoreceu o desenvolvimento arquitetônico e das artes em geral. O magnífico Palais des Papes é o mais importante em estilo gótico desde a idade média.

Copyright©2017 Paula Funell

O navio se aproxima bem devagar da Pont Saint-Bénézet sobre o rio Rhône. Originalmente com 900m e 22 arcos, foi destruída em 1226 durante uma ocupação; após a reconstrução foi levada algumas vezes pelas enchentes. Hoje restam apenas os românticos quatro arcos. Sur le Pont d’Avignon é a canção, há séculos, desta simbólica ponte.

Pont Saint-Bénézet, Avignon – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

Ao perambular pelas ruelas…

Avignon – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff
Avignon – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

O centro antigo se transforma para nós em uma “ilha” com queijos, flores, boas risadas e imaginação à solta… assim, Ricardo Reis salta do livro (“O Ano da Morte de Ricardo Reis”, de José Saramago) e vem nos acompanhar sem rumo e sem destino. Do personagem a lucidez:

Solidão é não sermos capazes de fazer companhia a alguém ou a alguma coisa que está dentro de nós.

 

Ardèche — uma Serra do Espinhaço

O navio Swiss Gloria seguiu de Tournon-sur-Rhône para Le Pouzin, de onde fomos para Ardèche. Escondida em uma esquina do rio Rhône e dos Alpes esta região de montanhas de pedras: dessa vizinhança vem toda a beleza. Considerada área remota, com montes ondulados e verdes, lembra a belíssima Serra do Espinhaço.

Ardèche, França – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

O império romano dominou toda a Europa, sendo impressionante o avanço das construções nestas vilas seculares que preservam relíquias como este aqueduto:

Ardèche, França – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

O romântico rio Ardèche brinca formando cânions, grutas e paredões sem fim. É o preferido para os passeios e competições de caiaques:

Ardèche, França – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

O Pont d’Arc é um capricho especial por onde rolam as águas cristalinas e frias:

Pont d’Arc, Ardèche – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

Já neste começo de primavera é a “praia de verão”:

Pont d’Arc, Ardèche – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

Surpreendente La Grotte Chauvet-Pont d’Arc. Em 1994 foi redescoberta depois mais de 30 mil anos obstruída por uma avalanche. Esta gruta é riquíssima em pinturas rupestres, estalagmites e estalactites. A visitação iria destruir este patrimônio inestimável, daí a inusitada construção de uma réplica perfeita, incluindo a reprodução das pinturas rupestres.

Caverne du Pont d’Arc – Copyright©2016 Antoine 49

Caverne du Pont ’Arc – Copyright©2016 Claude Valette

O homem, quando sai de suas concepções estreitas, pode criar o impossível, o belo!

 

Beaune — Além dos Vinhedos

A pequena cidade, a 30km de Chalon-sur-Saône, guarda uma surpresa: L’Hôtel-Dieu. Este elegante hospital beneficiente foi construído por Nicolas Rolin, com a participação fundamental da mulher, Guigone de Salins, em 1443. O hospital foi dirigido também por jovens freiras, cujo mister era cuidar dos pobres.

L’Hôtel-Dieu, Beaune, França – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

Era costume de os católicos ricos receberem as tais Indulgências! Faziam doações de bens, dinheiro, construíam hospitais e igrejas em troca do perdão dos pecados. Através desta “santa propina” os benefícios amenizaram o sofrimento de muita gente. Desde então, a família de Nicolas Rolin mantém os hospitais mais avançados da França, além de rede hoteleira.

O hospital, já muito avançado no séc.XV, funcionou até 1970, quando se transformou em museu. Os equipamentos e instrumentos cirúrgicos eram de ponta. Foi um dos primeiros hospitais a utilizar os raios-X descobertos em 1890 por Wilhelm Röntgen. O brilhante físico alemão, agraciado com o Nobel de Física em 1901, doou o prêmio à universidade de Würzburg, recusando-se a registrar qualquer patente.

O progresso técnico pode ser visto na Pharmacie:

L’Hôtel-Dieu, Beaune, França – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

Na cozinha:

L’Hôtel-Dieu, Beaune, França – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

A enfermaria com leitos compartilhados por apenas dois doentes era um alto luxo:

L’Hôtel-Dieu, Beaune, França – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

Um bom exemplo de filantropia, ainda hoje em Beaune, são os leilões dos melhores vinhos com compradores de todo o mundo.

O Hôtel-Dieu tem um considerável acervo de arte. A extensa e incrível tapeçaria é um conjunto de painéis bordados por artistas anônimos. Um detalhe do cavalo cuja pata é recuperada depois de uma amputação, num lendário milagre de Santo Elígio:

L’Hôtel-Dieu, Beaune, França – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

A pintura do holandês Rogier van der WeydenLe Jugement dernier / O Juízo Final, riquíssima em possibilidades de interpretação:

L’Hôtel-Dieu, Beaune, França – Copyright©2018 Rainer Brockerhoff

Aos portões do céu e do inferno se encaminham os abençoados e os condenados. Para nós, absolutamente sem viés religioso, as imagens eloquentes representam a saga humana desde sempre: cada um traz, dentro de si, o céu e o inferno.