2017

Mendocino, California – Copyright©2011 Rainer Brockerhoff

…Ano Novo é um casulo
Da lagarta caixa-preta
Vem única borboleta…

Primavera — Haicai

Fredericksburg, Texas – Copyright ©2010 Rainer Brockerhoff

Vem flor vem hera
apesar de parente
é primavera

Copyright©2010 Maria Brockerhoff

Olho por olho…

Engolir o sapo ou a justiça estrita do dente-por-dente? Nas irônicas circunstâncias desta história, o grande escritor russo Fiódor Dostoiévski (1821-1881), em O Idiotaaponta a saída…

…estou sòzinho no vagão. Fumar não é proibido mas também não é permitido; ou seja, é semipermitido, como de costume; e isso dependendo da pessoa. A janela está aberta. De repente, instalam-se duas damas com um totó, bem à minha frente; chegaram atrasadas; uma estava vestida de forma mais elegante, de azul claro; a outra, mais simples. Eu sou bem apessoado, elas olham com desdém, falam inglês. Eu, é claro, não ligo; continuo fumando para fora da janela. O totó está no colo da senhora de azul claro, é pequeno, cabe na minha mão, preto, patinhas brancas, até uma raridade. Coleira de prata com uns dizeres. Eu não ligo. Observo apenas que as damas, parece, estão zangadas com o charuto, é claro. Uma aponta para mim o lornhão, de osso de tartaruga. Não falam nada mesmo! Se avisassem, se pedissem, porque para isso existe finalmente a linguagem humana! No entanto, se calam […] Sem o mais mínimo aviso, todavia como se tivesse ficado totalmente louca, a de azul claro me arranca da mão o charuto e o joga pela janela. O trem voa, fico olhando como um louco. Uma mulher selvagem; selvagem mulher, os olhos brilham na minha direção, e eu, sem dizer palavra e com uma gentileza incomum, com a mais perfeita gentileza, gentileza refinada, por assim dizer, aproximo dois dedos do totó, pego-o delicadamente pela nuca e o arremesso janela afora atrás do charuto! Ele dá apenas um ganido! O trem continua voando…

A história de uma vaca

 

Esta, sim, foram doze dias e doze noites nos montes da galiza, com frio, e chuva, e gelo, e lama, e pedras como navalhas, e mato como unhas, e breves intervalos de descanso, e mais combates e investidas, e uivos, e mugidos, a história de uma vaca que se perdeu nos campos com a sua cria de leite, e se viu rodeada de lobos durante doze dias e doze noites, e foi obrigada a defender-se e a defender o filho, uma longuíssima batalha a agonia de viver no limiar da morte, um círculo de dentes, de goelas abertas, as arremetidas bruscas, as cornadas que não podiam falhar, de ter de lutar por si mesma e por um animalzinho que ainda não se podia valer, e também aqueles momentos em que o vitelo procurava as tetas da mãe, e sugava lentamente, enquanto os lobos se aproximavam, de espinhaço raso e orelhas aguçadas. {…} Ao fim dos doze dias a vaca foi encontrada e salva, mais o vitelo, e foram levados em triunfo para a aldeia, porém o conto não vai acabar aqui, continuou por mais dois dias, ao fim dos quais, porque se tinha tornado brava, porque aprendera a defender-se, porque ninguém podia já dominá-la ou sequer aproximar-se dela, a vaca foi morta, mataram-na, não os lobos que em doze dias vencera, mas os mesmos homens que a haviam salvo, talvez o próprio dono, incapaz de compreender que, tendo aprendido a lutar, aquele antes conformado e pacífico animal não poderia parar nunca mais.

…está, ipsis litteris, no livro de José Saramago, “A viagem do Elefante”; de uma profundidade infinita, simboliza a vida de mulheres e homens corajosos — e a reação do outro…

2016

Antártida – Copyright©2016 Rainer Brockerhoff

 

 

 

Ano novo?
Depende
pra onde acenas
penas ou Athenas!

 

 

 

Copyright©2015 Maria Brockerhoff

Miragem


As estrelas salpicam o céu. Com um sentimento de inquietação e prazer aguardo os passos lépidos, o sorriso largo à porta destrancada… num átimo, o calor de um abraço em rodopio apagaria o hiato infinito do desejo.

A mesa preparada com a cerveja escura na medida do seu paladar. As frutas suculentas e o cheiro de semente de papoula no pão nos envolveriam num recreio de brincadeiras de roda, de cabra-cega.

Ao som do piano, compreenderíamos ser a aceitação da acolhida a única via para amenizar a travessia neste deserto humano.

Já no ponto, a água tépida do banho para enxaguar-lhe o cheiro lá de fora, o pó das regras oficiais e a nos dissolver a couraça.

Agora, o coração pronto para tecer
os enredos perdidos
os silêncios truncados.
Para remendar os segredos
e cerzir os desencantos.

A noite, a única espectadora do diálogo dos corpos, da entrega por inteiro, da experiência nova a cada reencontro.

…depois, o inefável descanso como o da sombra de uma árvore e o gosto de um gole d’água fresca no côncavo de uma outra mão…

Foram-se as estrelas… o seu lugar… vazio.

Poema urbano e um destino trágico

Uma árvore delicada
quase frágil
presa à calçada
se cobre de pendões
amarelos…
iluminam a avenida
cheia de ruídos
e gente distraída
se enfeita
ignora a desfeita
dos desiludidos.
Os galhos floridos
sob a chuva
ou sol matutino
estão plenos abertos
prontos e certos…
Admirável
esse destino!

Copyright ©2013 Maria Brockerhoff

Dias depois…

Este belo e útil ser vivo renascerá das feridas?

Arte Poética — Mauro Mota

Elabora o poema como
a fruta elabora os gomos,
a fruta elabora o suco,
a fruta elabora a casca,
elabora a cor e sobre-
tudo elabora a semente.

Obra Poética — 2004
Ilustração Háj Ross