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O Porto (filme de Aki Kaurismäki)

A trama do filme coloca-nos na ponta da poltrona em contínuo suspense!

A postura da mulher Arletty é de uma clarividência invejável: não impor ao parceiro uma situação dolorosa e irreversível.

O diretor finlandês mostra facetas do sistema frio e indiferente da migração; e, por isso mesmo, o genial Aki Kaurismäki considera o seu filme como um “conto de fadas”. Aos 10 anos, diz o diretor, desencantou-se da vida; adulto, tornando-se “cético e cínico”, optou, interessantemente, por roteiros ternos e cheios de esperança.

Marcel é o vilão adorável, cujo senso de humor (obviamente um sinal explícito de inteligência) dirige todas as decisões naquelas dramáticas circunstâncias. O chefe de polícia, profundo conhecedor da alma humana, é de uma grandeza ímpar, raramente encontrada em alguém que detém poder e autoridade.

Idrissa, o personagem central, tem uma sensibilidade tão determinada que até o cão a reconhece e o protege.

A solidaridade dos vizinhos dá uma inveja… aqui, também, é um “conto de fadas”…

O filme mostra, indiscutivelmente, as escolhas das pessoas: de um lado, a generosidade, a compreensão incondicional do desamparo do outro; em sentido contrário, o preconceito, a indiferença, a denúncia.

Qual a sua opção?

Fique Mais Jovem a Cada Ano (2)

Este livro nasceu de uma consulta para melhorar o condicionamento do advogado aposentado Chris Crowley e da programação e planejamento do geriatra Henry S. Lodge (Harry para os íntimos). Boa parceria, melhores resultados.

A prática de exercícios físicos coloca em movimento cascatas químicas quando começamos a transpirar. É neste momento que começam os ciclos de reparação nos músculos e nas articulações. Harry chama esta ação dos exercícios de “base da química cerebral positiva”.

Esta prática de exercícios vigorosos aumenta a qualidade do sono, melhora do sistema imunológico, reduz o excesso de peso, normaliza a taxa de insulina e queima de gordura, melhora a vida sexual, além de conferir resistência a ataques cardíacos, derrames, hipertensão, mal de Alzheimer, artrite, colesterol alto e depressão. Tais resultados são incrivelmente animadores, dá pra levantar defunto, não? :-)

Agora, a “má notícia” é que basta deixar os músculos ociosos para que a decadência recomece. Assim, devemos nos exercitar diariamente. O stress provocado pelos exercícios razoavelmente intensos desencadeia um tipo de demolição do corpo e o reconstrói um pouco mais forte. A atividade física desgasta pequenas partes que precisam ser substituídas após cada utilização.

O processo dos exercícios no nosso corpo é semelhante a uma reforma da nossa casa, compara Harry. Os glóbulos brancos que começam o trabalho de demolição fazem como os profissionais que vêm com marretas, carrinhos de mão, latões de lixo, para por abaixo o velho reboco, abrir as paredes e devolver à casa suas fundações saudáveis. Terminada a demolição, instalam-se o crescimento e a reparação.

Este fator é tão significativo que, mesmo um fumante com excesso de peso, mas que pratica exercícios intensos diários, tem um índice estatístico de mortalidade inferior ao de um não-fumante magro mas sedentário.

Resumidamente, as citocinas (proteínas que controlam o processo inflamatório) estão trabalhando no nosso corpo, regulando o crescimento e a decadência em todos os tecidos e células. A citocina C6 é relativa à inflamação/decadência, a citocina C10 é relativa à recuperação e ao crescimento.

A C6 é produzida nas células musculares e na corrente sanguínea em resposta aos exercícios, enquanto que a C10 é produzida em resposta à C6. Este é o mecanismo brilhante existente no corpo para acoplar decadência e resistência. Em síntese, a C6 desencadeia a produção de C10: a decadência deflagra o crescimento.

Neste momento, espero ardentemente, você já deve estar de pé, preparando-se para uma corrida… :-)

Fique Mais Jovem a Cada Ano…

…não, não é botox nem lipoaspiração nem máquina do tempo, muito menos plástica.

O livro do advogado Chris Crowley e do geriatra Henry S. Lodge traz uma abordagem científica e maravilhosa sobre a atividade física. Se você não se transformar imediatamente (!) é porque já morreu e não sabe. :-)

O corpo é feito de carne, tendões, gordura, e de muitas outras partes que se desgastam e têm que ser renovadas constantemente. O interessante é que o corpo não fica esperando que uma ou outra parte se desgaste; o corpo a destrói no fim de determinado tempo e a substitui por outra nova. Não é fascinante?

Por exemplo, a sua perna está em constante renovação: as células musculares da coxa são substituídas inteiramente, uma por vez, a cada 4 meses; 3 vezes por ano, temos músculos novos. As células sanguíneas, a cada 3 meses, são repostas. As plaquetas, de 10 em 10 dias. As papilas gustativas são renovadas todos os dias. Os ossos, de dois em dois anos.

O entendimento mais atualizado é o de que a maioria das células está programada para morrer dentro de um prazo relativamente curto, porque este processo nos faz adaptar a novas circunstâncias e as células mais velhas tendem a ser cancerosas. Assim jogamos fora, de propósito, partes inteiras que estão em perfeito estado para começar o novo crescimento. Existem bilhões de células especiais cujo único trabalho é dissolver os ossos para que outras possam reconstruí-los. Segundo a belíssima imagem do geriatra Henry S. Lodge:

…é um processo idêntico ao da poda do outono, que serve para dar lugar ao crescimento na primavera.

Nem é preciso explicitar que o grande lance é promover mais o crescimento do que a destruição; está aqui a importância dos exercícios físicos. Através de toda a biologia e fisiologia destes exercícios o corpo aciona os mecanismos que reconstroem os ossos, os tendões, os vasos sanguíneos, o coração, enfim, toda a máquina humana.

Continua…

Meia-Noite em Paris

Woody Allen confirma, mais uma vez, a sua genialidade. O filme é riquíssimo pelas histórias paralelas de Hemingway, Dalí, Gertrude Stein, Picasso e muitos outros. A semelhança dos atores com os personagens é mais um ponto alto. A gente fica em suspenso na poltrona. Em cada encontro com os personagens do passado há um contexto especial e excitante. Conhecendo essas passagens, o filme se completa. As músicas são deliciosas.

Woody deve ter vivido muitas vezes aquela situação e, profundo conhecedor das ziguiziras humanas, retratou tão bem o personagem Gil Pender.

No meio daqueles americanos consumistas, superficiais e pedantes, Gil era mesmo um excêntrico. Também sensível, romântico e inteligente. Cada um nesta vida encontra a sua “turma” e Gil soube curtir, aproveitar as lições e a vida dos grandes escritores, artistas, gente bonita e interessante que não “aparece à meia-noite” para turistas idiotas… magistral a idéia de convidar a elegante e fina Carla Bruni. Quem mais conseguiria tamanha glória de levá-la a fazer uma ponta?

Como toda obra-prima, os insights posteriores continuam nos divertindo muito tempo depois da saída do cinema. A noiva de Gil tem os defeitos já apontados pelo poeta Trasíbulo Ferraz, na poesia “Orgulhosa”, cujo final se encaixa aqui. Gil encontra o caminho para os seus anseios e dúvidas; despacha, com firmeza e classe, a rica noiva:

Tola, vaidosa, atrevida
Soberba, inculta e banal.

 

Freud explica… mais lapsos de linguagem

Continuando

  • Um político, um tanto pão-duro, ofereceu uma festa. Bem mais tarde, em um momento, em que se supôs, fosse servida a ceia, vieram uns parcos sanduíches. Um correligionário, discursando, exclamou:
    “Neste anfitrião podemos confiar! Há-de nos garantir sempre uma sólida refeição.” (queria dizer orientação).
  • Uma senhora, certamente preocupada com os custos do tratamento:
    “Dr., não me dê grandes contas [bills], pois não posso engolí-las.” (ao invés de pílulas [pills]).
  • Um pai para os filhos:
    “Não devem imitar o seu tio, um idiota. Ops! Queria dizer, patriota!
  • Uma mulher, ansiosa por ter filhos, sempre escrevia “cegonhas [storks]” quando se referia a “estoques [stocks]”.
  • Numa tradução da bíblia, publicada em Londres em 1631, no 7º mandamento, não constava a partícula “não”:
    “Furtarás”. Consta que o impressor pagou duas mil libras de multa pela omissão.
  • Numa tradução alemã, o pronome de tratamento “Herr [Senhor]” foi substituída por “Narr [Mentecapto]”.
  • Ernest Jones relata a carta de um paciente:
    “O meu mal é todo devido àquela maldita esposa [wife] frígida.” Mas referia-se a uma onda [wave] de frio que lhe destruíra a colheita de algodão.
  • Um paciente enviou uma nota de desculpa por não comparecer à consulta:
    “Devido a circunstâncias previstas não pude comparecer.” (obviamente pensava em escrever imprevistas).
  • Ernest Jones deixou uma carta sobre a sua mesa durante vários dias; finalmente, colocou-a no correio. Foi-lhe devolvida por não ter colocado o endereço do destinatário. Corrigido o lapso, foi devolvida novamente porque, agora, se esquecera dos selos. Foi forçado a reconhecer que não queria enviá-la.

O mestre da psicanálise resume os lapsos de forma magnífica: “o inconsciente nunca mente.”

Freud explica… lapsos de linguagem

O processo dos lapsos de linguagem é interessantíssimo. Para quem os comete, o melhor é dar uma risadinha… explicar, justificar, apenas complica e constrange, pois são, indiscutivelmente, reveladores; para quem os recebe pode ser uma boa fonte de descobertas.

O livro “Psicopatologia da Vida Cotidiana” (ed. 1966 Zahar Editores) é delicioso!

Freud narra os próprios lapsos, os de outros psicanalistas e os de clientes, além de apresentar, claro, os valiosos e lúcidos fundamentos psicanalíticos.

Ficamos aqui com a parte lúdica de alguns lapsos de linguagem, leitura e escrita:

  • um cliente disse:
    “Não gosto de dever, especialmente a médicos. Prefiro jogar [play] já.” (ao invés de pagar [pay])
    Freud ficou de sobreaviso, mas tranquilizou-se quando o cliente pagou em dinheiro a metade da consulta, prometendo enviar um cheque da diferença. Dias depois, a carta de cobrança voltou com a indicação de “destinatário desconhecido”; neste momento, Freud percebeu que aquele lapso entre “jogar” e “pagar” traiu o cliente.
  • Certa ocasião, Freud repreendia uma cliente, cujo marido estava ouvindo atrás da porta; no fim do sermão, que causara visível impressão à esposa, o próprio Freud põe tudo a perder, despedindo-se dela:
    “Até logo, Senhor.”
  • Uma mulher disse à outra em frente à farmácia:
    “Se aguardar alguns movimentos, eu voltarei.” Iria comprar um purgante para o filho; queria dizer “momentos”.
  • Um psicanalista, ao comentar sobre um possível tratamento:
    “Poderei, com o tempo, remover todos os seus sintomas, pois é um caso durável.” Queria dizer “curável”.
  • Uma jovem esposa disse sobre a dieta do marido:
    “O médico disse que meu marido pode comer e beber o que eu desejar.”
  • Uma respeitável senhora exprimiu-se numa roda:
    “A mulher tem de ser bonita se quiser agradar. Os homens tem mais sorte, basta que tenham cinco membros.”
  • O psicanalista Sándor Ferenczi, quando estudante, preparara-se arduamente para recitar, pela primeira vez, um poema. Ao começar, foi interrompido por sonora gargalhada da turma: dissera o título e, ao mencionar o autor, cita o próprio nome.

Continua na próxima…

Um Homem Que Grita…

…é um grito interior, triste, sem esperança, desesperadamente solitário.

O filme retrata a guerra civil no Chade. No país africano paupérrimo, populoso e, claro, o mais corrupto do mundo, os rebeldes se instalaram há 30 anos e, desde então, as novas rebeliões se sucedem. Em 2008, época do filme, o caos continua com multidões buscando saída para os países vizinhos.

O diretor nativo, Mahamat Saleh Haroun, de sensibilidade ímpar, também ferido numa das escaramuças, mostra sem retoques o cotidiano de uma família. É um mundo diferente, mas o drama, as injustiças, as desigualdades, o medo, a busca, as dúvidas, as traições, são comuns e presentes onde houver ser humano.

O filme é silencioso, duro, lento como o sofrimento, sem panos quentes. Deve ser visto.

O momento em que a atriz (ela própria, cantora) entoa um lamento no dialeto é emoção pura. Infelizmente, na platéia, algumas pessoas riem e conversam… estão muito aquém da profundidade do filme. Ou disfarçam o desconforto?

A cena final forte diz tudo, sem uma letra, sobre a inexorabilidade da vida… é uma imagem na retina para sempre.

Terapia Hoffman

Melhor que uma livraria, só o sebo! Nas escavações, com aquele cheiro peculiar, é possível descobrir livros já perdidos e injustamente abandonados.

A gente vai pulando de pilhas em pilhas e a tarde se esvai num virar de páginas…

Do fundo da estante aparece Bob Hoffman, autor de “Terapia Hoffman da Quaternidade” (1982).

Para quem vivenciou a “febre do Processo” em Belo Horizonte, é ótimo para matar as saudades. Foi uma fase interessantíssima; ninguém ficou indiferente.

Ainda que a origem da técnica de Hoffman tenha sido mensagens recebidas de um neurologista falecido, Dr. Siegfried Fischer, fenômeno no qual não acreditamos, a técnica e métodos não podem ser invalidados. Os resultados são surpreendentes e especialistas recomendam “uma leitura crítica, análise e investigação”, pois no progresso científico não tem lugar para verdades absolutas. Porém não é esta a questão destas linhas.

Queremos relembrar aos participantes e apresentar para quem não conhece a aventura do Fischer-Hoffman.

Bob esteve aqui em Belo Horizonte; era cordial, simpaticíssimo, de um bom humor contagiante e irresistível. O Processo se espalhou pelo Chile com Claudio Naranjo, Espanha, Israel, Índia, Estados Unidos e, claro, Brasil.

Era uma maratona de 13 (!) semanas. Depois, este esquema foi bem reduzido. Preferencialmente, os participantes teriam de ficar, nestas semanas, longe da família… amigos se hospedaram nas casas uns dos outros e as experiências compartilhadas intimamente.

O Processo se fazia por estágios e só se passa ao seguinte se bem resolvido o anterior. Havia acusação e defesa da mãe e do pai separadamente; a defesa é a da criança que os pais foram. Havia, inclusive, o catártico enterro simbólico da mãe e do pai, que levavam consigo o amor negativo.

Os pais são absolvidos e a hostilidade infantil a eles desaparece totalmente. (pag.92, 1ª Ed. Bras.)

Havia, ainda, o renascimento em que o divórcio amoroso da mãe e do pai se confirmam. O ponto culminante era a festa para as brincadeiras, preparada com carinho, onde tudo é repartido. Os que não sabiam, ou não conseguiam brincar, são contagiados e participam.

O Processo descobre o “eu alegre, escondido há muito tempo”; saber ou aprender a brincar juntos é um bem valioso. Se a criança não experienciou “a brincadeira positiva”, é impossível desfrutar a riqueza do divertimento adulto (pag.182, op.cit.).

Testemunhas em amigos e em nós mesmos mudanças profundas depois do Processo. Bons tempos, boas lembranças!

Jean-Yves Leloup: Os rins

No livro O Corpo e Seus Símbolos, já citado, a lição de Leloup é escutar o corpo “que não mente”; o corpo é “nossa memória mais arcaica… nele nada é esquecido”; cada acontecimento deixa no corpo uma marca profunda.

Leloup nos ensina que um atento observador pode constatar em si mesmo e nos outros a incrível simbologia dos rins. Nesta linha de pensamento, os rins são locais de “escuta” no interior de cada um; os rins escutam e filtram as mensagens do sangue, purificando-o.

Atualmente, vivemos sobrecarregados e estes excessos tornam impossíveis aquela filtragem… por isso, tantos problemas renais.

As dificuldades da função renal podem ser indicações de que estamos na direção errada, de que nos fatigamos inutilmente… a nossa vida está sem ou perdeu o objetivo.

Alguns problemas renais indicam desperdício, perda de energia e, muitas vezes, omissão em atender “a solicitação do corpo para mudar de direção… e a maneira de viver”.

A doença é um esforço do corpo para se curar, é o aspecto positivo de maladie – em francês, um mal a dizer -. Finalmente, a sábia conclusão do mestre:

Os rins são um espaço para a palavra que temos de escutar.

Frida

Frida – A Biography of Frida Kahlo (Hayden Herrera, 1983).

A vida de Frida Kahlo é a mais arrojada ficção, ultrapassa qualquer criação imaginária.

As circunstâncias do acidente fazem refletir sobre a imponderabilidade da vida…

Frida e o namoradinho Alejandro pegaram um ônibus na tarde de 17/9/1925. Frida notou que havia perdido a sombrinha e desceram para procurá-la. Pegaram o próximo e logo depois se deu a colisão entre o bonde e o ônibus.

Frida quebrou a coluna em três lugares, a clavícula, a terceira e quarta costelas. A perna direita teve 11 fraturas, o pé direito foi deslocado e esmagado, o ombro direito deslocado, a pélvis quebrada em 3 lugares. O corrimão de aço atravessou a pélvis, empalando-a. Frida sofreu, pelo menos, 32 cirurgias. Na infância, já superara surpreendente e corajosamente, através de exercícios físicos, uma pólio.

Outra pitada surreal: alguém – provavelmente um pintor – trazia um pacote que estourou e um pó dourado cobriu o corpo ensanguentado de Frida, aí as pessoas gritaram “a bailarina! A bailarina!”

À época, Frida não encarou o acidente como tragédia; procurou direcionar, da melhor forma, a imobilidade forçada. Embora tivesse interesse em artes, a ambição maior era tornar-se médica. Como não podia nem sentar-se, decidiu aproveitar a “oportunidade” (expressão dela mesma) de estar por longo tempo na cama, pediu a caixa de pintura a óleo e pincéis que pertenciam ao pai e começou a pintar