Arquivo para a Categoria 'Diversos'

Incompletude

O coração estava pronto e disponível para recuperar as histórias pela metade, remendar os assuntos truncados, dissolver as emoções engolidas e arejar as idéias mofadas. O diálogo dos olhos e de mãos desarmadas transformariam este esperado encontro em uma experiência rica.

A mesa preparada com a cerveja leve e escura na medida do seu paladar; as frutas suculentas e o cheiro do pão traziam até a sala um recreio com brincadeiras de roda e cabra-cega.

Já no ponto, a água tépida do banho para enxaguar-lhe o cheiro lá de fora, o pó das regras oficiais, dissolvendo-lhe a couraça…

Ao som do piano poderíamos compreender que a simples aceitação da acolhida é a única via para amenizar a travessia neste deserto humano.

Uma expectativa alegre iria acompanhar os seus passos saltitantes e o sorriso de chegada à porta destrancada… num átimo, o calor de um abraço de rodopio; aí alcançaríamos o descanso da sombra de uma árvore e o gosto de um gole de água fresca no côncavo da mão…

A tarde se foi, as estrelas chegaram… seu lugar ficou vazio…

Copyright©2012 Maria Brockerhoff

Ah! Uma Ilha…

Quero uma ilha!
Chega de mim
Chega de gente
Agregado ou
Dependente
É só armadilha
Mar sem trilha
Canoa sem quilha.

O tal ser humano
Ignorante ou letrado
É bicho complicado
Não tem saída
Desta louca corrida
Tal qual boiada
Solta, sem destino
Em busca do nada!

Basta
Gente madrasta!
A vida é boa
Brisa na proa…
Sejam agora
Jogados fora
Os chatos, os mal-amados
Sem demora afogados
Todos os mal-acabados…

Copyright©2011 Maria Brockerhoff

Rubem Alves

Filósofo, psicanalista, escritor, educador. Despediu-se da Folha de São Paulo no início do mês…

Da crônica “Ganhei Coragem” de Rubem Alves:

“Só tardiamente ganhamos a coragem de assumir aquilo que sabemos”. Tardiamente. Na velhice. Como estou velho, ganhei coragem. Vou dizer aquilo sobre que me calei: “O povo unido jamais será vencido”: é disso que eu tenho medo.

…a democracia é o governo do povo… Não sei se foi bom negócio: o fato é que a vontade do povo, além de não ser confiável, é de uma imensa mediocridade. Basta ver os programas de televisão que o povo prefere.

…O povo sempre preferia os falsos profetas aos verdadeiros, porque os falsos profetas lhes contavam mentiras.  As mentiras são doces. A verdade é amarga. Os políticos romanos sabiam que o povo se enrola com pão e circo. No tempo dos romanos o circo era os cristãos sendo devorados pelos leões. E como o povo gostava de ver o sangue e ouvir os gritos! As coisas mudaram. Os cristãos, de comida para os leões, se transformaram em donos do circo. O circo cristão era diferente: judeus, bruxas e hereges sendo queimados em praças públicas. As praças ficavam apinhadas com o povo em festa, se alegrando com o cheiro de churrasco e os gritos.

…os indivíduos, isolados, têm consciência. São seres morais. Sentem-se “responsáveis” por aquilo que fazem. Mas quando passam a pertencer a um grupo, a razão é silenciada pelas emoções coletivas. Indivíduos que, isoladamente, são incapazes de fazer mal a uma borboleta, se incorporados a um grupo, tornam-se capazes dos atos mais cruéis. Participam de linchamentos, são capazes de pôr fogo num índio adormecido e de jogar uma bomba no meio da torcida do time rival. Indivíduos são seres morais. Mas o povo não é moral. O povo é uma prostituta que se vende a preço baixo.

…uma das características do povo é a facilidade com que ele é enganado.

…O povo não pensa. Somente os indivíduos pensam. Mas o povo detesta os indivíduos que se recusam a ser assimilados à coletividade. Uma coisa é o ideal democrático, que eu amo. Outra coisa são as práticas de engano pelas quais o povo é seduzido. O povo é a massa de manobra sobre a qual os espertos trabalham.

…Durante a Revolução Cultural na China de Mao-Tse-Tung, o povo queimava violinos em nome da verdade proletária.

…O povo unido jamais será vencido! Tenho vários gostos que não são populares. Alguns já me acusaram de gostos aristocráticos… Mas, que posso fazer?

…Gosto de Bach, de Brahms, de Fernando Pessoa, de Nietzsche, de Saramago, de silêncio, não gosto de churrasco, não gosto de rock, não gosto de música sertaneja, não gosto de futebol (tive a desgraça de viajar por duas vezes, de avião, com um time de futebol…). Tenho medo de que, num eventual triunfo do gosto do povo, eu venha a ser obrigado a queimar os meus gostos…

Esculturas…

…humanas!

Esculturas…

…em pneus:

Jean-Luc Godard

…definiu bem a obtusa subjetividade humana. Em Pierrot le Fou (no Brasil, “O Demônio das Onze Horas“) o personagem de Godard diz:

Não dá para conversar com você. Nunca tem idéias, você só tem sentimentos!

 

Esculturas…

…em morangas:

Ainda bem que há loucos assim!

 

Quer Perder Um Amigo?

Há dois meios certeiros de perder um amigo: pedir empréstimos ou concedê-los.

(em “The Name of the Wind” de Patrick Rothfuss – tradução livre)

No popular:

Se um amigo pedir-lhe dinheiro, você pode optar entre perder ambos, ou apenas o amigo.

:-)

O amorelindo…

Trouxa pra tudo
o apaixonado
coitado
todo enredado
em laços de veludo
do amor interesseiro
se queima no braseiro
das maracutaias
das tocaias
bem disfarçadas
bem mascaradas.

O enamorado
emboscado
enrolado
em beijos e abraços
não vê os traços
do ser amado a galope
fincando as esporas
o freio
o arreio
e o tolo amante
em estado de graça
entrega-se à mordaça.

É uma fileira
de asneira
de besteira
é total a cegueira.

A teia dourada
bem amarrada
sufoca
aperta
tarde demais
o bobo desperta
sente a caçada
a armadilha
a punhalada.

Copyright©2011 Maria Brockerhoff

Ilusão de Ótica

Veja só:

O artista responsável é François Abelanet. Confira a foto ampliada: é uma praça PLANA!

Aqui detalhes e vídeos. Mais explicações neste artigo.  O termo técnico para esta ilusão é anamorfose.