Arquivo do Mês para setembro, 2010

Palavra de Político

Em janeiro de 1936, Hitler declarou:

Saiba o mundo que a Alemanha será pacífica e amará a Paz…

in Saramago – Biografia / João Marques Lopes, 2009 — pg.34

Istambul

A Turquia é a terra onde pode-se ir mil vezes… é fascinante. Os bazares são um mundo de sons, cores e cheiros. Os queijos enormes, colméias inteiras, doces e especiarias inigualáveis. A gente é bonita e os homens especialmente cavalheiros.

A visita à Hagia Sophia, à Mesquita Azul e ao misterioso Topkapı – residência do sultão – se equipara a uma maravilhosa peregrinação, quando se vai pela primeira vez. Porém, há um lugar impressionante nem tanto frequentado por turistas: a Cisterna da Basílica, restaurada há 20 anos, é um retângulo de 10.000 m² e 8 m de altura, sustentado por 336 colunas bem abaixo da rua.

Estes reservatórios, muito antigos, eram a provisão de água da cidade e estratégia de conservação, porque o inimigo atacava primeiramente os aquedutos. A água nessas cisternas chegava ao teto.

Atualmente fizeram passarelas para o visitante percorrer todo o espaço. O nível de água é baixo; se criam carpas para a limpeza do reservatório e sinalizar vazamentos.

Essa cisterna tem a “Coluna das Lágrimas”, que veio de Creta, é esverdeada e cheia de “olhos” que minam as lágrimas dos escravos, daí o nome; há duas colunas que se apoiam numa cabeça de Medusa. Esta base, segundo a lenda, foi colocada de cabeça para baixo por Constantino, para demonstrar que os deuses pagãos estavam mortos. Outros afirmam que a intenção era neutralizar o olhar mortal da Medusa.

Em um canto, há um pequeno palco para concertos para um número reduzido de pessoas. A construção da cisterna é engenhosa, no estilo catedral, com dezenas de colunas e arcos realçados pela iluminação.

A lembrança deste lugar nos leva lá de volta trazendo a mesma sensação de sossego e encantamento.

Haicai

 

Vem flor vem hera
apesar de parente
é primavera

Copyright©2010 Maria Brockerhoff

Ponto de vista


O dinheiro pode comprar um cão excepcional;
não compra o aceno da sua cauda.
Josh Billings

Jean-Yves Leloup: Os rins

No livro O Corpo e Seus Símbolos, já citado, a lição de Leloup é escutar o corpo “que não mente”; o corpo é “nossa memória mais arcaica… nele nada é esquecido”; cada acontecimento deixa no corpo uma marca profunda.

Leloup nos ensina que um atento observador pode constatar em si mesmo e nos outros a incrível simbologia dos rins. Nesta linha de pensamento, os rins são locais de “escuta” no interior de cada um; os rins escutam e filtram as mensagens do sangue, purificando-o.

Atualmente, vivemos sobrecarregados e estes excessos tornam impossíveis aquela filtragem… por isso, tantos problemas renais.

As dificuldades da função renal podem ser indicações de que estamos na direção errada, de que nos fatigamos inutilmente… a nossa vida está sem ou perdeu o objetivo.

Alguns problemas renais indicam desperdício, perda de energia e, muitas vezes, omissão em atender “a solicitação do corpo para mudar de direção… e a maneira de viver”.

A doença é um esforço do corpo para se curar, é o aspecto positivo de maladie – em francês, um mal a dizer -. Finalmente, a sábia conclusão do mestre:

Os rins são um espaço para a palavra que temos de escutar.

Oásis

…avenida Pedro II, trânsito lento, casario feio, passeios cheios de lixo; à direita, avenida Bias Fortes; o viaduto enegrecido completa a paisagem desolada da cidade grande.

Logo depois da esquina, uma massa dourada à direita, um oásis de flores amarelas, algumas pétalas esvoaçando…
    a rua se iluminou
    a feiura sumiu
    os cachos coloridos penetram a retina
    um fio de esperança desponta.

Este Ipê magnífico, como o são todas as árvores, recebe em troca as queimadas, as serras elétricas e a derrubada para os blocos de cimento disfarçados em áreas de “lazer” e em espaços “gourmet”.

Oh! humanidade desvairada…
    Que venha o outro dilúvio!

Marilyn

O vestido de Marilyn Monroe, na noite de gala do aniversário de JFK em Nova York, em 1962, foi desenhado e cortado por Jean-Louis Berthauldt, estilista francês, que já inventara a incrível silhueta de Rita Hayworth em Gilda.

Marilyn deu-lhe uma única sugestão: “faça um vestido que somente Marilyn ouse usar” – dito e feito!

O mago da costura desenhou um sonho; o vestido foi feito com tecido tão leve e transparente como uma nuvem de seda, foi fabricado especialmente para este dia.

Foi necessário sobrepor 20 camadas de seda nos seios e entre as pernas para evitar transparências e “seis mil pedras de strass foram semeadas por todo o tecido, fazendo-o cintilar”. Dezoito costureiras trabalharam por quase uma semana. Impossível vestí-lo; foi costurado, literalmente moldado sobre a pele de Marilyn. Então, ela só pôde entrar no palco com passinhos minúsculos como os de uma gueixa. Delírio absoluto…

O traje custou 12 mil dólares equivalentes a quase 200 mil reais de 2010; foi leiloado pela Christie’s por mais de um milhão de dólares.

A apresentação do  “Happy Birthday, Mr. President” (um tanto desafinada ;-) ) durou 7 minutos e foi o que restou daquela época – de orgias e guerra fria – regada a Dom Pérignon.

Em 4 de agosto do mesmo ano, Marilyn mergulha para sempre, à deriva, “na escuridão de azeviche”.

Quanto desperdício!

(do livro “Marilyn et JFK”, de François Forestier, jornalista e crítico de cinema, romancista e biógrafo.)

Haicai

 

Uma begonia
transformou-se em mulher
é bem a Sonia

Copyright©2010 Maria Brockerhoff

A chuva

Para Heloísa…

Finalmente
na madrugada
a chuva pesada!

lavou a carência
da terra rachada

levou a poeira
limpou a cumieira

entumesceu as raízes
renovou os matizes

forte e com jeito
encharca o vale
seco do peito

Copyright©2010 Maria Brockerhoff

Frida

Frida – A Biography of Frida Kahlo (Hayden Herrera, 1983).

A vida de Frida Kahlo é a mais arrojada ficção, ultrapassa qualquer criação imaginária.

As circunstâncias do acidente fazem refletir sobre a imponderabilidade da vida…

Frida e o namoradinho Alejandro pegaram um ônibus na tarde de 17/9/1925. Frida notou que havia perdido a sombrinha e desceram para procurá-la. Pegaram o próximo e logo depois se deu a colisão entre o bonde e o ônibus.

Frida quebrou a coluna em três lugares, a clavícula, a terceira e quarta costelas. A perna direita teve 11 fraturas, o pé direito foi deslocado e esmagado, o ombro direito deslocado, a pélvis quebrada em 3 lugares. O corrimão de aço atravessou a pélvis, empalando-a. Frida sofreu, pelo menos, 32 cirurgias. Na infância, já superara surpreendente e corajosamente, através de exercícios físicos, uma pólio.

Outra pitada surreal: alguém – provavelmente um pintor – trazia um pacote que estourou e um pó dourado cobriu o corpo ensanguentado de Frida, aí as pessoas gritaram “a bailarina! A bailarina!”

À época, Frida não encarou o acidente como tragédia; procurou direcionar, da melhor forma, a imobilidade forçada. Embora tivesse interesse em artes, a ambição maior era tornar-se médica. Como não podia nem sentar-se, decidiu aproveitar a “oportunidade” (expressão dela mesma) de estar por longo tempo na cama, pediu a caixa de pintura a óleo e pincéis que pertenciam ao pai e começou a pintar