Arquivo do Mês para abril, 2010

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Oscar Wilde

escritor irlandês (1854-1900), adorável; a obra mais conhecida é O Retrato de Doryan Gray; a vida deste carinha incomparável teve a rapidez e a intensidade de um relâmpago; a sensibilidade de Wilde é visceral; O Rouxinol e a Rosa é um conto inesquecível!

O humor de Wilde é delicioso:

Os jovens costumam considerar que o dinheiro é tudo; quando ficam mais velhos podem comprovar isso!

Certas criaturas têm a mania de dar conselhos precisando tantos para si; isto é que chamo de excesso de generosidade.

Só os que perderam a cabeça sabem raciocinar.

Quem, sendo amado, é pobre?

Jean-Yves Leloup

…é maravilhoso da cabeça aos pés! Dá gosto ler e ver…

No livro O Corpo e Seus Símbolos (a edição poderia ser bem melhor; a revisão também; o conteúdo merece), Leloup diz:

há palavras que permanecem presas em nossa garganta e nos impedem de respirar [...] pode ser uma palavra de reprovação, de medo, mas pode ser também uma palavra de amor. [...] O papel da psicanálise é encontrar a palavra e o jeito de dizer essa palavra. [...] E o papel do terapeuta é o de convidar a pessoa a deixar sua palavra nascer. Não a palavra dos pais, não a palavra da sociedade, não a palavra herdada de todo um passado, não repetições, mas encontrar [...] o seu próprio nome. E conhecer, então, o próprio desejo.

Para isso

[...] precisamos sair do desejo de nosso pai, do desejo de nossa mãe. [...] do desejo proposto pela sociedade. [...] é preciso sair das palavras que aprendemos, das palavras que nos impuseram. Às vezes, é apenas um sussurro que nasce em nós. Não é um rio caudaloso [...] mas é como um pequeno regato de águas límpidas.

Doris Lessing

Sou assaltante de livros: se a vítima está nas mãos de um amigo sem tempo para ler ou aguardando o próximo final de semana para isso, zás! tomo-o de assalto e cumpro o prometido, devolvo o volume encapadinho dois dias depois.

O último butim foi As Avós de Doris Lessing, inglesa, nascida na antiga Pérsia, de 91 anos.

O livrinho (os autores devem se arrepiar com o diminutivo) somente pelo volume bem fino, é instigante, profundo. Descreve um invejável estado de felicidade e a solução amorosa dos amantes incomuns.

Mostra, com maestria, o emaranhado das relações humanas, assim como quem não quer nada… sem lições… sem propósitos… Lessing se dá ao luxo de, às vezes, deixar no ar frases do diálogo!

Do assunto “avós” passa longe. Li, reli. Ao terminar voltava ao início consecutivamente.

A cada leitura um novo ângulo, um outro lado do personagem, uma faceta não apreendida…

Quem já aprendeu a ler subtextos enxerga a interpretação que Lessing dá ao esquecido adágio “os incomodados que se mudem”. É que, nos triângulos desamorosos, quando a pessoa tem a sensacão de não pertencer ao grupo, à tribo, ao mundo do parceiro e não sente ter importância naquele ninho, se tiver auto-estima, bate em retirada! Irá buscar o seu lugar afetivo longe dali, sem exigências, sem “indenizações”.
Se, ao contrário, for ressentida e invejosa tentará destruir o parceiro, o grupo, a tribo… não importam as feridas, os golpes, ainda que na própria pele… Lessing demonstra, com lucidez, estas duas escolhas.

Este é apenas um dos insights que o livro provoca… há muitos outros… descubra-os!

Preciosa

O filme Preciosa foi baseado no livro Push de Ramona Lofton, nascida na Califórnia; retrata alguns traços autobiográficos e o comum na vida de muitas filhas. Ramona passou a se chamar Sapphire e mora em Nova York.

A autora foi professora por sete anos numa escola alternativa no Harlem, tal como no filme. Essa experiência torna o filme ainda mais duro e desnuda um submundo no qual mulheres vegetam sem ao menos saber que são pessoas. Perversamente a situação é quase sempre alimentada por outras mulheres.

A princípio, Preciosa não conseguia formular uma frase com sujeito e verbo, nem mesmo no dialeto do Harlem. Aí, o diretor Lee Louis Daniels segue as pegadas magistrais de Sapphire ao mostrar o lento e significativo progresso da fala de Preciosa: a fase do balbucio equivale ao não-ser; ao elaborar frases, torna-se pessoa.

É uma transformação que vem de dentro para fora e tornou-se possível quando, através dos rudimentos da escrita, algumas meninas percebem uma fresta dentro de si mesmas. Com a ajuda imprescindível e paciente da professora, Preciosa começa a descobrir, contra todas as expectativas, forças para buscar outro caminho.

O filme escancara as relações familiares nos moldes em que estão estabelecidas desde sempre. A exposição da comunidade do Harlem, que Sapphire conheceu bem, é o retrato da hipocrisia familiar, do mito da inata disposição materna, da ignorância absoluta dos deveres paternos.

Aplicável ao quotidiano a explicação da professora para as suas alunas:

esta escola (a armadilha familiar, dizem as Erínias) é uma porta giratória, umas conseguem sair… outras não…

Deve ser visto.

Ponto de Vista

Três homens trabalhavam numa pedreira.

Um deles reclamava sempre, o outro era indiferente;
o terceiro trabalhava alegre com afinco.

Certa vez perguntaram-lhes o que faziam:
—quebro pedras, cuspiu o primeiro;
—carrego blocos para pagar as contas, mastigou o outro;
—estou construindo catedrais, sorriu o terceiro!

Adaptação de história de domínio público, Copyright©2010 Maria Brockerhoff

Poema

Jorge de Lima

Também há naus que não chegam
Mesmo sem ter naufragado
Não porque nunca tivessem
Quem as guiasse no mar
Ou não tivessem velame
Ou leme ou âncora ou vento
Ou porque se embebedassem
Ou rotas se despregassem
Mas simplesmente porque
Já estavam podres no tronco
Da árvore de que as tiraram