Arquivo do Mês para abril, 2010

Língua à Brasileira – S.O.S.

Pobre Língua Pátria! Assaltam cada vez mais o coitado do vocábulo plural: juntos.

Insistem em tirar-lhe a última e valiosa letra S!

Influência do Planalto Central, o comedor-mor de SSS?

Exemplos corretos, onde o plural é rigorosamente exigido:

  • Saímos juntos.
  • Meu namorado e eu moramos juntos/fomos morar juntos.
  • Fomos juntos/juntas ao cinema.
  • Assinamos o contrato juntos.
  • Os amigos foram ao aeroporto juntos.

Sempre que houver mais de uma pessoa ou coisa, usa-se o plural juntos/juntas.
Exemplos corretos:

  • As sandálias estão juntas embaixo da cama.
  • Coloquei juntos no prato o arroz e o feijão.
  • Sentaram-se juntos os noivos e os pais à mesa.
  • Os soldados e o povo cantaram o hino nacional juntos.
  • Faremos a peça juntos/juntas.

Se for singular, aí sim, será correto o uso junto (aqui sem s):

  • Vai sair? Irei junto com você (Veja o plural: iremos juntos/juntas até ao porto).
  • O casal voltou junto de táxi (Veja o plural: Os dois voltaram juntos de táxi).
  • O pessoal saiu junto em procissão. (Veja o plural: as pessoas sairam juntas em procissão).

Basta um pouco de atenção e o nosso Machado de Assis não levará tantos sobressaltos…

Calendário Chinês

O calendário chinês é o mais antigo registro cronólogico que há na história, começa em 2637 A.C.

Segundo a lenda, Buda chamou todos os animais à sua presença antes de partir da terra; somente doze vieram dizer-lhe adeus. Em recompensa, Buda deu a cada ano o nome do animal na ordem em que chegaram:

rato (“Shǔ” 鼠); boi (“Niú” 牛); tigre (“Hǔ” 虎); coelho (“Tù” 兔);
dragão (“Lóng” 龍); serpente (“Shé” 蛇); cavalo (“Mǎ” 馬); carneiro (“Yáng” 羊);
macaco (“Hóu” 猴); galo (“Jī” 雞); o cão (“Gǒu” 狗); o porco (“Zhū” 豬).

Assim temos os doze animais-signos da atualidade; o animal regente do ano em que você nasceu, dizem os chineses, exerce profunda influência sobre a sua vida: “esse é o animal que se esconde em seu coração”.

Cada um dos signos-animais aparece combinado com um dos cinco elementos principais: madeira, fogo, terra, metal e água.

O calendário chinês é curioso; traz, em si mesmo, boa dose de humor; é ótimo assunto numa roda e costuma desmonstrar as mais interessantes coincidências.

O calendário lunar oriental registra, com mais acertos, as mudanças das estações e os fazendeiros chineses o usavam para procurar os dias mais favoráveis à semeadura, colheita e previsão de chuvas.

Ainda hoje, muitos ainda o consultam para saber a época mais propícia para construir a casa, para o casamento, para uma decisão importante e, principalmente, para os festivais chineses.

O calendário chinês é enriquecido pelas interpretações de adivinhos chineses, lendas, mitologias e livros bem antigos.

Podem-se fazer divertidas e, às vezes úteis, observações entre a maneira de ser dos amigos e as características do signo-animal correspondente. Por exemplo:

  • aquele cliente caprichoso e volúvel deve ser do ano do cavalo;
  • as pessoas nascidas no ano do carneiro “comem papel”, ou seja, esbanjam dinheiro;
  • os nativos de serpente são encantadores, mas também podem ser frios e impiedosos;
  • aquele tio, capaz de consertar tudo, nasceu no ano do habilidoso macaco;
  • o marido lento, conservador e seguro pertence ao fidedigno boi;
  • alguém confiável e diplomata é coelho;
  • o otimista é tigre;
  • o forte é dragão;
  • o infatigável é rato…

Curiosidades:

  • Ano do boi: Adolf Hitler; Charlie Chaplin;
  • Ano do coelho: Albert Einstein; Fidel Castro; Josef Stalin;
  • Ano do Dragão: John Lennon; Ringo Starr;
  • Ano da serpente: Pablo Picasso, Johannes Brahms, John Kennedy, Indira Gandhi;
  • Ano do cavalo: Barbra Streisand; Paul McCartney.

Se quiser saber sobre o seu signo-animal, coloque a data de nascimento, se possível a hora, no comentário. As Erínias adoram uma boa brincadeira :-)

Ponto de Vista

…somente os transgressores transformam o mundo.

Copyright©2010 Maria Brockerhoff

Ponto de Vista

Ajudar o outro pode ter curiosas facetas… Léon Tolstói, em “What then must we do?” Oxford University Press, 1975, demonstra uma delas:

Sento-me às costas de um homem, sufocando-o e fazendo-o carregar-me; contudo, afirmo a mim mesmo e às pessoas que sinto muito por ele, e que desejaria aliviar-lhe a situação por todos os meios possíveis – exceto apeando-me de suas costas.

Impressões de Viagem: Islândia

As Erínias também estão fascinadas com as erupções na ilha. É esta mistura de assombro e encantamento, que alimentou o sonho de infância de Alecto, que intrigada percorria os paises mais distantes e exóticos num velho e mágico Atlas…

Aquela pequena ilha perdida no oceano Atlântico, dependurada no círculo Polar Ártico, era a misteriosa terra do gelo, dos vulcões, das cascatas de água fervente brotando das fendas. Naquela época, a Islândia ficava, ainda, mais longe e inacessível para o dedo bem pequeno, que viajava naquelas páginas…

Como todo desejo costuma se realizar, as Erínias, numa clara manhã, temperatura média em julho de 2°C, aportaram em Akureyri para os revigorantes banhos em água sulfurosa, abertos desde o ano de 1300; são divisões das placas continentais que expelem águas sulfurosas a mais de 130°C; antes de chegar às piscinas naturais precisam ser resfriadas; a água azulada com a consistência cremosa de xampu provoca uma deliciosa sensação! Dos poços sulfurosos a vista das rochas vulcânicas multicoloridas naquela imensidão vazia…

As usinas geo-térmicas estão funcionando a todo vapor.:-) A água quente na Islândia é praticamente gratuita e distribuida à vontade; a energia elétrica tem duas fontes: termo-életrica(vapor) e hidro-életrica(represa), portanto é muito barata e não poluente. O ar é puro e, quase, não existe poluição. Que ironia agora!

Há um programa do governo, já bem adiantado, para substituir o diesel pelo hidrogênio; já funcionam ônibus movidos a hidrogênio.

A Islândia é a democracia mais antiga da Europa; eleições há mais de MIL anos; a penúltima presidente ficou 16 anos (muitos políticos por aqui ficariam verdes de inveja),  escolhida em eleições livres sem manobras, manipulação ou outros tipos de pressão conhecidos nestas pl(r)agas sul-americanas; até bem pouco tempo não havia residência “oficial”; os presidentes continuavam a morar na própria residência.

O atual presidente foi reeleito e, possivelmente, irá para o terceiro mandato por única vontade popular! Há, sim, muitos partidos políticos, que se interessam pelo bem estar da população; alguns se limitam a um único município. É comum, na Islândia, um governo de coalização.

A capital Reykjavík é bem arborizada, apesar de as árvores crescerem mais vagarosamente por causa do vapor d’água sulfurosa. Em plena praça, há fontes que exalam vapor. A cidade é moderna mas conserva, com cuidado, a parte antiga do centro e algumas casas ainda são originais (1786). A antiga prisão é hoje o escritório do primeiro-ministro.

Os icebergs fazem parte da paisagem, são majestosos e inigualáveis recortando o horizonte.

Impressões de Viagem: China

As Erínias perambularam por alguns lugares na China.

Os conceitos e os pre- são todos revirados; aliás, isto é um dos bons resultados de viagens.

O primeiro susto, nas cidades chinesas, é o trânsito. Não se percebem regras, leis de trânsito estabelecidas, mas… não se vêem acidentes: bicicletas, carrinhos improvisados (muitos elétricos), motos, lambretas (também elétricas), pedestres, carros, ônibus e caminhões trafegam em todas as direções, em velocidade moderada.

Aconteceu haver seis carros na pista, inclusive nos acostamentos e na contramão, todos no mesmo sentido. A buzina funciona simplesmente como um aviso: “estou entrando”. Não se ouvem xingatórios nem freadas bruscas. Há sinais, sim, nas autopistas para que se use a buzina nas curvas (!).

Já no segundo dia parece haver uma lógica neste caos: cada um pode fazer como lhe convier sem reclamações mútuas (isto é o mais surpreendente); assim, não havendo outras regras pré-estabelecidas, cada motorista/pedestre se cuida e/ou recua quando o outro for mais potente ou mais rápido.

É comum o motorista dar ré, fazer conversão, ou mesmo parar por qualquer motivo em plena avenida ou rodovia, sem espanto dos nativos. Em determinado trecho, havia um rebanho de ovelhas e os motoristas saíram dos veículos para organizar a passagem do bando; todos esperaram o fim das manobras, aguardando a vez.

A conclusão possível é que, por aqui “neste país”, os acidentes são provocados pelos motoristas desobedientes aos sinais e à convenção de trânsito; espera-se, por exemplo, que a ultrapassagem seja feita pela esquerda e/ou em determinados pontos. Quando alguém quebra esta regra, a possibilidade de acidente é grande. Lá na China, como regra geral, vale a passagem possível, onde couber, em qualquer direção, sem motoristas raivosos. Ah! Os pedestres são bem espertos.

Parece que os chineses compensam no trânsito a liberdade que lhes falta; assim, não há sentido preferencial; cada um busca, literalmente, uma saída criativa.

O requinte encontra-se em Wu Tai Shan, uma cidadezinha nas montanhas, onde os 149 templos/pagodes de variados estilos dão um toque especial e são bem cuidados pelos monges residentes: os ônibus, gentilmente, param para o turista em qualquer lugar. Todos os passageiros nos cumprimentam e sorriem… ou para nós ou de nós. :-)

Luis Fernando Veríssimo

Ver!issimo (Comédias Brasileiras de Verão)

Nestas linhas, o nosso mais bem humorado escritor ( o bom humor é sinal explícito de inteligência!) se esmera e vai fundo na carência das relações humanas:

O mistério

Ou como dizia aquele samba do Nelson Sargento, numa adaptação livre:

Nosso amor é bonito.

Ela finge que me ama e que todos os seus orgasmos são múltiplos, espasmódicos, gloriosos, com fogos de artíficio, revoada de pombos e a orquestra dos Fuzileiros Navais em uniforme de gala.

E eu finjo que acredito.

Urtiga: o Outro Lado da Folha

É sinônimo de queimação; da pobre urtiga (Urtica dioica) brotam os dolorosos derivados urticar, urticação, pois contém ácido fórmico e suas enzimas são parecidas com o veneno de cobra… mas é rica em vitamina C, ferro e magnésio; é diurética e antidiarréica, cura as infecções da boca e as aftas. Além de bonita, a urtiga é boa companheira para outras plantas, protegendo-as de predadores e atraindo insetos úteis.

Claro, as suas folhas devem ser manipulados com cuidado, pois podem irritar severamente a pele. Contudo, seu valor nutritivo equivale ao do espinafre e uma sopa de urtigas com batatas enriquece qualquer refeição.

A urtiga é uma erva ótima para a pele e os cabelos, combatendo eficazmente a caspa; um chá bem forte na água do banho deixa a pele macia e estimula a circulação. A máscara de urtiga rejunevesce e clareia a pele. Extratos podem ser usados para tratar artrite e anemia.

Curiosamente, algumas tribos usavam a planta como anestésico antes de cirurgias ou para aliviar a dor. Na Escandinávia, serve para fazer linha; na Sibéria, para papel e óleo. No Nepal e no norte da Índia é muito popular na cozinha combinada com temperos indianos. Na Europa, o extrato de urtiga é um ingrediente em vários doces, xaropes e licores.

No mundo mágico, as folhas atiradas ao fogo afastam os perigos e são poderosas como amuleto. Uma crença muito antiga diz que um ramo de urtiga debaixo da cama faz com que o paciente se recupere mais depressa.

Também as plantas nos ensinam: quem só enxerga espinhos não aproveita do coração!

Fontes: “As Plantas do Sítio” de Rosy Bornhausen (1995), Словари и энциклопедии на Академике (foto), Encyclopedia of Organic Gardening (2005).

Por do Sol

É, por definição, indescritível.

Podemos falar das batidas aceleradas do coração,
da perplexidade diante daqueles raios coloridos tirando-nos o folêgo.

A despedida de hoje foi, mais uma vez, surpreendente e
quem teve a sorte grande de estar na platéia
pôde guardar este por de sol na retina e trazê-lo de volta…
para iluminar um momento escuro.

Fiódor Dostoiévski

Do genial Fiódor Dostoiévski (1821-1881) em O Idiota:

…estou sòzinho no vagão. Fumar não é proibido mas também não é permitido; ou seja, é semipermitido, como de costume; e isso dependendo da pessoa. A janela está aberta. De repente, instalam-se duas damas com um totó, bem à minha frente; chegaram atrasadas; uma estava vestida de forma mais elegante, de azul claro; a outra, mais simples. Eu sou bem apessoado, elas olham com desdém, falam inglês. Eu, é claro, não ligo; continuo fumando para fora da janela. O totó está no colo da senhora de azul claro, é pequeno, cabe na minha mão, preto, patinhas brancas, até uma raridade. Coleira de prata com uns dizeres. Eu não ligo. Observo apenas que as damas, parece, estão zangadas com o charuto, é claro. Uma aponta para mim o lornhão, de osso de tartaruga. Não falam nada mesmo! Se avisassem, se pedissem, porque para isso existe finalmente a linguagem humana! No entanto, se calam [...] Sem o mais mínimo aviso, todavia como se tivesse ficado totalmente louca, a de azul claro me arranca da mão o charuto e o joga pela janela. O trem voa, fico olhando como um louco. Uma mulher selvagem; selvagem mulher, os olhos brilham na minha direção, e eu, sem dizer palavra e com uma gentileza incomum, com a mais perfeita gentileza, gentileza refinada, por assim dizer, aproximo dois dedos do totó, pego-o delicadamente pela nuca e o arremesso janela afora atrás do charuto! Ele dá apenas um ganido! O trem continua voando…